O Tanoeiro da Ribeira

quarta-feira, dezembro 17, 2025

NOSSA SENHORA - RAINHA DO ADVENTO

Bem cedo nasceu em mim o desejo de conhecer as origens da nossa matriz cultural, greco-romana e judaico-cristã. Foi, pois, com emoção que, no Jubileu, do ano 2000, visitei, na Terra Santa, os lugares matriciais do cristianismo a começar em Belém, passando por Nazaré e rio Jordão, e terminando em Jerusalém. Seguiu-se Roma e Atenas. No verão passado, chegou a vez de visitar a Jónia da antiga Grécia, berço da filosofia ocidental - Tales, Anaximandro e Anaxímenes, de Mileto; Heráclito, de Éfeso, Pitágoras, de Samos - e Creta onde “floresceu a cultura minoica, a primeira grande civilização da Europa.” No entanto, mais do que falar da Cultura Clássica, quero dar-vos nota dos locais que me transportaram para os tempos primordiais da nossa Fé. A Casa da Virgem Maria S. João diz-nos no seu Evangelho que Jesus, na cruz, lhe confiou Sua Mãe (Jo.19,27). Os ‘Atos dos Apóstolos’ narram as perseguições em Jerusalém, após a morte de Jesus: Santo Estevão morreu apedrejado (At, 7,59) e São Tiago Maior, irmão de S. João, foi decapitado (At 12,2). Entretanto, os Apóstolos dividiram o mundo para pregar o Evangelho. A S. João foi atribuída a Ásia Menor, e, ele, para cumprir a ordem do Mestre, trouxe consigo a Virgem Maria para Éfeso, a terceira maior cidade romana, após Roma e Alexandria, onde fundou a primeira comunidade cristã da cidade. Temendo que a ‘Mãe’ corresse perigo, construiu, dentro dos bosques da montanha Bulbul, não longe da cidade, uma casa onde escondeu a Virgem Maria que, aqui, viveu e veio a morrer. Por isso, é conhecida como ‘Casa de Maria’. Também, nela viveu S. João até à sua morte, exceto enquanto esteve exilado em Patmos. É considerada local sagrado pelos cristãos (católicos e ortodoxos) e muçulmanos que veneram Maria (Meriyem Ana) como mãe do profeta Jesus. O Papa João XXIII declarou-a lugar de peregrinação. Em 1967, o papa Paulo VI visitou-a. Também aí estiveram João Paulo II, em 1979, e Bento XVI, em 2006. O Papa Francisco não chegou a visitá-la, mas, na sua viagem à Turquia em 2014, referiu-a como um sítio sagrado de grande significado para cristãos e muçulmanos. (Fotografia - A Casa da Virgem Maria, em Éfeso) A casa é uma pequena capela. A entrada faz-se por uma estreita porta abobadada. Na ábside, está uma estátua em bronze da Virgem Maria. Do lado direito, conserva-se um habitáculo que seria o dormitório da Virgem. II – A Gruta do Apocalipse “”Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na paciência por Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Num domingo, fui arrebatado em espírito e ouvi, por trás de mim, voz forte com trombeta que dizia: ‘O que vês escreve-o num livro e manda-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sardes, a Filadélfia e a Laodiceia.”(Ap 1,9) S. João, durante a segunda perseguição do Imperador Domiciano (95 d. C), foi desterrado para Patmos, uma ilha usada pelo Império Romano para exílio dos prisioneiros. Vivia numa das numerosas grutas que nela abundam e foi precisamente numa delas que recebeu a milagrosa Revelação Divina. ‘Dentro da cova, o Evangelista ouviu a mensagem e ditou-a ao seu discípulo Prócoro que a escreveu com mão trémula’. A gruta onde, segundo a tradição, esta Revelação aconteceu - “Gruta do Apocalipse” - converteu-se num local de peregrinação. A caverna, numa semipenumbra, abriga uma capela dedicada a Santa Ana, com vários ícones e turíbulos de incenso que lhe emprestam uma atmosfera mística e devocional. Aí, estão preservados os locais onde S. João apoiava a cabeça para dormir e a mão ao levantar-se. Merece especial atenção o ícone de S. João o Teólogo. Em 1999, foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO Dois lugares de peregrinação para os cristãos, um – Casa de Maria – entregue, desde a sua restauração em 1950, aos frades Capuchinhos; outro – Gruta do Apocalipse - a cargo Mosteiro de São João o Teólogo que, desde que foi criado em 1088, sempre foi habitado por monges ortodoxos. O mesmo Apóstolo, mas duas confissões cristãs. Qual o fundamento para esta divisão? Não, a grandeza de Deus; sim, a pequenez dos homens… Que os 1700 anos do Concílio de Niceia e a recente viagem do Papa Leão XIV, à Turquia, possam ajudar a esbater as barreiras que separam os discípulos que, no Natal, festejam o Menino e veneram Sua Mãe.(VP, 17/12/2025)

quarta-feira, dezembro 10, 2025

O PRESÉPIO SOMOS NÓS...

