O Tanoeiro da Ribeira

terça-feira, setembro 08, 2026

NUMA MÃO, A CRUZ; NA OUTRA, A ENXADA

Quando passam 108 anos sobre a sua morte, lembro o lema missionário de D. António Barroso bem presente no monumento que, em 20 de outubro de 2019, foi inaugurado junto do Colégio das Missões, em Cernache de Bonjardim. (Fotografia) A Cruz e a Enxada Para fazer memória das agruras do seu serviço missionário em terras africanas, recorro, com vénia, ao texto “As Grandes Viagens do Bispo Missionário – III – Visita Pastoral a Manica e Sofala (16-08-1892) - que o Dr. Amadeu Araújo publicou no número de Janeiro/Março de 2026, do Boletim do Venerável D. António Barroso. “Foi de barco que partiu para esta viagem, indo até Inhambane, onde começou por uma visita ao pároco. Subiu depois, até à Beira, ainda de barco, e dali partiu para o interior, por terras de Sofala, Manica e Gorongosa, fazendo mais de mil quilómetros em tenda de campanha, quase sempre por serras e vales de rios. Por ali andou, de meados de Agosto daquele ano de 1892, até fins de Outubro. Observou e estudou com particular atenção o planalto de Manica, pois pretendia escolher naquela zona um local com abundância de água e solo fértil, para instalar uma Missão. Tal como a anterior, também esta era uma visita pastoral e uma viagem de estudo. Começou por subir o rio Púnguè, no Tungue, barco que rebocava duas lanchas, com as cargas e os respectivos carregadores, cerca de setenta, embrenhando-se depois todos na floresta. (…) Sem escolta e a pé. E ainda arranjava tempo para escrever um diário, em que tudo anotava. Conseguir alimentar toda aquela gente era o grande problema de todos os dias. Volta e meia queixava-se: «Tenho arroz para dois dias. Como alimentar tanta gente? Ninguém vende nada e é tudo caríssimo». (…) Seguiu por Mucaca, Angiva e Mundingo, até Chimoio, Manica e Macequece, junto à fronteira com a Rodésia. (…) As anotações que tomou confirmam que todo o comércio do interior estava nas mãos de ingleses. Há referências à orografia e à vegetação, registadas em linguagem técnica apropriada, à Companhia de Moçambique, à fome das populações, aos ingleses que por ali aguardavam o caminho-de-ferro, sobrevivendo com enormes privações. Franceses, ingleses e portugueses percorriam aqueles sertões à procura de veios de ouro, e à espera do tal caminho-de-ferro que viria permitir a sua exploração. «Em 29 chegou, pois, a Massiquece, em cujos arredores foi escolhido o local para a instalação d’uma missão. (…) Segundo o seu plano, esta missão seria a sede d’outras que deveriam ser fundadas n’outros pontos da região». (…) Pretendia subir dali para Tete, pelo Bárue , mas, não tendo conseguido, acabou por regressar pela Gorongosa. Voltou a Chimoio, Mucaca, subiu a Gouveia e rumou a nordeste, até Sena. (…) Ao ter conhecimento dos desmandos que se praticavam naquela zona onde havia graves contendas de interesses entre grupos rivais que actuavam fora de lei, não conteve um assomo de ira: «Esta Zambézia tem sido um pinhal da Azambuja, um covil de crimes que nos deshonram. (…) Nestas coisas o preto é, em geral, quem paga as despesas e são os muzungos (termo banto usado na Zambézia para se referir a indivíduos de pele clara geralmente portugueses) que recebem os proveitos». Acrescentou ainda, que não haveria naquele «país zambeziano», um palmo de terra que não tivesse associada à recordação de qualquer crime. (…) Tomando uma embarcação, (…) desceu o rio Zambeze e subiu novamente até Quelimane, onde chegou a 22 de Outubro de 1892, no termo desta peregrinação pelas terras de Manica. Ali, aguardou três semanas por um barco que o levou de regresso à Ilha de Moçambique. Fora deveras difícil a viagem que assim terminava. Parte dela foi feita debaixo de febres. Precisou de uma consulta médica, mas não a conseguiu, por não dispor das vinte e cinco libras que lhe pediu um médico de Umtali. Várias vezes sentiu carência de alimentos e muita sede. No dia 9 de Outubro, escreveu: «Passei fome», e a 15 diz terem bebido água negra e imunda. Para cúmulo, perdera a ametista do anel da sagração episcopal, oferecido pela Sociedade de Geografa. E que tanto estimava. (…) Registou no seu diário, em 6 de Novembro de 1892: “Fiz ontem os meus trinta e oito anos sem que ninguém soubesse.” Era esta a fibra deste minhoto de rija têmpera que aliava o zelo missionário à investigação científica. (9/9/2026)

