“QUANDO O EXTREMISMO ENTRA NA SALA DE AULA”
Esta era a ‘manchete que enchia a primeira página da revista Notícias Magazine (25/1/2026)
O tema, sob o título “O ódio também vai à escola” desenvolve-se em quatro páginas interiores de que respiguei as citações que se seguem.
A palavra autorizada e o lamento do presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima:
“São cada vez mais os colegas que nos relatam situações constrangedoras. É claro que nós tentamos diminuir esse reflexo no nosso dia a dia, mas é uma luta desigual e a sociedade não tem colaborado”.
Concretizando…
- Cinfães
Nívia Estevam, brasileira, mãe de José, 10 anos.
“Em novembro, o filho chegou a casa com o pescoço roxo. Acabou por contar que uns colegas lhe tinham apertado o pescoço contra a parede, com os braços em T.
Cinco dias depois, foi chamada à escola e disseram-lhe que, numa brincadeira, um colega apertou o dedo dele na porta da casa de banho. Mas quando lhe pediram que segurasse um saco com uma parte do dedo do filho para poderem ‘colocar de volta’, congelou. José tinha tido dois dedos amputados. Como desesperada ficou quando, já no hospital de São João, o menino lhe disse que os colegas o impediram de sair e procurar ajuda. O filho é negro e era o único da turma que falava português do Brasil.”
- Almada
J., imigrante do Bangladesh
“Já vive em Portugal há dez anos. Sente uma hostilidade crescente. Há pouco tempo, foi a um café e uma funcionária disse-lhe na cara: ‘Vai para a tua terra.’. O pior é sentir que o filho não é bem acolhido no jardim de infância. O pior é ir dar com ele a brincar sozinho. Quando as empregadas fazem grupos, nas atividades, ele é sempre o último a ser escolhido.”
- Alentejo.
M. alentejana de etnia cigana, mãe de duas meninas de 12 e 16 anos.
“A filha mais velha que o diga. Piadas sempre houve, mas de há três ou quatro anos para cá ‘tem piorado’. Um colega disse-lhe: “Os meus pais dizem que a gente nem deve acompanhar ciganos, são todos a mesma m… ‘. Irritada, a filha tentou despachar a conversa. Mas não conseguiu. ‘Passaram o dia todo a gritar nos ouvidos: ‘são todos a mesma m…’, não valem nada’, só querem a mama do Estado’ Até com um casaco implicaram. ‘É de marca, foi roubado.’
- Setúbal
A. Professor do Ensino Básico e Secundário
“Os miúdos maltratam colegas mais fracos ou de outras nacionalidades. Destratam ciganos e negros, gritam ‘Portugal aos portugueses’, fazem provocações a um colega imigrante de um canto da sala para o outro.”
- Lisboa
M., Professora do 1.º Ciclo
“Já temos miúdos a reproduzir aquilo que ouvem aos pais dizer em casa. ‘Volta para a tua terra’, ‘preto da Amadora’, ‘isto não é o Bangladesh’”
- Daniela Ferreira, Investigadora da FPCEUP)
“Temos tido várias escolas que relatam um aumento de conflitos disciplinares e das situações de violência, sobretudo verbal. Há um crescente número de situações de racismo e de xenofobia. Frases como ‘isto não é o Bangladesh’ e ‘os ciganos têm de cumprira lei’ estão a ser reproduzidas pelos miúdos, mesmo sem perceberem o que estão a dizer. É fruto do contexto cívico e político em que vivemos. O discurso que trazem de casa é o que vão reproduzir.”
- Que fazer?
Fábio Botelho Guedes, psicólogo do projeto ‘Aventura Social’, aconselha:
“Falar abertamente sobre questões, fomentar relações interpessoais saudáveis, promover as competências socioeconómicas e a saúde psicológica, incentivar o envolvimento nas decisões”.
E eu interrogo-me:
“Em que mundo queremos viver? Que mundo estamos a criar?
Em contraste...
“Imigrantes dão lucro de três mil milhões à Segurança Social. Valor das contribuições é cinco vezes superior ao atribuído em apoios sociais. Um terço dos impostos é pago por brasileiros, seguindo-se indianos e angolanos.” (JN, 1/2/2026) (VP, 4/3/2026)