O Tanoeiro da Ribeira

domingo, fevereiro 22, 2026

VAMOS CONHECER PORTUGAL – VI – EM HONRA DE DOIS MINHOTOS DE RIJA TÊMPERA…

“O Convento da Franqueira foi construído por volta de 1560, utilizando pedras retiradas das ruínas do castelo de Faria, fortaleza do século XIV, que esteve ligado à figura de Nuno Gonçalves, alcaide-mor durante o reinado de D. Fernando. Feito prisioneiro pelos castelhanos, foi levado até às muralhas da fortaleza para persuadir o filho, Gonçalo Nunes, a render-se. Ao incitar o filho à resistência, acabou por ser morto no local, episódio que marcou a memória histórica do castelo.” (JN, 2/12/2025) Recordei esta notícia quando li na comunicação de Amadeu Araújo, no Monte da Virgem, sobre a devoção mariana de D. António Barroso: “Outro Santuário mariano a que anda associado é o Santuário de Nossa Senhora da Franqueira, um dos mais antigos e tradicionais santuários marianos do Norte do país (…) O Círculo Católico de Operários de Barcelos lançou, em 27 de setembro de 1908, o movimento das peregrinações anuais (…) A primeira grande peregrinação foi presidida por D. António Barroso, que passou a ser um peregrino assíduo. (…) . Mais tarde, quando não dispunha já de força física para aguentar a caminhada, chegou a fazer a peregrinação anual num carro de bois.” A evocação destes dois minhotos de ‘antes-quebrar-que-torcer’ - um herói; outro ‘santo’- está na origem deste passeio por terras do Cávado. Após uma passagem pela igreja do antigo convento, uma visita às ruínas do castelo e uma oração na velha ermida, descemos até ao túmulo do nosso Bispo Venerável na matriz de Remelhe e visitamos a capela românica de S. Tiago de Moldes - catedral do exílio da nossa diocese - onde lemos a placa. “No ano de 1911, D. António Barroso, exilado da sede episcopal, ordenou, nesta capela de S. Tiago, 23 sacerdotes da sua diocese do Porto. No dia 4 de Setembro de 2011, recordando os 100 anos do acontecimento, a Fundação Voz Portucalense, com a participação do Bispo D. Manuel Clemente, fez memória desse gesto profético, com um Te Deum e uma evocação neste local pelo Padre José Adílio de Macedo.” Depois, ao chegar a Barcelos, o nosso olhar é atraído pelas ruínas do ‘Paço dos Condes de Barcelos’, gótico, (séc. XV), monumento nacional e sede do Museu Arqueológico. Atravessamos a ‘ponte gótica, (séc. XIV), de cinco tramos desiguais com poderosos talhamares. Dentro da cidade, desperta-nos a atenção, a ‘Igreja Matriz (séc. XIII), de raiz românico-gótica, a ‘Torre Medieval’ (séc. XV) com um magnífico miradouro sobre a cidade; a ‘Igreja das Cruzes’, monumento nacional, estilo barroco, palco das ‘Festas das Cruzes’. No concelho, merece ainda uma visita o ‘Mosteiro de Vilar de Frades’ (séc. XI), profundamente renovado no século XVI; ‘Mosteiro de Manhente’ de que restam a Torre e a Igreja (séc. XII), monumento nacional, de estilo românico; ‘Igreja de Abade de Neiva’, monumento nacional, a sua feição atual datará do século XIV com caraterísticas românico-góticas. A montante, paramos na ‘Ponte do Prado’ com 9 arcos, que substituiu a velha ponte romana destruída em 1510. Daqui, damos uma saltada ao ‘Mosteiro de Tibães’ (séc. XI)) que, em 1567, se tornou a Casa-Mãe dos Beneditinos em Portugal; à ‘Igreja de S. Frutuoso’, (séc. VII), de estilo visigótico; às ruínas arqueológicas do mosteiro de S. Martinho de Dume (séc. VI) e, na margem direita, ao ‘Santuário da Senhora do Alívio’ em Vila Verde, (séc. XVIII), grande centro do culto mariano de que tenho particular devoção Seguimos até à ‘Ponte do Porto’ com 14 arcos no total (séc. XIV) monumento nacional, já em Amares, donde derivamos para o ‘Mosteiro de Rendufe’ (séc. XII) em ruínas, monumento nacional, e para o ‘Mosteiro de Santa Maria do Bouro’, doado por D. Afonso Henriques, em 1148, aos beneditinos e, hoje, convertido numa belíssima pousada. Na freguesia de Fiscal, lembramos o poeta Sá de Miranda (séc. XVI) que aqui viveu e o bem conhecido cantautor António Variações que aqui nasceu. Subimos até ao ‘Santuário da Senhora da Abadia’, com origens no século VII, um local idílico. E terminamos em ‘São Bento da Porta Aberta’, já em Terras do Bouro, o maior centro de peregrinação de Portugal após Fátima. Em pleno Gerês e debruçado sobre a albufeira da Caniçada, é lugar propício à contemplação. Aí, me encontrava quando se deu o ‘25 de Abril’. Gratas recordações… (18/2/2026)

