‘SEMPRE QUE O HOMEM SONHA’…
“Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida.” (António Gedeão, Pedra Filosofal)
Esfuma-se nas lonjuras da infância a minha admiração pela ‘Música’ da minha terra – Banda Musical de S. Martinho. Ainda no Domingo de Páscoa, na ‘recolha das cruzes’, revivi esses tempos. Na ‘Procissão do Enterro’, em Braga, ouvi as bandas de Calvos e de Cabreiros. E, na Pascoela, na Faia, a banda Cabeceirense que acompanhava visita pascal.
Não admira, pois, que tenha seguido com entusiasmo a criação da Banda Sinfónica Portuguesa que se estreou no Rivoli, em 1 de janeiro de 2005. ‘Desde então, tem-se afirmado como um agrupamento de excelência no panorama das orquestras de sopros e percussão, apresentando-se regularmente nas mais importantes salas de espetáculos portuguesas.’ (*)
No passado dia 12 na Casa da Música, celebrou ‘Abril’ e o desejo de liberdade ínsito no coração de todos os povos. O concerto culminou na Sinfonia “À Liberdade” que evoca momentos marcantes da nossa memória recente. O seu autor, Nelson Jesus, que esteve presente e foi, entusiasticamente, ovacionado, escreveu: “Os quatro andamentos da Sinfonia ‘À Liberdade’ correspondem a diferentes acontecimentos históricos em torno desse período:
1. Golpe de Estado – O golpe militar de 28 de Maio de 1926 foi um acontecimento que possibilitou o início do Estado Novo. A coluna militar é representada pelas caixas, requinta de ordens e metais, dando lugar a uma sonoridade algo fúnebre.
2. Povo que estais adormecido – Pobre e humilde, o povo português sofre em casa, no trabalho, em família, e não se impõe, mas há também alegria nos seus cantos populares.
3. Ultramar – Foi a revolução de Abril que determinou o fim da Guerra Colonial. Utilizando música com raízes africanas e nacionais, não pretendo guerrear, mas harmonizar as feridas.
4. O povo unido – A emoção do povo, de braço dado, a gritar as palavras de ordem ‘O povo unido jamais será vencido’ é de um arrepio imenso e faz-me recear que a população de hoje não dê o devido valor à liberdade.” (*)
As imagens sonoras do 3º andamento trouxeram-me ao espírito os jovens que viram a sua vida ceifada por uma guerra que lhes foi imposta e donde muitos vieram mortos, estropiados ou profundamente afetados como aquele que, em lágrimas, me disse: “Em África, eu matei um homem que não me fez mal nenhum ainda estou a ver os seus olhos à minha frente surgiu de repente do meio do capim com uma arma apontada eu fui o primeiro a disparar era ele ou eu”.
(Fotografia) Banda Sinfónica Portuguesa no final do Concerto
Para exponenciar a vertente pedagógica e social desta “associação cultural sem fins lucrativos, com estatuto de utilidade pública” (*), “a Direção Executiva, em articulação com a Santa Casa da Misericórdia do Porto, apresentou, no dia 20 de setembro de 2025, o projeto de arquitetura do Centro de Criação Artística BSP, a desenvolver-se nas instalações do centro Hospitalar Conde Ferreira, propriedade da Misericórdia do Porto” (**)
Dos seus objetivos, destaco:
1. “Pretende afirmar-se como um polo de excelência na criação musical contemporânea, incentivando a produção de novas obras, a experimentação estética e o diálogo entre compositores, intérpretes e outras disciplinas artísticas”
2. “Promoção da formação artística. O centro ambiciona acolher jovens músicos e profissionais, oferecendo residências, workshops e projetos pedagógicos que estimulem o desenvolvimento artístico”
3. “Tem previsto integrar um estúdio de gravação, dotado de condições técnicas para produção e registo profissional.”
4. “Inserido num espaço historicamente associado a cuidados psiquiátricos, o Centro assume esta herança como ponto de partida para explorar novas relações entre a arte, bem-estar e sociedade.”
5. “Posiciona-se como agente de dinamização cultural e territorial, potenciando redes de colaboração nacionais e internacionais. Ao atrair criadores, investigadores e públicos diversos, o Centro contribui para afirmar o Porto como um centro de inovação artística e para reforçar o papel da cultura no desenvolvimento sustentável da região”. (**)
Do Sonho, floresceu ‘Abril’… Do Sonho, nasceu a Banda Sinfónica Portuguesa… Do Sonho, está a nascer o Centro de Criação Artística…
Notas: (*) - Folha de sala do concerto (12/4/2026); (**) - Relatório de Gestão e Contas, na Assembleia Geral da Banda Sinfónica Portuguesa, (28/3/2026)