QUARENTA E CINCO ANOS SÃO PASSADOS...
Foi no dia 4 de dezembro de 1980…
No passado dia 10, o JN publicou um artigo de Maria Cândida Almeida, Ex-diretora do DCIAP, sob o título interrogativo “O herdeiro de Sá Carneiro?”, de que, com vénia, me faço eco.
Informa:
- “Durante um almoço-debate, esta semana, André Ventura afirmou querer ser o ‘herdeiro de Sá Carneiro’… “
Afirma:
- “Se esse é o seu desígnio, o seu projeto político de vida, então terá de rever o seu comportamento e a prática do seu partido, no que refere à verdade, à honestidade e ao rigor com que interagem com os cidadãos, residentes, estrangeiros e apátridas que vivem em Portugal.”
Contrasta:
- “Sá Carneiro era um democrata. Não era racista, nem xenófobo. É recordado pela sua frontalidade e verdade com que abordava e discutia os principais problemas do país. Era um Senhor.”
Conclui:
- (…) “Estas são apenas algumas deturpações da verdade insistentes nos discursos de André Ventura, que o afastam e opõem à figura política incontornável que foi Sá Carneiro.”
Em favor deste perfil do Dr. Francisco Sá Carneiro, lembro, no 45.º aniversário da sua morte, o que, em 2014, escrevi em ‘Nos Alvores da Obra Diocesana:’
- Humanista cristão:
“Muitos foram os voluntários que trabalharam na Obra. (…) Quero demorar-me um pouco a falar de Francisco Sá Carneiro.
Independentemente das opções políticas de cada um, certamente, estamos de acordo que foi o cidadão do Porto de maior relevo na história política portuguesa do século XX. Porém, não é o estadista que me interessa neste momento, mas o humanista e o cristão que muito contribuiu para o regresso de D. António Ferreira Gomes do seu longo exílio.”
De seguida, enumero alguns factos que presenciei ao longo de vários anos de assídua convivência.
- Convite para a direção:
“Quando em 1970, por mandato de D. António, fui ao seu escritório, na rua da Picaria, convidá-lo, “agradeceu a confiança, mas declinou o convite porque não queria criar situações difíceis a D. António. Explicou, então, que ia apresentar na Assembleia Nacional uma proposta de alteração à lei que impedia o divórcio civil a quem cassasse catolicamente. Sabia que essa proposta iria provocar forte reacção nos meios mais conservadores da Igreja e seria malvista por grande parte do episcopado.” Após conversar com D. António, telefonei-lhe a dizer que o senhor Bispo aceitava correr esse risco e “ele imediatamente aceitou.”
- Nas reuniões semanais de 4.ª feira à noite:
“Normalmente, antes das reuniões, relatava os acontecimentos mais relevantes da política portuguesa. Certo dia, vinha desapontado com o rumo que a ‘primavera marcelista’, em que acreditara, estava a seguir. Tinha ido com uma comissão de deputados falar sobre a situação dos ‘presos políticos’ com o Ministro do Interior, creio, Gonçalves Rapazote que, como ele era advogado. Ao iniciar a conversa, começou por dizer-lhe. ‘O senhor ministro como ‘homem do direito’, mas este logo o interrompeu dizendo: Senhor deputado, o senhor está a falar com o Ministro; o ‘homem do direito’ ficou lá fora.”
- Esboço dum ‘Senhor’:
“A sua presença nas reuniões era prestimosa, não só pela visão humanista da vida com forte influência personalista e a correspondente defesa dos valores humanos, mas também pelo rigor lógico das suas análises. Mas era particularmente importante nas reuniões que a direção tinha com os responsáveis camarários onde sobressaía a sua força argumentativa. Não eram tempos fáceis…
Numa figura franzina e apequenada, escondia-se a robustez de um carácter que não recuava perante nada nem ninguém. ‘Homem de antes quebrar que torcer’, defendia até à exaustão aquilo em que acreditava. De trato cortês, mas reservado, mantinha um perfeito domínio sobre as suas emoções. “
- Em conclusão…
“O Porto honra-se de ter estado em todos os grandes momentos que marcaram a história de Portugal. Esteve nas raízes da nacionalidade, dando-lhe nome e contribuindo para a conquista de Lisboa; nas lutas pela Independência com o apoio ao Mestre de Avis; na empresa dos Descobrimentos, com o Infante D. Henrique; na monarquia liberal com a revolução de 24 de Agosto de 1820 e o Cerco do Porto; na implantação da República com a revolta de 31 de Janeiro de 1891. No derrube do Estado Novo e na implantação do regime democrático, o Porto pode orgulhar-se de ter Sá Carneiro como seu grande representante.” (página 52)
Há apropriações e evocações que me ferem a memória e ressoam a profanação. (3/12/2025)

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