segunda-feira, julho 27, 2026

A PRIMEIRA GRANDE BATALHA DA GUERRA CIVIL DE 1832 - 1834

Fez, na passada 5.ª feira, 194 anos… Qual a sua importância? O historiador Paulo Caetano Moreira escreveu “A Batalha de Ponte Ferreira – Campo, Valongo, 1832”. No prefácio, Inês Amorim, Professora Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, afirma: ”Na verdade e em conclusão, o autor conseguiu provar que o episódio da Ponte Ferreira foi a primeira grande batalha a ocorrer no início do cerco do Porto e da guerra civil de 1832 a 1834, e, por isso, mereceu a sua posterior evocação e enaltecimento.”. O que aconteceu? Para responder, seguirei de perto o que o mesmo historiador escreveu no seu livro ‘Campo e Sobrado - Duas freguesias – Notas Monográficas’, que, com vénia, passarei a citar. Entrada no Porto “O período bélico teve início com o desembarque das tropas liberais lideradas por D. Pedro IV, em Arenosa de Pampelido. Tal ocorre na tarde do dia 8 de julho de 1832. (…) Estando livre o Porto, começa a ocupação liberal no dia seguinte, 9 de julho.” Início do Cerco “A 21 de julho, as tropas miguelistas encontram-se acampadas em Ponte Ferreira (estendendo postos avançados até Valongo). Estão sob comando do Visconde Santa Marta que havia ordenado a disposição das tropas nas estradas de Braga e Guimarães, no sentido de isolar a cidade do Porto. O cerco que duraria até agosto do ano seguinte encontrava-se, assim, já a ser desenhado.” ‘Reconhecimento de Valongo’ A 22, algumas tropas liberais dirigem-se para Valongo onde há um confronto que ficou conhecido para a história como o ‘Reconhecimento de Valongo’ e que se revelou nada favorável aos referidos liberais que recuaram.” Preparação da batalha “Decidiu o imperador D. Pedro, para animar as suas tropas, mostrar, no dia seguinte, a força do exército constitucional ao exército do seu irmão (…) Tomando o Imperador o comando em chefe do exército, acamparam na zona de Rio Tinto, onde na noite de 22 chegou o resto das tropas. Organizaram-se três colunas. “ Início da batalha “Na madrugada do dia 23, as tropas levantaram o bivaque em direção a Ponte Ferreira. Pelas nove horas da manhã, a coluna do centro entra em Valongo, acompanhada por Sua Majestade Imperial, que numa fase