O Tanoeiro da Ribeira

quarta-feira, novembro 26, 2025

VAMOS CONHECER PORTUGAL - V - ONDE A HEROICIDADE TEM NOME DE MULHER

Os de Monção orgulham-se da sua Deu-la-Deu Martins, figura lendária que levou os castelhanos a levantar o cerco a Monção, no reinado de D. Fernando. Com o resto da farinha, cozeu os últimos pães, subiu ao alto da muralha e, daí, atirou-os para o exército inimigo, gritando: ‘Como nós nos achamos bem providos e sabemos que vós estais com fome, aí vos mandamos estes pães e mais vos mandaremos se os pedirdes!”. Os castelhanos acreditaram que ainda havia muita abundância dentro da muralha e foram-se embora. Já em Melgaço, a heroína é Inês Negra. Aconteceu no tempo de D. João I que cercou o castelo de Melgaço (1388) partidário de Castela. Inês Negra, uma camponesa franzina, combatia ao lado dos portugueses até que apareceu, do lado dos castelhanos, a ‘Arrenegada’, uma mulher avantajada, que a desafiou para uma luta. Após um combate corpo a corpo, entre socos, pontapés, puxões de cabelo, dentadas e unhadas, a ‘Arrenegada’, descabelada e ensanguentada, acabou por cair por terra inanimada, enquanto, Inês, aclamada vencedora, era levada em triunfo para o arraial. No dia seguinte, o castelo entregou-se, sem resistência, às forças de D. João I. Para reviver a artimanha de Deu-la-Deu, espraiar os olhos pelas águas tranquilas do Minho que lhe correm aos pés, vamos começar o nosso passeio na fortaleza de Monção, erguida por D. Dinis. Depois… Subimos até ao Mosteiro de Sanfins de Friestas. Contemplamos a sua igreja românica que remontará ao século VII, extasiamo-nos com a amplitude da paisagem que desce até ao rio e respirámos a frescura da sua mata de carvalhos. Descemos e admiramos a ‘Torre da Lapela’, relíquia majestosa duma imponente fortaleza afonsina na margem do Minho. Seguimos para o mosteiro de S. João de Longos Vales, monumento nacional desde 1926, mandado construir por D. Afonso Henriques e entregue aos Cónegos Regrantes. O que mais nos impressiona é a ‘cachorrada’ da igreja românica com forte influência da Sé de Tui. Paramos na medieval ‘Ponte do Rio de Mouro’, onde, em 1386, D. João I se encontrou com o Duque de Lencastre e acordou o seu casamento com a sua filha Dona Filipa que esteve na origem da ‘Ínclita Geração’. Já no concelho de Melgaço, começamos no Convento das Carvalhiças, de estilo maneirista, onde o Coro Gregoriano do Porto (5/4/2003) cantou a Missa e deu um concerto de poesia e canto. Seguimos para o Mosteiro de Paderne, do século XI, românico, monumento nacional desde 1910, onde sobressaem, na fachada principal, os capitéis e a arcada. Continuamos para o Castelo de Melgaço dominado pela torre de menagem, (século XII), a sentinela mais setentrional de Portugal, onde podemos reviver a vitória de Inês Negra. É património nacional desde 1910. Em direção à fronteira de S. Gregório, paramos na Senhora da Orada (monumento nacional), românica e coeva da formação da nacionalidade. Daí, subimos até ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, do século IX, que pertenceu à Ordem de Cister. Depois, sucedem-se os píncaros desnudos da serra da Peneda, até ao Santuário da Senhora da Peneda, (século XVIIII) com uma imponente escadaria e coroado por um enorme penedo a que, dada a sua configuração, o povo chama Moisés. (Fotografia do Moisés) E a viagem termina em Castro Laboreiro- vila e sede de concelho de 1134 a 1855 - onde, já lá vão 50 anos, passámos uma semana, ainda as casas eram cobertas de colmo e as mulheres iam à missa com a sua capinha de burel. E lembro a amabilidade do pároco, P. Aníbal Rodrigues, que sempre nos acolhia no café, um apaixonado pelos dólmens e pelas gravuras rupestres das redondezas. E, como chave de ouro, subimos o altaneiro castelo, monumento nacional desde 1944, para tonificar os pulmões e, lá bem no alto, alongar o olhar pelas lonjuras do horizonte e descortinar as ‘brandas’ou ‘verandas’, no planalto, onde as famílias viviam com o seu gado durante o verão para aproveitar o pasto dos montes, e as ‘inverneiras’, na fundura dos vales, aonde se acolhiam, no inverno, para fugir à neve e cultivar as suas magras courelas. Obrigado pela vossa companhia. Espero que tenham gostado… (26/11/2025)

quinta-feira, novembro 20, 2025

NEM 'VALE DE LÁGRIMAS'...NEM 'MAR DE ROSAS'...

