O Tanoeiro da Ribeira

quarta-feira, outubro 07, 2026

A VOZ DAS MULHERES EM ‘OS LUSÍADAS’

Sentia-me envergonhado… Para conhecer melhor a nossa matriz cultural, greco-romana e judaico-cristã, já tinha lido, em traduções, a versão integral das epopeias ‘A Divina Comédia’, de Dante, a Ilíada e a Odisseia, de Homero, e a Eneida, de Virgílio, de que, aqui, fui dando notícia… Mas ainda não tinha lido, na íntegra, o original do nosso poema épico que canta: “As armas e os barões assinalados /Que da Ocidental praia Lusitana /Por mares nunca dantes navegados /Passaram ainda além da Taprobana.” (Canto I, Estrofe 1) Para colmatar esta lacuna, adquiri, no cinquentenário do nascimento de Luís de Camões (1524-2024), a ‘Edição Comemorativa’ com prefácio e desenhos de Valter Hugo Mãe. Li-a durante o verão passado. Acabada a leitura, e com a dificuldade em selecionar um tema para partilhar convosco, interroguei-me: Que lugar deu Vasco da Gama às mulheres na História de Portugal que, a seu pedido (II, 109) contou ao Rei de Melinde? E descobri que falou de D. Teresa (III, 29-31); D. Leonor Teles (III,139), D. Beatriz (IV,9), mas não lhes deu voz. Deu voz, sim, à mulher-esposa – A ‘formosíssima Maria’ - a pedir a seu pai – Afonso IV – para ir ajudar o marido – Afonso IX de Castela - na luta contra os Mouros: “Aquele que me deste por marido Por defender sua terra amedrontada, Co pequeno poder, oferecido Ao duro golpe está da Maura espada. E, se não for contigo socorrido, Ver-me-ás dele e do Reino ser privada; Viúva e triste e posta em vida escura, Sem marido, sem Reino e sem ventura.” (III,104). E, no mesmo Canto, também enalteceu a mulher-mãe – Inês de Castro - que pedia a Afonso IV que a deixasse criar os filhos: 129 - “Põe-me onde se use toda a feridade Entre leões e tigres viverei Se neles achar posso a piedade Que entre peitos humanos não achei. Ali, co amor intrínseco e vontade Naquele por quem mouro, criarei Estas relíquias suas que aqui viste, Que refrigério sejam da mãe triste.” (III) Com o mesmo cuidado, deu voz à dor das mulheres anónimas que, nas praias do Restelo, choravam os filhos e maridos que partiam na armada de Vasco da Gama: 90 - “Qual vai dizendo: ‘Ó filho, a quem eu tinha Só pera refrigério e doce emparo Desta cansada já velhice minha, Que em choro acabará, penoso e amaro, Porque me deixas, mísera e mesquinha? Porque de mi te vas, ó filho caro, A fazer o funéreo enterramento Onde sejas de pexes mantimento?” 91 - Qual em cabelo: ‘Ó doce e amado esposo, Sem quem não quis Amor que viver possa, Porque ís aventurar ao mar iroso Essa vida que é minha e não é vossa? Como, por um caminho duvidoso, Vos esquece a afeição tão doce nossa? Nosso amor, nosso vão contentamento, Quereis que com as velas leve o vento?” (IV) E eu, nas lonjuras dos tempos, ouvi a sua voz na voz de Amália, a voz dum povo em diáspora: “Vi depois, numa rocha uma cruz E o teu barco negro dançava na luz Vi teu braço acenando entre velas já soltas Dizem as velhas da praia, que não voltas”. (VP, 7/10/2026)