inicial se manteve no sítio das cruzes (um local estratégico donde se domina todo o vale) Quando eram onze horas, as três colunas liberais desembocam no campo de batalha, onde Santa Marta já dispunha de tropas desde a sua esquerda, nos montes que flanqueiam a margem direita do rio Douro até à direita da zona de Ponte Ferreira, ou seja Sobrado.” A Batalha “Dado o sinal de ‘avançar’, o “fogo tornou-se vivíssimo” com vivas saídos das fileiras liberais, por entre soldados mortos e feridos, a testa da coluna consegue atravessar a ponte (…) Até às cinco horas da tarde, o combate encontrava-se muito duvidoso. De seguida, os miguelistas atacam fortemente sobre a coluna do centro liberal, sendo vários batalhões de caçadores obrigados a retroceder. São auxiliados por dois batalhões de reserva permitindo luta durante algum tempo, mas sem avanços nem recuos. Entretanto, os atiradores miguelistas debandam e são atacadas as suas reservas que se retiram (…) De facto, os miguelistas dirigiram-se durante a noite para Baltar.” Resultados: Eram 8 000 liberais contra 12 000 miguelistas. Foi uma vitória encorajante, mas sem resultados práticos… “As tropas liberais tiveram ordem para bivacar no campo de batalha. (…) O Imperador também ceou no acampamento. (…) Quanto ao número de mortos, no entanto, os mesmos terão ascendido a mais de uma centena. Quanto aos feridos, esses elevaram-se a várias centenas. (…) No dia seguinte, os liberais marcham para o Porto, com D. Pedro vitorioso na dianteira, deixando território conquistado à mercê do inimigo absolutista que o viria a ocupar novamente. Desta forma, o intuito liberal não viria a ser satisfeito, ganhar e evitar o cerco. Ao passo que os absolutistas, debandando, viriam a conseguir os seus objetivos, cercar a cidade do Porto.” (pág. 162) Esta batalha perdurou na memória da população local que, em oração pelos que nela pereceram, ergueu, na margem direita, à entrada da velha ponte medieval, umas ‘alminhas’ de invocação a Nossa Senhor do Carmo. E ainda na minha infância, me falavam da ‘cavada’, onde apareciam ossos dos cavalos, e do ‘Campo da Pica’, que, dizia-se, lembrava a luta à ponta da baioneta…. (Fotografia) O que resta das ‘Alminhas’ com o ‘Campo da Pica’, em fundo. (VP, 28/7/2026)