A inspiração para este texto nasceu no Dia de Todos-os-Santos, ao ouvir, na TV, uma jovem dizer que a ‘gente mais nova já não está para essas coisas’. E confirmou-se quando, ao visitar os cemitérios, vi poucos jovens e nenhumas crianças… O Homem, ‘ser bio-psico-social’ no dizer de Edgar Morin, é, na espiritualidade, que encontra a plenitude. ‘Ser das lonjuras e do simbólico’, procura um sentido para o imediato e o concreto em que vive mergulhado. Abre-se ao outro e ao ‘para além’. E aí, encontra as coordenadas que lhe orientam o agir: a da horizontalidade que, na sua imanência, o relaciona com os seus iguais - Ética - e a da verticalidade que o eleva à Transcendência - Religião. A antropologia afirma que, na Antropogénese - evolução da espécie - o ‘culto dos mortos’ é o primeiro sinal da espiritualidade humana. O ‘Homem de Neandertal’, há uns 400 mil anos, punha flores junto dos corpos que enterrava. No Paleolítico Superior, uns 50 mil anos atrás, colocavam no túmulo objetos do quotidiano Estes rituais indiciam que, já então, o homem despertava para o sentido do sagrado e do transcendente. O corpo é mais que um cadáver em decomposição. O outro pelo facto de morrer não deixa de fazer parte da vida. Ao longo dos séculos, com formas variadas, estes ritos perpassaram todas as culturas. Na atualidade, o homem, autoconvencido da sua omnipotência científica e tecnológica, ignora a finitude e recusa o mistério. Por isso, não encontrando remédio nem sentido para a morte, procura varrê-la para debaixo do tapete. E esta transformou-se no último dos seus tabus. A este propósito, quero partilhar convosco um texto que li no facebook: “Vivemos tempos estranhos. Pais que afastam os filhos dos funerais - “para não traumatizar?” – mas vestem-nos de mortos-vivos e fantasmas no Halloween. Dizem que o luto é pesado demais para uma criança. Mas o que é mais pesado? Ver alguém partir com amor e verdade, ou crescer sem nunca aprender a lidar com a perda? A morte não é um espetáculo, é um mistério. E escondê-la não protege – confunde. Quando a criança não é ensinada a despedir-se, ela aprende a fugir da dor. E quem foge da dor, um dia não saberá o que fazer com ela. (…) O Halloween banaliza o feio, o assustador, o sombrio – transforma o medo em entretimento. Mas o medo não educa. Dessensibiliza. E uma criança que brinca com o medo macabro, sem entender o sagrado da vida e da morte, cresce sem bússola emocional, sem reverência, sem profundidade. Não se trata de proibir festas. Trata-se de ensinar o que tem valor. De mostrar que a beleza é mais forte que o grotesco, que o amor vence a escuridão, que a fé dá sentido ao fim. Leva os teus filhos a um funeral. Deixa-os ver o amor que chora, a lágrima que despede, a mão que acaricia pela última vez. Ensina-lhes que morrer faz parte de viver. Porque uma criança que aprende a enfrentar a morte, saberá amar sem medo, sofrer sem se perder, e acreditar na vida que continua. Não é o Halloween que assusta. É a indiferença. É criar filhos que sabem brincar com o escuro, mas não sabem acender a luz.” (Padre João Torres). E recordei os tempos da minha infância em que partilhávamos do sofrimento da família quando alguém falecia e assistíamos ao seu funeral. Isso ia criando antídotos para momentos mais dolorosa da vida. Falemos dos ‘nossos queridos mortos’ às crianças. É a forma de lhes dar vida e de os tornar presentes no seu dia a dia. Uma vez por outra, convidemo-las a ir ajudar-nos a enfeitar os seus jazigos. Façamos silêncio e rezemos. E se nos virem a chorar, não faz mal, ficarãom a saber que, quando nos morre alguém, as lágrimas se escondem, silenciosas, no coração, sempre prontas a saltar-nos para os olhos… Razão tinha o saudoso Papa Francisco ao questionar esta sociedade que “oculta a morte porque isso empobrece a humanidade e rompe com os laços da compaixão”. É tempo de se rever ao espelho, esta sociedade, geradora de frustrações, que não prepara as crianças para a dureza dos dias. A terra não é um ´vale de lágrimas’, mas também não é um ‘mar de rosas’… Há horas para tudo, diz a Sagrada Escritura: “Há tempo para nascer e tempo para morrer. Tempo para chorar e tempo para rir. Tempo para gemer e tempo para dançar” (Ecl, 3, 2). (19/11/2025)

quarta-feira, novembro 12, 2025

AINDA SABE BEM OUVIR A SUA VOZ...

