O Tanoeiro da Ribeira

terça-feira, março 10, 2026

EM DIAS SOMBRIOS, A LUZ DA TEOLOGIA

Como ‘retaguarda teológica’, quero partilhar convosco o artigo ‘Uma teologia que devolve o Evangelho à vida’, assinado por José Carlos Enriqez Diaz e publicado, no dia 28 de dezembro, em Religión Digital, um portal de informação religiosa e atualidade da Igreja, de grande expansão, com tradução de M. Rocha Marques. O cerne da Fé cristã - “Num tempo marcado pelo desencanto religioso, o dogmatismo estéril e a rotura entre fé e experiência, a teologia de Andrés Torres Queiruga apresenta-se como uma das propostas mais lúcidas, valentes e evangélicas do pensamento cristão contemporâneo. O seu mérito não consiste em suavizar o cristianismo nem em dilui-lo em devaneios espirituais, mas em resgatar o seu núcleo mais radical: a experiência viva de um Deus que é amor incondicional e que se comunica permanentemente a toda a humanidade.” A Revelação na história / maiêutica histórica – “É também uma profunda defesa da paciência de Deus com a história humana. A Bíblia não é um livro estático, mas o testemunho de um longo caminho no qual a humanidade vai purificando a sua imagem do divino. Ao princípio, o ser humano projeta em Deus medos, violências e desejos de castigo. Mas a revelação avança quando estas projeções se rompem. O profeta Oseias exprime-o com força comovedora: ‘Meu coração comove-se dentro de mim… Porque sou Deus e não homem’ (Os.11,8-9). Aqui aparece um Deus que renuncia ao castigo, porque não pode deixar de amar. “ Um Deus-Papá – “Esta linha alcança a sua plenitude em Jesus de Nazaré, a quem Queiruga situa com rigor histórico e profundidade teológica. Jesus não inventa Deus, mas leva até ao extremo a melhor intuição da sua tradição. Ao chamar a Deus Abba, rompe definitivamente a imagem de um juiz distante e revela um Deus próximo, confiável e gratuito, que faz nascer o sol sobre bons e maus: ‘sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso’ (Lc 6, 36) condensa toda a revelação cristã.” O pluralismo religioso – “A coerência desta teologia desemboca naturalmente no pluralismo religioso. Se Deus é amor, não pode revelar-se só a uns poucos. Toda a religião é um lugar de encontro com Deus, embora nenhuma o esgote. Aqui, não relativiza o cristianismo, antes o universaliza: a sua verdade não consiste em excluir, mas em revelar que o amor e o perdão não têm fronteiras. O sentido da cruz – “Crer não é entender tudo, mas não estar só. Deus não nos livra «da» Cruz, mas livra-nos e salva-nos «na» Cruz, dando força para resistir, para não nos destruirmos, para continuar a viver inclusive quando a noite permanece interminável. Porventura aí, no meio do sofrimento real de tantas pessoas, esta teologia mostra a sua verdade mais funda. Deus não é quem obscurece o caminho, mas quem o percorre connosco. E talvez por isso crer não seja fechar os olhos nem negar a dor, mas atrever-se a confiar mesmo quando a luz ainda não se vê.” A luz da esperança – “A teologia de Andrés Torres Queiruga é imprescindível, porque não acrescenta peso ao sofrimento humano, antes o alivia com esperança e claridade. Num mundo em que tantas pessoas vivem feridas, culpabilizadas e cansadas de um Deus que parece exigir mais do que dá, o seu pensamento devolve ao cristianismo a sua verdade mais profunda. Deus não é quem fere, mas aquele que sustenta.” Por uma Fé adulta e encarnada – “No fundo, a teologia é uma chamada a uma fé adulta, responsável e incarnada. Não é uma fé de títulos, mas uma fé que se faz vida. Como Jesus em Mateus, Queiruga recorda que ‘por seus frutos os conhecereis’ (Mt. 7, 16). Quando a revelação se converte em experiência pessoal, deixa de ser ideologia religiosa e transforma-se em força libertadora, capaz de humanizar a história.” Em suma… “Em tempos de ruído religioso e silêncios culpáveis perante a injustiça, a teologia de Queiruga não só pensa Deus: defende-O, devolvendo-O ao lugar onde sempre quis estar - o coração vivo do ser humano.” (Uma teologia que devolve o Evangelho à vida’) E, no entanto… Quando abunda o farisaísmo, ressoa bem alto o lamento de Jesus: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías, acerca de vós, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o coração deles está longe de mim.; em vão me prestam culto, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. - Mt, 15,8” (11/3/2026)