terça-feira, julho 21, 2026

São Crispim e o Venerável ‘Apóstolo do Barredo’

No ‘septuagésimo aniversário da partida de Pai Américo para o Céu.’ (O Gaiato) Aconteceu na igreja de S. Nicolau, (28/11/2025). Na apresentação da ‘História Religiosa do Centro Histórico da Cidade do Porto’, de Vitor Teixeira, D. Manuel Clemente destacou episódios que marcaram a cidade a começar pelo Couto do Porto (1120), passando pelos conventos de S. Francisco e dos Dominicanos (séc. XIII); pela ‘devolução do Senhorio do Porto à Coroa’ (1407); a criação das paróquias de S. Nicolau e Nossa Senhora da Vitória (séc. XVI); a fundação da Santa Casa da Misericórdia (1499); o fecho dos mosteiros e conventos com o Liberalismo (séc. XIX), até aos nossos dias. Por razões afetivos, logo procurei, nesse “guia da alma, da identidade do Porto’, como o qualificou D. Manuel Linda, no seu Prefácio, referências ao Hospital de S. Crispim. E que li? “Este estabelecimento funcionou até ao século XVI no topo da rua das Congostas nas proximidades da Ponte de S. Domingues e do Hospital dos Palmeiros. (…) Pertencia à confraria dos Sapateiros de S. Crispim e S. Crispiniano do Porto, uma das mais antigas do burgo, existindo pelo menos desde 1224.” “O hospital foi construído junto à Ponte de S. Domingos, um destacado eixo viário com o objetivo de acolher peregrinos pobres a caminho de Santiago de Compostela. (…) A albergaria e o hospital possuíam dez alcovas para acolhimento.” (pág. 205) No último cartel do século XVIII, com a abertura da rua de Mouzinho da Silveira, o edifício foi destruído e a capela transferida para a rua de Santos Pousada. Sobre os seus alicerces foi construído o prédio nº 108-112 do novo arruamento. Dez anos atrás, ao visitar a sua cave, vi as enormes pedras de granito que bordejam o ‘Rio da Vila’ e ouvi as suas águas. E, ainda recentemente, as obras da ‘Linha Rosa’ do Metro deixaram-me ver a ‘Ponte de S. Domingos’ que foi soterrada, mas não destruída. (Fotografia) Aqui trabalhou como marçano o futuro ´Pai Américo’ dos 15 aos 19 anos (1902-1906). E que tem isto a ver com o ‘Apóstolo do Barredo’? - perguntar-se-á o leitor. E eu explico Na vida do Padre Américo, havia duas interrogações que sempre me intrigaram: Primeira - O P. Américo foi ordenado em Coimbra. Porquê, se é natural da freguesia de Galegos, em Penafiel? Segunda - Como o conheceu o Barredo, se era natural de Penafiel e presbítero em Coimbra? Estas interrogações esvaíram-se quando soube que ele, durante quatro anos, ‘vendeu ferros’, como dizia sua mãe, na ‘loja de ferragens’ que, então, ocupava o rés-do-chão do mencionado prédio 108 -112 da rua de Mouzinho da Silveira na esquina com a travessa da Bainharia, em frente ao Largo de S. Domingos. Porquê? - Como a loja ficava próxima da igreja de S. Lourenço (dos Grilos), do Seminário da Sé, o jovem Américo ia lá ajudar à Missa e confessar-se. Entre os presbíteros que aí conheceu estava o Dr. Manuel Luís Coelho da Silva, Vigário Geral da Diocese. Quando mais tarde, já com 37 anos, após o seu regresso de Moçambique, quis entrar no seminário para ‘estudar para padre’, foi, com o seu irmão padre, falar com o bispo do Porto, D. António Barbosa Leão, que não o aceitou porque, disse, tinha tido muitas desilusões com as vocações tardias. E quem o veio a receber e ordenou (28/7/1929 foi precisamente o Dr. Manuel Luís Coelho da Silva que, entretanto, fora sagrado bispo de Coimbra. - A loja ficava perto do Barredo Terá sido, pois, na sua juventude, penso, que o Padre Américo se apaixonou por essa “terra de heróis, de mártires e de santos”, como escreveu mais tarde. E as perguntas sucedem-se… O bispo de Coimbra tê-lo ia aceitado no seminário se o não tivesse conhecido no Porto? Haveria outro bispo que o recebesse se o prelado da sua diocese o rejeitou? Concluindo… Não fora a ‘loja de ferragens’ no espaço do antigo Hospital de S. Crispim, e, talvez, o senhor Américo Monteiro de Aguiar nunca seria Padre Américo, “provavelmente, a maior figura da Igreja em Portugal, no séc. XX”, no dizer de José da Cruz Santos, da Editora Modo de Ler”. E assim, não teríamos o ‘Pai Américo’. Nem o ‘Apóstolo do Barredo’… Como são insondáveis os caminhos de Deus!...(22/7/2026)