‘A Vida em Nós’, de Tolentino Mendonça, é um jardim de esperança que nos perfuma a alma. Porque seriam pobres as minhas palavras, limito-me, neste Natal, a oferecer-vos um ramalhete com uma flor de cada um dos seus canteiros. . Amor – “Podemos alardear este ou aquele interesse, mas o amor verdadeiro precisa de ser amadurecido no silêncio e na intimidade.” . Camões – “Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia.” . Chorar – “As lágrimas correm de dentro para fora do nosso corpo, mas exprimem a mais recôndita e intensa interioridade.” . Cristianismo – “Uma Igreja maníaca da organização e da ordem, obcecada pelo regime da pureza, distancia as pessoas. Torna-se um lugar de cerimónia, estático e correto como um museu, mas deixa de ser um território de celebração da vida, atravessado pelo quotidiano, pela turbulência e pelas suas pegadas. Fica sequestrada pelo formalismo e pelo zelo em vez da misericórdia e da alegria.” Dificuldade – “Um dos caminhos necessários para alegria é a aprendizagem da dor. Não sabemos lidar com ela. Seria preciso, talvez, começar por ver a dor não como um obstáculo, mas como um caminho.” . Esperança – “A nossa existência é, do princípio ao fim, o resultado de uma aprendizagem da esperança, e só ela é capaz de dialogar com o futuro e de o aproximar.” . Família – “A nossa cultura tem praticado, talvez com razões, mas certamente sem razão, uma demolição sistemática da figura do pai, deixando em nós um vazio que nada consegue colmatar. A figura do pai precisa, por isso, de ser recuperada. (…) A coisa no mundo mais parecida com os olhos de Deus são os olhos de uma mãe.” . Fé – “A fé é uma história de fidelidade que se constrói, não é o mero entusiasmo de um momento.” . Felicidade e alegria – “Tantas coisas seriam diferentes se cada pessoa pudesse habitar, por pouco que fosse, a morada do seu coração.” . Imperfeição – “Às vezes parece que a nossa existência acaba nos nossos sapatos, que é a única coisa que vemos quando se tem a cabeça virada para baixo.” . Natal – “O presépio somos nós. É dentro de nós que Jesus nasce.” . Outros – “O tempo é albergar, é hospedar na nossa vida uma respiração que é maior do que nós. Saber que há um passado maior do que nós, que há um presente, que é o nosso, e que há um futuro.” . Perdão – “O perdão não é o esquecimento. Muitas vezes confundimos as duas coisas e dizemos: ‘Ah, não consigo esquecer’, como se isso significasse necessariamente ‘não consigo perdoar’. Não, uma coisa é o perdão, outra o esquecimento. Até porque há factos impossíveis de esquecer. Tal não depende, em absoluto, de alguma coisa que possamos fazer. Há ofensas que deixam marcas tão inalteráveis que não conseguimos esquecer, ainda que quiséssemos (…) A questão deve, antes, colocar-se assim: ‘Consigo perdoar uma ofensa que nunca mais vou esquecer?’” . Poesia e literatura – “Uma palavra não é apenas uma palavra: ela é sedimentação de experiência vital, evocação da memória, ponte entre presente e futuro.” . Portugal – “Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele.” . Rezar – “Não há oração vital sem um eu diante de um tu.” . Silêncio – “Os nossos sentidos espirituais abrem-se e maturam melhor no silêncio.” . Simplicidade – “A nossa vida é um instante em aberto. Somos chamados a cultivá-la, sim, com a paciente humildade que um jardineiro reserva para o seu jardim.” . Solidão – “A amizade precisa de solidão e de intimidade, e é um acordo silêncioso entre almas.” . . Tempo – “De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão acumulando.” . Velhice – “A velhice é um laboratório de vida presente e não só passada, uma escola onde se aprofunda o significado da esperança e do amor.” . Ver, olhar. Escutar, ouvir – “A contemplação é arte de nos aproximarmos de nós próprios.” . Vida – “Nós não temos apenas âncoras, temos também asas.” Amigo, se estes aromas o deliciaram, não fique à porta, entre no jardim… É uma boa prenda de Natal…(10/12/2025)

terça-feira, dezembro 02, 2025

QUARENTA E CINCO ANOS SÃO PASSADOS...