Lembrei-o quando, no mosteiro de Arouca, participava na ‘Missa de 7.º Dia‘do amigo P. António Brito Peres. E não foi por acaso. Por ambos dei graças. Era o ‘Dia de Todos-os-Santos’. - ”Santificai, Senhor, a Vossa Igreja.” (Oração dos Fiéis) “O livro da minha vida é o relato de um caminho de esperança que não posso imaginar separado da minha família, da minha gente Uma autobiografia é mais o nosso saco de viagem.” Assim começa a Introdução do livro ‘Esperança’ do Papa Francisco (pág.9) O ‘7Margens’, aquando da sua publicação, relevou o capítulo 21 (pág. 281) – ‘O escândalo da paz’ – em que o Papa dá conta dos seus esforços e dos seus contactos com Moscovo e Kiev, para acabar com “a Guerra (que) atingiu o coração da Europa e varreu as últimas ilusões acerca o ‘fim da história’ que haviam acompanhado a queda do Muro de Berlim” (pág. 282) Já o Jornal de Notícias (19/1/2025) valorizou peripécias que falam das suas ‘Traquinices de criança’ – espiar uma viúva e imitar os filmes; dos ‘Imprevistos’ – Cozinheiro aos 12 anos; dos ‘Namoros’ – Atração por três raparigas; das ‘Pequenas coisas’ – Saudades de comer pizza. Eu, porém, quero realçar a sua condição de filho e neto de imigrantes. Não é por acaso que este tema enche o primeiro capítulo que é precedido pelo ‘Prólogo’ (pág. 11) onde o Papa, com belo recorte literário, narra o naufrágio do ‘navio conhecido por ‘balaina’ (bailarina), com ‘mais de 1 200 passageiro, predominantemente migrantes piemonteses, lígures e venezianos’, quando ‘rumava às costas do Brasil, na direção de Porto Seguro”. E termina dizendo: “Os meus avós e o seu único filho, Mário, que viria a ser o meu pai, haviam comprado o bilhete para aquela longa travessia, para aquele navio que zarpou do porto de Génova a 11 de outubro de 1929, com destino a Buenos Aires. Mas não o apanharam. Embora tivessem tentado, não tinham conseguido vender a tempo aquilo que possuíam. No final, contra sua vontade, os Bergoglio foram obrigados a trocar o bilhete, a adiar a partida para a Argentina. Por isso, estou aqui agora. Não imaginam quantas vezes me encontrei a agradecer à Providência Divina”. O capítulo 1 (pág. 17) começa por informar: “Partiram, finalmente. “Uma multidão havia partilhado com eles aquela longa viagem de esperança. Teriam sido milhões e milhões a partir de Itália para ‘La Merica’ (…) Na direção de Buenos Aires, foram muito mais de duzentos mil, apenas nos últimos quatro anos que precederam aquele 1929.” Ontem como hoje… “Quem emigrava enfrentava geralmente todo o género de dificuldades e sacrifícios para embarcar. Quase sempre, depois de ter sido persuadidos por agentes e subagentes da imigração. Passavam nas aldeias durante as feiras, falavam da América como a nova ‘terra prometida’, uma terra de maravilhas. Pagos pela companhia de emigração por cada família que conseguiam convencer a abandonar as suas terras, estes agentes foram mesmo comparados, pela imprensa, a comerciantes de escravos.” E concretiza: “Porém, os muitos que o fizeram e desembarcaram em Buenos Aires, depararam-se depois com uma realidade áspera e dura, como uma bofetada, a do Hotel de Imigrantes, em que podiam permanecer não mais de cinco dias, onde o odor acre do ácido fénico não conseguia vencer o mau cheiro nauseante que vem do pavimento viscoso e sujo, um odor de humanidade amontoada, de miséria.” E assim se compreende a sua visita a Lampedusa: “Tinha de ir a Lampedusa para rezar, para realizar um gesto de proximidade, para exprimir a minha gratidão e o meu encorajamento aos voluntários e às populações daquela pequena realidade que sabia oferecer exemplos de solidariedade concretos. E, sobretudo, para despertar as nossas consciências e apelar às nossas responsabilidades.” (pág. 25) Deixou-nos um apelo de premente atualidade: “É preciso reagir com decisão a qualquer mentalidade de fechamento, de xenofobia, de recuo sobre si mesmo, e pior ainda, de ódio.” (pág. 57) E o Papa Leão XIV, na Praça de S. Pedro, durante Missa do Jubileu dedicado aos migrantes, renovou este mesmo apelo: “Irmãos, essas embarcações que esperam avistar um porto seguro onde se deter e esses olhos cheios de angústia e esperança que procuram uma terra firme onde chegar não podem, nem devem encontrar a frieza da indiferença ou o estigma da discriminação. - JN, 6/10/2025” (12/11/2025)