quarta-feira, julho 15, 2026

QUANDO A ARTE ATUALIZA E CELEBRA A MEMÓRIA…

Foi há 194 anos… (Fotografia) Memorial de Dom Pedro IV e Batalhão de Caçadores n.º 5 (Pormenor) Ao visitar este monumento, do escultor Ilídio Fontes, no antigo Largo da Feira de Pedras Rubras, agora Praça do Exército Libertador, lembrei a lápide do obelisco da Praia da Memória que diz: “Em honra de sua Majestade Imperial, D. Pedro, Duque de Bragança, primeiro Imperador do Brasil e quarto Rei d’este nome em Portugal, Comandante em chefe do Exército Libertador, aqui desembarcado em oito de julho de mil oitocentos e trinta e dois, para restituir o throno a sua augusta filha a Rainha Reinante D. Maria Segunda, a liberdade aos portugueses, se erigiu este padrão para perpétua memória”. O Batalhão de Caçadores n.º 5 fazia parte da esquadra de 7500 homens que desembarcou em Pampelido e, devido à sua valentia, recebeu de D. Pedro IV o título de ‘Bravo’. E interroguei-me: - Porquê aqui este monumento tão significativo? A resposta foi-me dada pela Câmara Municipal da Maia: “Na noite de 8 de julho de 1832, após o desembarque liberal, foi em Pedras Rubras que o Rei e os seus ‘Bravos’ acamparam antes de avançarem para o Porto”. O que vi confirmado na placa do n.º 88 da rua Pedras Rubras:” Nesta casa pernoitou S.M.I o Senhor D. Pedro IV, na noite de 8 para 9 de julho de 1832, após o desembarque do Exército Libertador na Praia da Memória”. - Quem é Ilídio Fontes, o seu criador? A resposta encontrei-a nos livros: ‘A Arte de Ilídio Fontes – Imaginar a forma – Afeiçoar a vida’, de José Guilherme Abreu, e ‘Arte e Sagrado – o Sagrado na escultura de Ilídio Fontes’, de José Melo. Ilídio Fontes nasceu no lugar da Agra, Milheirós, Maia (28/7/1938). Em 1950, matriculou-se na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, em que, mais tarde, foi insigne professor, segundo testemunho de antigos colegas. Depois, matriculou-se na Escola Superior de Belas Artes, onde se licenciou. Bem cedo, associou a docência à produção artística. Das suas múltiplas criações, destaco: - Monumento à Rendilheira de Vila do Conde “Homenagear a Rendilheira é homenagear a Mulher no seu completo papel social, de agora e dos tempos passados. Mulher-sabedoria e estabilidade e, muito em especial em Vila do Conde, mãe ou esposa que espera na beira-rio o regresso das fainas. Ou já não espera, com olhar distante e, no rosto, sulcos de outros rios.” (José Guilherme Abreu, o. c., pág. 200-202) - O Astronauta – na rua Passos Manuel, Porto. “A peça é um baixo-relevo (…) no qual um indivíduo do sexo masculino se estende na vertical, visando o alto, em extática ascensão aos céus, navegando através de um mar de estrelas. (…) Na comunicação ao II Congresso ‘O Porto Romântico’ que se realizou na Universidade Católica, em 2014 (…) coloquei em confronto O Astronauta de Ilídio Fontes, com o Guardador do Sol de José Rodrigues. Este, considerei-o como uma alusão romântica pela libertação dos povos africanos. Aquele, considerei-o como o novo herói romântico: o navegante do espaço.” (José Guilherme Abreu, o. c., pág. 127-130) 3. Monumento aos Mineiros do Pejão - Em Pedorido, Castelo de Paiva “Ao trabalhar o monumento que homenageia os ‘Mineiros do Pejão’, homens rudes que arrancam das profundezas da terra o magro sustento para a sua existência, sempre efémera e precoce, as suas silicoses e os seus medos rudes espelhados nos rostos demasiado resignados, ali está a suma preocupação com o Outro, deserdado ‘irmão.” (José Melo, o. c, pág. 84) 4. Nossa Senhora da Ponte – Em Rio Tinto Ao entrar na capela, “logo se depara com a significativa imagem que anuncia na auréola ‘Um Filho nos foi dado’. E Este está sentado no regaço da mãe, no que um teólogo amigo, natural de Rio Tinto e profundo conhecedor, me informou tratar-se de um exemplo da Virgem Trono (…) a melhor expressão litúrgica de Maria” (José Melo, o.c., pág. 102) Concluindo… “É na celebração das núpcias entre tradição e modernidade que reside a lição de Ilídio Fontes.” (José Guilherme Abreu, o. c., pág. 278) Não é sem razão que lhe chamam Mestre.. Mestre na Arte Mestre na Vida. 15/7/2026)

quinta-feira, julho 09, 2026

“A CONDIÇÃO HUMANA É ADMIRÁVEL”.

