O Tanoeiro da Ribeira

terça-feira, fevereiro 10, 2026

NUM LUSO-DESCENDENTE, A HOMENAGEM AOS MIGRANTES

Bem cedo, ouvi o nome da aldeia que confronta com as nossas ‘cavadas’ para onde, bem menino, levava o gado a pastar, como escrevi: “O sino da capela de Terronhas toca a Trindades. O pequeno pastor descobre-se e dá graças por mais um dia que vai chegar ao fim. É tempo de regressar a casa (VP, 26/4/2017). Era terra de boas casas agrícolas como a da família do monsenhor Adriano Martins, abade de Santo Ildefonso, de quem disse: “cultivou a austeridade e a honradez que bebeu no seio de uma família, muito estimada” (VP, 4/2/2009). Hoje, porém, quero homenagear uma família de gente humilde, mas igualmente honrada, com vários filhos emigrantes: ”Alguns deslocaram-se para a Europa, mas outros resolvem ir para o Brasil, que ainda era terra de oportunidades. Laurentino, na sua insatisfação, resolveu ser dos que arriscam o Brasil” (Uma Vida, Uma História, Fátima Silva, pág. 98) O Laurentino, logo que chegou ao Brasil – tinha frequentado um seminário em Braga - arranjou trabalho numa empresa de que, mais tarde, foi sócio. “O trabalho executado na firma de contabilidade tinha uma enorme reputação (…) Esta reputação devia-se à honestidade e verticalidade que eram reconhecidos a Laurentino. Foi membro do Lyons Club, chegando a presidente.” (O. c., pág. 99). Casou com a professora Isa Sousa e tiveram dois filhos. “Estes pais, imbuídos de amor pelos filhos, sempre foram o seu suporte educacional e moral” a que não faltou a educação cristã: como testemunha o seu filho António Carlos: “Aos domingos, após a missa das seis e do café da manhã, acompanhava meu pai…” (Pág. 26) E porque “a árvore boa dá bons frutos” (Mt 7,17), o António Carlos veio a ser um “cientista muito crente (…) que tinha uma fé muito especial por Nossa Senhora Aparecida e todos os domingos ia à Missa”. (Pág. 92) E quem foi António Carlos Marques da Silva, distinto matemático e ilustre cidadão brasileiro? Começou por fazer Engenharia Eletrónica na PUC-Rio de Janeiro. Em 1968 com uma bolsa de estudo “foi colocado na Faculdade de Matemática de Nice,” onde defendeu a tese de doutoramento que foi “ovacionada numa sala cheia e a classificação correspondeu à originalidade e valor da mesma- ‘Très bien’, a classificação máxima.” (Pág. 40) O seu percurso universitário começou em 1975/76 na Universidade do Porto, como ‘Professor Visitante’. “Por motivos familiares, recusou lecionar na Universidade de Aveiro e regressou ao Brasil.” (Pág. 46) A partir de 1976, foi professor da Universidade Federal de Alagoas onde chegou à Pró-Reitoria. Lecionou ainda na Universidade Federal de Pernambuco; na Escola Técnica de Alagoas, no Centro de Estudos Superiores de Maceió e na Faculdade de Alagoas Entretanto, foi publicando uma vasta bibliografia e desenvolvendo outras atividades de compromisso social, como a criação do ADUFAI (Associação dos Docentes da Universidade Federal de Alagoas) de que foi presidente. Mais que a frieza do currículo, emociona-nos o calor dos testemunhos: - “António Carlos foi um professor extraordinário. Como colega, aprendi muito com ele. Seu humor inteligente e sutil era um encanto, mais do que isso, foi um apoio inestimável para todos em redor. Porque ele era assim: generoso, eficiente e sempre pronto para ajudar, mesmo nas tarefas mais ingratas.” (Colega na Universidade, pág. 102) - ” António Carlos da Matemática, uma liderança que eu pude acompanhar a partir dos anos 1980, sujeito íntegro e comprometido com as grandes pautas e causas, a exemplo de outras lideranças sindicais” (Colega sindical, pág. 103) - “Rendemos uma justa homenagem ao Professor António Carlos, notável defensor das liberdades públicas e dos direitos fundamentais, cuja trajetória é marcada pelo compromisso inabalável com o saber jurídico, a cidadania e o bem comum. Nos anos em que esteve à frente da editoração da Revista do Ministério Público de Alagoas, desempenhou papel essencial. (…) Sua atuação fortaleceu o papel da instituição como defensora da cidadania e do desenvolvimento humano, especialmente no que tange à efetivação dos direitos que dignificam a pessoa. Agradecemos, com admiração e respeito, ao Professor António Carlos. (…) Sua marca permanecerá indelével no coração daqueles que acreditam na força transformadora do conhecimento e da justiça.” (Stela Cavalcanti, Homenagem ao Professor António Carlos, pág 104) Na evocação desta família com raízes em Recarei, Paredes, presto homenagem aos migrantes, generosos e eficientes, que, pela sua honestidade e verticalidade, se tornam uma mais-valia para as comunidades que os acolhem… (VP, 11/2/2026)