quarta-feira, novembro 05, 2025

MILHARES DE DOENTES MORREM SEM ACESSO AOS CUIDADOS PALIATIVOS

O nosso filho mais novo foi acompanhado, em casa, por uma equipa ambulatória de ‘Cuidados Paliativos’ do Hospital de S. João e acabou por falecer, nos ‘Serviços Paliativos’ do IPO do Porto, connosco a seu lado. Sabemos bem quanto isto o ajudou a viver a fase final da vida. Como nos sentimos gratos… Foi, pois, com pesar e indignação que li: “Estima-se que todos os anos cerca de 100 mil pessoas tenham, necessidade de cuidados paliativos, mas a resposta só chegará a cerca de metade. Muitos morrem sem nunca ter experimentado estes serviços.” (JN, 20/07/2025) Esta notícia dolorosa levou-me a recordar o livro “Morte a pedido – O que pensar da eutanásia”, da autoria de Walter Osswald, catedrático de Medicina da Universidade do Porto e nome consagrado da Bioética Começa por distinguir alguns conceitos correlacionados: - “Eutanásia é a morte de uma pessoa, provocada por outra, a pedido da que é morta.” - “Na ajuda ao suicídio, a pessoa que resolve suicidar-se não tem recursos materiais para o fazer (…) Dirige-se a outrem, em regra um profissional de saúde, pedindo-lhe que lhe faculte ou prescreva os meios necessários para a prática do ato letal.” - Doente terminal é aquele para quem os conhecimentos médicos atuais não preveem uma duração de vida superior a alguns meses (em regra fala-se de 6 meses), sendo irrecuperável o estado de saúde.” - Cuidados paliativos são cuidados prestados sobretudo a doentes terminais, em que se não visa, portanto, a cura, mas tão-somente o bem-estar e a qualidade de vida do paciente. (…) O objetivo é facultar ao doente uma fase final terminal de qualidade, sem sintomas penosos (dor, depressão, ansiedade, etc) sem apressar nem retardar a morte (que se procura serena, sem dor ou angústia, acompanhada por familiares).” Morte assistida – tem-se usado esta designação para abranger a eutanásia e a ajuda ao suicídio, mas é obviamente incorreta esta atribuição de significado. Morte assistida, por oposição à morte solitária, é aquela em que o ato de morrer tem assistência, isto é, há quem acompanhe o moribundo nesse momento único da sua existência. Essa companhia inclui a assistência médica prévia e a presença de pessoa(s) significativas. “(pág. 7 – 10) De seguida, para explicitar a confusão dos termos cita exemplos de que destaco: “Quando um conhecido médico afirmou ter praticado a eutanásia no seu próprio pai, por lhe ter retirado monitorização e terapia, trazendo-o do hospital para casa (…) – é obvio que não praticou eutanásia, apenas deixou morrer em paz. (…) Deixar morrer não é matar, é respeitar o decurso normal do processo vital, prestes a extinguir-se.” (pág. 17) Para evitar esta ‘confusão’, lembro a Diretiva Antecipada de Vontade (DAV) que veio dar a cada um de nós a possibilidade de, antecipadamente, dizer o que quer ‘quando se encontrar incapaz para expressar a sua vontade autonomamente’. Inclui: - ‘Não ser submetido a meios invasores de suporte artificial de funções vitais’; - “Não ser submetido a medidas de alimentação e hidratação artificiais que apenas visem retardar o processo natural da morte’; O Professor Osswald, “Em conclusão”, afirma que “a despenalização da eutanásia (…) resultaria em consequências calamitosas”: “Muitas pessoas inválidas, desejosas de poupar os seus cuidadores, muitos doentes receosos das suas progressivas incapacidades; alguns incentivados ou até coagidos por quem lucrasse (em trabalho, em espaço, em espécie) com o seu desaparecimento (…) - todos esses poderiam ver na eutanásia uma solução libertadora e legal. Claro que não cumpririam os critérios estritos, mas, como se viu noutros países, cedo se estenderia a noção de sofrimento insuportável a situação de desconforto psicológico, como as referidas.” (pág. 38) Ainda há dias, um nome mundialmente conhecido denunciou este efeito perverso “J.K. Rowling, a famosa autora do Harry Potter, no seu post de 12 de setembro passado, confessa que ‘acreditou na morte assistida, algo em que já não acredita’. Explica que tal mudança aconteceu, ‘em parte’, por ser casada com um médico que lhe ‘abriu os olhos para as possibilidades de coação sobre pessoas doentes e vulneráveis”. (7Margens, 29/9/2025) Especialmente, numa geração educada sob o signo do ‘complexo de culpa’… Concluindo… A nós, cumpre-nos dar voz a quem não a tem; aos órgãos de Soberania - Presidente da República, Assembleia da República, Governo e Tribunais - a obrigação proteger os mais frágeis. ( 5/11/2025)