Quando já se corre a ‘Volta a França’… (Fotografia) - No sopé dos Pirenéus Este monumento aos heróis do ‘Tourmalet’ que Ribeiro da Silva, de Lordelo, Paredes, ganhou em 1957, fez-me recordar outras etapas míticas do ‘Tour de France’ como o ‘Alpe d’Huez’ que Joaquim Agostinho, de Torres Vedras, venceu em 1979, e, o ‘Mont Ventoux’ Esta última, que ainda nenhum ciclista português venceu, trouxe-me à mente o livro “O Homem que Plantava Árvores”, em que Jean Giono conta a história surpreendente, por ele vivida, “nessa ancestral região dos Alpes” precisamente, “no sopé do Mont–Ventoux.” (pág. 10) Tudo começou em 1913, numa “longa jornada naquela terra extensamente despovoada, nua e monótona, onde só a alfazema silvestre florescia. (…) Encontrei uma fonte, de facto, mas estava seca. (…) Nestas terras desabrigadas e elevadas, o vento soprava com uma brutalidade insuportável. Os seus uivos contra as ruínas das casas eram como os de uma fera interrompida a meio da refeição.” Após cinco horas de marcha sem ver água, encontrou um pastor: “Ofereceu-me de beber do seu cantil”. Em sua casa, fê-lo “partilhar da sua sopa. (…) Ficou logo subentendido que eu passaria ali a noite.” E o que viu? O pastor “foi buscar um pequeno saco e despejou sobre a mesa um monte de bolotas. Pôs-se a examiná-las uma a uma com muita atenção, separando as boas das más. (…) Quando juntou uma pilha razoável de bolotas, começou a contá-las e separou-as em pacotes de dez.” No dia seguinte, “foi buscar o rebanho e levou-o ao pasto. Antes de se ir embora, mergulhou num balde de água o saquinho onde tinha juntado as bolotas. (…) Em vez de um cajado ele levava na mão um varão de ferro.” Enquanto o rebanho pastava, “fazia um buraco onde punha uma bolota, e depois tapava-o com terra. Plantava carvalhos.” Na conversa que se seguiu, disse-lhe que havia “três anos plantava árvores naquela região deserta, sozinho. Já tinha plantado cem mil das quais vinte mil já tinham nascido. (…) Separámo-nos no dia seguinte”. No ano a seguir começou a guerra de 1914. “No fim da guerra, (1918) retomei o caminho daquelas paragens desertas.” Encontrou o velho pastor que “já só tinha quatro ovelhas, mas em contrapartida, tinha uma centena de colmeias. (…) Continuara a plantar imperturbavelmente. (…) Levara adiante a sua ideia como testemunhavam as faias, estendendo-se a perder de vista. Os carvalhos estavam densos. (…) Mostrou-me os formidáveis bosques de bétulas que datavam de há cinco anos.” E que mais viu? “Na descida de volta para a aldeia, vi correr água em regatos que, desde que havia memória, sempre tinham estado secos. (…) O vento também dispersava algumas sementes. Ao reaparecer a água, reapareceram os salgueiros, os vidoeiros, os prados, os jardins, as flores e uma certa razão de viver.” Em 1935, “a encosta por onde tínhamos vindo estava coberta de árvores com seis a sete metros de altura. Recordei o aspeto da região em 1913, um deserto… (…) Vi Elzéard Bouffier (assim se chamava o pastor) pela última vez em junho de 1945. Tinha então oitenta e sete anos. (…) A camioneta deixou-me em Vergons. Em 1913, esse lugarejo com dez ou doze casas tinha três habitantes. (…) A sua condição era sem esperança. (…) Mas agora tudo estava mudado. Até o próprio ar. Em vez das rajadas de vento secas e violentas que sopravam no passado, acolheu-me uma brisa suave carregada de aromas. Um som semelhante ao da água a correr vinha do alto: era o vento da floresta. (…) O lugar contava agora vinte e oito habitantes, incluindo quatro jovens casais. As casas novas tinham em volta jardins onde cresciam, misturados, mas ordenados, os legumes e as flores, as couves e as roseiras. Era agora um lugar onde apetecia viver.” E em jeito de conclusão… “Quando penso que um único homem, reduzido aos seus simples recursos físicos e morais, foi suficiente para fazer surgir do deserto esta terra de Canaã, acho que, apesar de tudo, a condição humana é admirável.” (pág. 61) Esta história ilustra bem o título que o Papa Leão XIV deu à sua primeira encíclica: ‘Magnífica Humanidade’… Quando as férias se avizinham, este pequeno livro – boa prenda para os mais novos - poderá ser uma bela leitura…(8/7/2026)

terça-feira, junho 30, 2026

CONHECER PORTUGAL – IX – AQUI NASCEU ‘A PRIMEIRA TARDE PORTUGUESA’

