CANTOU A DIGNIDADE DE UM POVO
Três meses são passados sobre a morte de Luís Represas a respeito de quem Pedro Abrunhosa disse: ”A morte não devia levar os que cantam o poema mais difícil, o da dignidade humana”.
Dos muitos textos que se publicaram, dois houve que me chamaram a atenção porque exaltaram o seu pioneirismo da defesa da ‘causa timorense’ a ponto de o governo de Timor, no dia 22 de julho, o ter considerado ‘um amigo de longa data’.
O primeiro, assinado por Júlia Costa, foi publicado no dia 23 de julho, pelo ‘Sete Margens’, de que respigo:
“Através das pontes musicais que foi criando e que cruzaram mares e oceanos, a poesia, a música e o seu timbre entraram pela casa e pelo coração das pessoas.
Essa energia mobilizou o nosso país por Timor. Foi por ter acolhido a dor muda do povo timorense – que o mundo parecia desconhecer e/ou preferia ignorar – e por lhe dar voz, que o mundo se lhe uniu e mobilizou pelo drama daquele povo, saindo às ruas em sua defesa.”
O segundo, de Rui Pedro Pereira, foi publicado no dia 26 de julho no Notícias Magazine:
“As palavras ‘genuíno’ e ‘preocupado’ são muitas vezes referidas pelos mais próximos do músico, que mostrou, publicamente, esse lado solidário, em 1999, quando Timor-Leste lutava pela independência da Indonésia, (…)
Foi um dos momentos visíveis da intervenção cívica de Luís Represas, que viu as iniciativas terem reação nas ruas de Lisboa, num cordão humano formado pela independência de Timor-Leste com os cânticos ‘Ai Timor, calam-se as vozes dos teus avós. Ai Timor, se outros calam, cantemos nós.’
A canção pressionou os governantes a atuar: em 2000, Luís Represas foi convidado por Jorge Sampaio, na altura Presidente da República, a deslocar-se ao território, em visita oficial.”
Quando escrevia este texto, mão amiga fez-me chegar o livro ‘A Saga no Fim do Império’, de Carlos Jorge Mota, que, na página 173, fala do que se passou em Timor.
Porque a memória é curta, vou avivar algumas das suas informações.
“A Indonésia, após a invasão de Timor, em 1975, anexou o território e passou a considerá-lo a sua 27.ª província. As FALINTIL, comandadas por Nicolau Lobato, perante tamanha força bruta, refugiaram-se nas montanhas e iniciaram uma luta de resistência, através de acções de guerrilha. Em 31 de Dezembro de 1978, decorridos três anos de luta imparável, Nicolau Lobato morre em combate no vale do Mindelo. (…)
A repressão da Indonésia sobre a população timorense, que nunca aceitou a anexação, era implacável, com atrocidades permanentes. A denúncia dos desmandos era constante, mas também recebia o pronto desmentido das autoridades, com o beneplácito de alguns países ditos ocidentais. (…)
Como as FALANTIL perceberam que luta militar (…) seria desgastante e interminável, foi feito um ajustamento da estratégia. (…)
É nesse contexto que se começa a destacar Kay Rala Xanana Gusmão. (…) Envolveu-se na diplomacia e utilizando os meios de comunicação disponíveis para a sua acção, utilizou esse instrumento para denunciar o massacre ocorrido no Cemitério de Santa Cruz em 12 de Novembro de 1991, sempre negado pela Indonésia até que um vídeo, filmado por um dos lá presentes e sobrevivente, vazou para a imprensa e foi injectado nos Média. Xanana foi entrevistado por alguns Meios de Comunicação importantes e ele aproveitou a oportunidade para alargar a difusão mundial desse e doutros massacres antes ocultados e negados. (…) Foi preso em Novembro de 1992, submetido à tortura do sono, julgado e condenado a Prisão Perpétua pelas autoridades desse país. (…) Esteve encarcerado sete anos na capital do país invasor (…)
Fruto da pressão internacional, potenciada principalmente por Portugal, as Nações Unidas, em 30 de Agosto de 1999, promoveram um Referendo no território cuja participação atingiu os 98% e os votos favoráveis pela independência somaram 78,5%.
(…)
O brasileiro Sérgio Vieira de Mello (…) veio a assumir o cargo de Administrador de Transição da ONU até à independência, em 20 de Maio de 2002. Realizadas as Eleições, foi proclamado 1.º Presidente de Timor Xanana Gusmão, país que adoptou a Língua Portuguesa, como elemento identitário, e sob a designação de Timor-Leste, usando também a Língua Tétum, razão por que o país pode igualmente ser identificado como Timor-Lorosae, significando, naquele idioma, Sol Nascente.”
Foi este Povo heroico que Luís Represas cantou. E, num gesto de gratidão, o seu Governo, em 2016, condecorou-o com a Ordem de Timor-Leste. (VP, 21/10/2026)