INTERROGAÇÕES E INTERPELAÇÕES QUE ME FICARAM NO PENSAMENTO…
‘A Igreja é um corpo conservador com a cabeça progressista.’
Esta afirmação do bem conhecido teólogo brasileiro. Frei Betto, em entrevista exclusiva ao ‘7 Margens’ (24/10/2026) , fez-me recordar o texto “Jovens padres com prioridades antigas?’, assinado por Clara Raimundo, que o mesmo jornal publicou no dia 16 de outubro do ano passado, de que, com vénia, me faço eco
Na América…
“Um inquérito ao qual responderam 1164 presbíteros revela enormes diferenças entre os mais velhos e os mais jovens.”
E dá como exemplos
- O cuidado da Casa Comum deve ser uma prioridade?
“78% dos padres ordenados antes de 1980 (…) mas apenas 35% dos padres ordenados já no novo milénio concordam.”
- O acolhimento da comunidade LGBTQI+?
“Com 66% dos padres ordenados antes de 1980 a considerar que isso é prioritário. (…) Já nos padres ordenados a partir de 2000, a percentagem desce, ficando-se pelos 37%.”
- A preocupação com sinodalidade?
“É mais popular entre os padres mais velhos, com 77% daqueles que foram ordenados antes de 1980 (…) Mas apenas 37% dos que se tornaram padres a partir de 2000. (…)
-A problemática dos refugiados?
“93% dos padres ordenados antes de 1980 consideram a imigração e a assistência aos refugiados uma prioridade, (…) mas a percentagem desce para 74% entre os ordenados em 2000 ou depois.”
- E os pobres?
“Se a quase totalidade dos padres ordenados antes de 1980 (98%) respondeu que os pobres são, sim, uma prioridade, essa percentagem fica pelos 79% entre os padres mais jovens.
- Missa tradicional em latim?
“Foi maior a percentagem de padres ordenados no século XXI a considerar que o acesso à missa tradicional em latim deveria ser uma prioridade (39%) (…) Já entre os padres ordenados antes de 1980, foram apenas 11%.”.
E a jornalista concluiu:
“Não espanta, por isso, que enquanto cerca de 70% daqueles que foram ordenados antes de 1975 dizem ser ‘progressistas teológicos’, apenas 8% dos que se tornaram padres a partir de 2010 afirmem o mesmo. Paralelamente, cerca de 70% dos padres mais jovens autodenominam-se ‘conservadores/ortodoxos’, ou mesmo ‘muito conservadores /ortodoxos, em questões teológicas”.
Na Alemanha
“Um trabalho de investigação recentemente encomendado pela Conferência Episcopal Alemã, que incidiu sobre os padres que foram ordenados naquele país entre 2010 e 2021 (com média etária de 37 anos) revela (que) quando questionados sobre como a Igreja deveria mudar, mais de três quartos mencionam a necessidade de ‘mais ofertas com profundidade espiritual’ ou ‘uma orientação mais forte para a transmissão do conteúdo da fé’. Um número significativamente menor (37%) é a favor de uma maior participação dos leigos na Igreja. (…) E somente um em cada quatro padres votaria pela ordenação de mulheres.”
França
“Também o jornal La Croix realizou em 2023 um extenso inquérito para traçar o perfil dos então quase 700 seminaristas franceses. Acabou por resumi-lo assim: ‘os futuros padres estão profundamente preocupados com a fidelidade à Igreja e à sua doutrina, temendo caricaturas e disputas intra-católicas, sustentando uma visão clássica do sacerdócio.”
Quantas interrogações para quem viveu na esperança o ‘aggiornamento da Igreja’ querido pelo bom Papa João XXIII…
E em Portugal o que se passa?
Sem dados sobre esta temática, partilho convosco as preocupações do clero, expressas no XI Simpósio Nacional do Clero que decorreu em Fátima, no início de setembro (7Margens,5/9/2026).
Entre os vários testemunhos, selecionei o do nosso P. Almiro que “descreveu um presbiterado marcado por ‘grandes solidões’ e por ‘um trabalho desmesurado’ que ‘esmaga’.” E o do P. António de Freitas, do Algarve: “Somos humanos, somos ministros, somos servidores, não somos super-heróis”.
Os testemunhos recolhidos e a síntese final do trabalho dos grupos que incluía a necessidade de criação de “equipas multidisciplinares capazes de apoiar os párocos perante situações de sofrimento complexo e de saúde mental” devem interpelar-nos e deixar-nos a pensar.
Que posso eu fazer? E as comunidades paroquiais? O que se pode esperar do espírito sinodal que anima a Igreja?
“Os padres estão habituados a escutar (… ) Mas quem escuta os padres quando são eles que precisam de falar? - 7Margens, 19/10/2026” (VP, 4/11/2026)