Foi há 898 anos. D. Afonso Henriques e os nobres portucalenses fizeram nascer a ‘primeira tarde portuguesa’, ao vencerem as tropas de D. Teresa e de Fernão Peres de Trava, na batalha de S. Mamede (24/6/1128). Em homenagem a esse feito, vamos percorrer o rio Ave que passa no coração do antigo Condado Portucalense. Iniciamos o passeio a 1200 metros de altitude na serra da Cabreira, em Vieira do Minho. Paramos no santuário de Nossa Senhora da Orada, um lugar edílico, onde o rumorejar das cachoeiras se harmoniza com o gorjeio dos passarinhos. Segue-se um convite ao silêncio contemplativo na albufeira do Ermal, um espelho azul debruado pelo verde das margens. A partir daqui, vamos, mesmo sem canoa, descer os rápidos do rio, com paragens nas suas pontes medievais… E a primeira é, já em Póvoa de Lanhoso, na ponte Mem Gutierres ou da Esperança, de um só arco suspenso nas alturas. Construída no século XIV é monumento nacional desde 1910. A partir daqui, fazemos uma pequena volta pelo concelho. Subimos ao santuário da Senhora do Pilar (séc. XVII), no maior monólito da Península Ibérica que culmina no castelo de Póvoa de Lanhoso, de origens romanas, reconstruído no final do século XI. Ao descer, visitamos o castro de Lanhoso. Segue-se a igreja românica de Fontarcada, dos finais do séc. XIII. É a terra da famosa Maria da Fonte. Em Travassos, visitamos o Museu do Ouro. E terminamos no santuário de Nossa Senhora de Porto d’Ave, do século XVIII. Continuamos até à ponte Donim, já no concelho de Guimarães, construída em 1192, com quatro arcos de volta inteira. Aproveitamos para subir até à citânia de Briteiros, considerada um dos mais importantes sítios arqueológicos de Portugal, com origens no século II a.C. Após visitar, na capital do Condado, o Castelo e a capela de S. Miguel onde D. Afonso Henriques terá sido batizado, o Paço dos Duques, o Largo da Oliveira com a igreja da Colegiada e o Padrão do Salado (séc. XIV), damos uma saltada a Tagilde, na margem do Vizela, onde foi celebrado o Tratado com o mesmo nome, entre Portugal e a Inglaterra em 10/7/1372, no ano anterior ao tratado de Londres (16/6/1373) que consagrou a Aliança Luso-Britânica. E seguimos até à ponte românica de Lagoncinha, sé. XII, ainda hoje com serventia. Estamos em Famalicão. A partir daí, vamos até à igreja de Santiago de Antas, sec. XII. Seguimos para o mosteiro de Arnoso que terá sido edificado no séc. VII. Destruído pelos mouros, foi reconstruído no sec. XII. No tímpano lateral, tem a data de 1156. Demoramo-nos em Landim, no seu mosteiro, de fachada quinhentista, construído no sec. XII e profundamente modificado no séc. XVI, e no Real Colégio D. Fernando onde fez a escola primária o historiador Alberto Sampaio. Em Bagunte, já no concelho de Vila do Conde, maravilhamo-nos com a ponte D. Zameiro ou Ponte d’Ave, ‘referida já em 1185, quando o bispo do Porto, D. Fernando Martins, fez testamento e deixou dinheiro para a sua construção’. (Fotografia ) – Ponte D. Zameiro Os ‘Moinhos do Ave’, a jusante, são conhecidos desde as Inquirições de D. Afonso III, em 1258. Os moinhos e a roda de azenha, adossada ao moinho da margem esquerda, que elevava a água para os campos ribeirinhos, ainda os vi a funcionar no dia 8 de agosto de 1974. Aproveitamos para subir até é à Cividade de Bagunte, da Idade do Ferro, ali bem perto, monumento nacional desde 1910 e uma das mais extensas povoações castrejas do noroeste peninsular. Descemos para a veiga do rio Este onde visitamos a igreja românica de Rio Mau (séc. XII) que nos surpreende pela abundância e riqueza dos capitéis e o Mosteiro de S. Pedro de Rates (sec. XII)., este já no concelho da Póvoa de Varzim: de três naves, um dos templos românicos mais significativos de Portugal. Descendo o rio Este, paramos na Ponte Românica de Touguinhó que nos encanta com o coaxar das rãs, o volutear das borboletas e o murmúrio dos açudes. Em Vila do Conde cuja visita fica para outro dia, lembrei os versos de José Régio, um dos seus filhos: ‘Vila do Conde, espraiada/ entre pinhais, o rio e o mar’. (1/7/2026)

