A VOZ DAS MULHERES EM ‘OS LUSÍADAS’
Sentia-me envergonhado…
Para conhecer melhor a nossa matriz cultural, greco-romana e judaico-cristã, já tinha lido, em traduções, a versão integral das epopeias ‘A Divina Comédia’, de Dante, a Ilíada e a Odisseia, de Homero, e a Eneida, de Virgílio, de que, aqui, fui dando notícia…
Mas ainda não tinha lido, na íntegra, o original do nosso poema épico que canta:
“As armas e os barões assinalados /Que da Ocidental praia Lusitana /Por mares nunca dantes navegados /Passaram ainda além da Taprobana.” (Canto I, Estrofe 1)
Para colmatar esta lacuna, adquiri, no cinquentenário do nascimento de Luís de Camões (1524-2024), a ‘Edição Comemorativa’ com prefácio e desenhos de Valter Hugo Mãe. Li-a durante o verão passado.
Acabada a leitura, e com a dificuldade em selecionar um tema para partilhar convosco, interroguei-me:
Que lugar deu Vasco da Gama às mulheres na História de Portugal que, a seu pedido (II, 109) contou ao Rei de Melinde?
E descobri que falou de D. Teresa (III, 29-31); D. Leonor Teles (III,139), D. Beatriz (IV,9), mas não lhes deu voz.
Deu voz, sim, à mulher-esposa – A ‘formosíssima Maria’ - a pedir a seu pai – Afonso IV – para ir ajudar o marido – Afonso IX de Castela - na luta contra os Mouros:
“Aquele que me deste por marido
Por defender sua terra amedrontada,
Co pequeno poder, oferecido
Ao duro golpe está da Maura espada.
E, se não for contigo socorrido,
Ver-me-ás dele e do Reino ser privada;
Viúva e triste e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino e sem ventura.” (III,104).
E, no mesmo Canto, também enalteceu a mulher-mãe – Inês de Castro - que pedia a Afonso IV que a deixasse criar os filhos:
129 - “Põe-me onde se use toda a feridade
Entre leões e tigres viverei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.” (III)
Com o mesmo cuidado, deu voz à dor das mulheres anónimas que, nas praias do Restelo, choravam os filhos e maridos que partiam na armada de Vasco da Gama:
90 - “Qual vai dizendo: ‘Ó filho, a quem eu tinha
Só pera refrigério e doce emparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vas, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento
Onde sejas de pexes mantimento?”
91 - Qual em cabelo: ‘Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque ís aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?” (IV)
E eu, nas lonjuras dos tempos, ouvi a sua voz na voz de Amália, a voz dum povo em diáspora:
“Vi depois, numa rocha uma cruz
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando entre velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas”. (VP, 7/10/2026)