Foi no dia 4 de dezembro de 1980… No passado dia 10, o JN publicou um artigo de Maria Cândida Almeida, Ex-diretora do DCIAP, sob o título interrogativo “O herdeiro de Sá Carneiro?”, de que, com vénia, me faço eco. Informa: - “Durante um almoço-debate, esta semana, André Ventura afirmou querer ser o ‘herdeiro de Sá Carneiro’… “ Afirma: - “Se esse é o seu desígnio, o seu projeto político de vida, então terá de rever o seu comportamento e a prática do seu partido, no que refere à verdade, à honestidade e ao rigor com que interagem com os cidadãos, residentes, estrangeiros e apátridas que vivem em Portugal.” Contrasta: - “Sá Carneiro era um democrata. Não era racista, nem xenófobo. É recordado pela sua frontalidade e verdade com que abordava e discutia os principais problemas do país. Era um Senhor.” Conclui: - (…) “Estas são apenas algumas deturpações da verdade insistentes nos discursos de André Ventura, que o afastam e opõem à figura política incontornável que foi Sá Carneiro.” Em favor deste perfil do Dr. Francisco Sá Carneiro, lembro, no 45.º aniversário da sua morte, o que, em 2014, escrevi em ‘Nos Alvores da Obra Diocesana:’ - Humanista cristão: “Muitos foram os voluntários que trabalharam na Obra. (…) Quero demorar-me um pouco a falar de Francisco Sá Carneiro. Independentemente das opções políticas de cada um, certamente, estamos de acordo que foi o cidadão do Porto de maior relevo na história política portuguesa do século XX. Porém, não é o estadista que me interessa neste momento, mas o humanista e o cristão que muito contribuiu para o regresso de D. António Ferreira Gomes do seu longo exílio.” De seguida, enumero alguns factos que presenciei ao longo de vários anos de assídua convivência. - Convite para a direção: “Quando em 1970, por mandato de D. António, fui ao seu escritório, na rua da Picaria, convidá-lo, “agradeceu a confiança, mas declinou o convite porque não queria criar situações difíceis a D. António. Explicou, então, que ia apresentar na Assembleia Nacional uma proposta de alteração à lei que impedia o divórcio civil a quem cassasse catolicamente. Sabia que essa proposta iria provocar forte reacção nos meios mais conservadores da Igreja e seria malvista por grande parte do episcopado.” Após conversar com D. António, telefonei-lhe a dizer que o senhor Bispo aceitava correr esse risco e “ele imediatamente aceitou.” - Nas reuniões semanais de 4.ª feira à noite: “Normalmente, antes das reuniões, relatava os acontecimentos mais relevantes da política portuguesa. Certo dia, vinha desapontado com o rumo que a ‘primavera marcelista’, em que acreditara, estava a seguir. Tinha ido com uma comissão de deputados falar sobre a situação dos ‘presos políticos’ com o Ministro do Interior, creio, Gonçalves Rapazote que, como ele era advogado. Ao iniciar a conversa, começou por dizer-lhe. ‘O senhor ministro como ‘homem do direito’, mas este logo o interrompeu dizendo: Senhor deputado, o senhor está a falar com o Ministro; o ‘homem do direito’ ficou lá fora.” - Esboço dum ‘Senhor’: “A sua presença nas reuniões era prestimosa, não só pela visão humanista da vida com forte influência personalista e a correspondente defesa dos valores humanos, mas também pelo rigor lógico das suas análises. Mas era particularmente importante nas reuniões que a direção tinha com os responsáveis camarários onde sobressaía a sua força argumentativa. Não eram tempos fáceis… Numa figura franzina e apequenada, escondia-se a robustez de um carácter que não recuava perante nada nem ninguém. ‘Homem de antes quebrar que torcer’, defendia até à exaustão aquilo em que acreditava. De trato cortês, mas reservado, mantinha um perfeito domínio sobre as suas emoções. “ - Em conclusão… “O Porto honra-se de ter estado em todos os grandes momentos que marcaram a história de Portugal. Esteve nas raízes da nacionalidade, dando-lhe nome e contribuindo para a conquista de Lisboa; nas lutas pela Independência com o apoio ao Mestre de Avis; na empresa dos Descobrimentos, com o Infante D. Henrique; na monarquia liberal com a revolução de 24 de Agosto de 1820 e o Cerco do Porto; na implantação da República com a revolta de 31 de Janeiro de 1891. No derrube do Estado Novo e na implantação do regime democrático, o Porto pode orgulhar-se de ter Sá Carneiro como seu grande representante.” (página 52) Há apropriações e evocações que me ferem a memória e ressoam a profanação. (3/12/2025)