terça-feira, junho 23, 2026

O LOUCO DE DEUS NO FIM DO MUNDO

Quando acabei de ler a entrevista de que dei nota na semana passada, logo nasceu em mim o desejo de ler este livro que abre com uma surpreendente e bem clara declaração de interesses: “Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laicista, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo.” Ao embrenhar-me na sua leitura, fui registando as ideias que me pareciam de maior realce. E foi tal a abundância que, na impossibilidade de uma síntese, decidi imaginar uma conversa com o seu autor, Javier Cercas: - Pergunta – Quem é para si o Papa Francisco? - J. C. – É o louco de Deus, um cristão na cadeira de Pedro. “Bergoglio foi o primeiro papa que optou por se chamar Francisco. Francisco é, evidentemente, Francisco de Assis, o jovem de boas famílias que renunciou a um futuro magnífico de amores, poesia e milícia para se consagrar a Deus: o asceta que convivia com os pobres e com os doentes e chamava irmãos e irmãs aos animais, ao fogo e às plantas; o precursor do ecologismo; il poverello, como lhe chamaram os seus contemporâneos. O louco de Deus, como escolheu chamar-se. (…) O Papa Bergoglio é o louco de Deus. Quem é o louco de Deus? Quem é o Papa Francisco?” (pág. 26) “Bergoglio não é um super-homem (…) é só um homem comum e corrente. É esse, digo já, o segredo de Bergoglio. E é isto que o torna verdadeiramente um cristão sentado na cadeira de São Pedro.” (pág. 427) - P. – Quem mais o impressionou nesta viagem? - J.C. – Apaixonei-me pelos missionários: “Fico a ponto de abjurar das minhas responsabilidades familiares, de entrar no primeiro avião para Ulan Bator e de me juntar às hostes do Padre Ernesto.” (pág. 355) - “De repente, volta a acometer-me o desejo furioso de apanhar o primeiro avião com destino à Mongólia para me juntar à guerrilha do Padre Ernesto.” (pág. 385) - P. - Quem este este P. Ernesto? - J.C. - Um italiano a viver com quarenta graus negativos. “Nasceu há setenta e dois anos na província de Bérgamo (pág. 208). “Aterrou em Ulan Bator em fevereiro de 2004. (pág. 210) “Vive na comunidade com missionários da Consolata, em dois apartamentos de um bairro humilde de Ulan Bator: os homens ocupam o apartamento inferior e as mulheres, o superior. Os membros do grupo são jovens, alguns deles muito jovens, o padre Ernesto é, de longe, o mais velho. Ninguém conhece como ele as asperezas da vida de um missionário na Mongólia”. (pág. 212) - P. - O que faz o P. Ernesto que tanto o apaixona? - J.C.- Servir os mais pobres. “Levanta-se todos os dias às cinco da manhã, reza as suas orações e passa o resto do dia com os miúdos em ‘O Sol que Sai.’. Às vezes juntamente com outros missionários, colabora com os serviços sociais da Câmara Municipal local ou do Governo, socorrendo pessoas necessitadas com comida, dinheiro ou assistência.” (pág. 212) - P. - E porque fazem tudo isso? - J.C- Dar esperança. Disse-mo a irmã Ana, uma das missionárias queniana que trabalha com o P. Ernesto e que, com humor, diz estar habituada aos quarenta: “No Quénia, vivia com quarenta graus acima de zero, aqui com quarenta graus abaixo de zero…”. “Nós queremos estar com as pessoas, entrar nas suas casas, perguntar-lhes de que precisam e depois tentar dar-lhes. Nada mais. Queremos dar-lhes um pouco de esperança.” (pág. 274) - P. - Mesmo sendo ateu, poderá dar um conselho às mulheres e homens da Igreja? - J.C. – Sim, como respondi ao prefeito do Dicastério para a Comunicação: “Descobri a solução para todos os problemas da Igreja. (…) Todos missionários”. (pág. 385) - P. – Desculpe a curiosidade… Sempre fez ao Papa a pergunta que motivou a sua viagem? Se sim, o que lhe respondeu? - J.C. – “Digo-lhe que sim. Terás de ler o livro para ficares a saber. E, além disso, terás de o ler até ao fim.” (pág. 384) - Sei que, no próximo dia 26 de junho, vai estar no Festival Literário Babel. Seja bem-vindo à nossa cidade que ‘pode trocar os bês pelos vês, mas nunca a liberdade pela tirania’. Obrigado pela sua presença. E parabéns à Livraria Lello pela sua bela iniciativa. (23/6/2026)