terça-feira, fevereiro 10, 2026

NUM LUSO-DESCENDENTE, A HOMENAGEM AOS MIGRANTES

Bem cedo, ouvi o nome da aldeia que confronta com as nossas ‘cavadas’ para onde, bem menino, levava o gado a pastar, como escrevi: “O sino da capela de Terronhas toca a Trindades. O pequeno pastor descobre-se e dá graças por mais um dia que vai chegar ao fim. É tempo de regressar a casa (VP, 26/4/2017). Era terra de boas casas agrícolas como a da família do monsenhor Adriano Martins, abade de Santo Ildefonso, de quem disse: “cultivou a austeridade e a honradez que bebeu no seio de uma família, muito estimada” (VP, 4/2/2009). Hoje, porém, quero homenagear uma família de gente humilde, mas igualmente honrada, com vários filhos emigrantes: ”Alguns deslocaram-se para a Europa, mas outros resolvem ir para o Brasil, que ainda era terra de oportunidades. Laurentino, na sua insatisfação, resolveu ser dos que arriscam o Brasil” (Uma Vida, Uma História, Fátima Silva, pág. 98) O Laurentino, logo que chegou ao Brasil – tinha frequentado um seminário em Braga - arranjou trabalho numa empresa de que, mais tarde, foi sócio. “O trabalho executado na firma de contabilidade tinha uma enorme reputação (…) Esta reputação devia-se à honestidade e verticalidade que eram reconhecidos a Laurentino. Foi membro do Lyons Club, chegando a presidente.” (O. c., pág. 99). Casou com a professora Isa Sousa e tiveram dois filhos. “Estes pais, imbuídos de amor pelos filhos, sempre foram o seu suporte educacional e moral” a que não faltou a educação cristã: como testemunha o seu filho António Carlos: “Aos domingos, após a missa das seis e do café da manhã, acompanhava meu pai…” (Pág. 26) E porque “a árvore boa dá bons frutos” (Mt 7,17), o António Carlos veio a ser um “cientista muito crente (…) que tinha uma fé muito especial por Nossa Senhora Aparecida e todos os domingos ia à Missa”. (Pág. 92) E quem foi António Carlos Marques da Silva, distinto matemático e ilustre cidadão brasileiro? Começou por fazer Engenharia Eletrónica na PUC-Rio de Janeiro. Em 1968 com uma bolsa de estudo “foi colocado na Faculdade de Matemática de Nice,” onde defendeu a tese de doutoramento que foi “ovacionada numa sala cheia e a classificação correspondeu à originalidade e valor da mesma- ‘Très bien’, a classificação máxima.” (Pág. 40) O seu percurso universitário começou em 1975/76 na Universidade do Porto, como ‘Professor Visitante’. “Por motivos familiares, recusou lecionar na Universidade de Aveiro e regressou ao Brasil.” (Pág. 46) A partir de 1976, foi professor da Universidade Federal de Alagoas onde chegou à Pró-Reitoria. Lecionou ainda na Universidade Federal de Pernambuco; na Escola Técnica de Alagoas, no Centro de Estudos Superiores de Maceió e na Faculdade de Alagoas Entretanto, foi publicando uma vasta bibliografia e desenvolvendo outras atividades de compromisso social, como a criação do ADUFAI (Associação dos Docentes da Universidade Federal de Alagoas) de que foi presidente. Mais que a frieza do currículo, emociona-nos o calor dos testemunhos: - “António Carlos foi um professor extraordinário. Como colega, aprendi muito com ele. Seu humor inteligente e sutil era um encanto, mais do que isso, foi um apoio inestimável para todos em redor. Porque ele era assim: generoso, eficiente e sempre pronto para ajudar, mesmo nas tarefas mais ingratas.” (Colega na Universidade, pág. 102) - ” António Carlos da Matemática, uma liderança que eu pude acompanhar a partir dos anos 1980, sujeito íntegro e comprometido com as grandes pautas e causas, a exemplo de outras lideranças sindicais” (Colega sindical, pág. 103) - “Rendemos uma justa homenagem ao Professor António Carlos, notável defensor das liberdades públicas e dos direitos fundamentais, cuja trajetória é marcada pelo compromisso inabalável com o saber jurídico, a cidadania e o bem comum. Nos anos em que esteve à frente da editoração da Revista do Ministério Público de Alagoas, desempenhou papel essencial. (…) Sua atuação fortaleceu o papel da instituição como defensora da cidadania e do desenvolvimento humano, especialmente no que tange à efetivação dos direitos que dignificam a pessoa. Agradecemos, com admiração e respeito, ao Professor António Carlos. (…) Sua marca permanecerá indelével no coração daqueles que acreditam na força transformadora do conhecimento e da justiça.” (Stela Cavalcanti, Homenagem ao Professor António Carlos, pág 104) Na evocação desta família com raízes em Recarei, Paredes, presto homenagem aos migrantes, generosos e eficientes, que, pela sua honestidade e verticalidade, se tornam uma mais-valia para as comunidades que os acolhem… (VP, 11/2/2026)

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

PATRIARCA DE LISBOA CRITICA CATÓLICOS QUE SÃO CONTRA IMIGRANTES

Este é o titulo que o jornal ‘7Margens’ deu a uma entrevista da Agência Lusa onde “o patriarca de Lisboa critica os católicos que são contra os imigrantes, por desrespeitarem os ensinamentos de Cristo.” que se identificou como peregrino e como estrangeiro”, citando o Evangelho: ‘Eu era peregrino e estrangeiro e vós me recolhestes”. (…) Reconhece que “o fenómeno da imigração apanhou-nos a todos de surpresa e não fomos preparados para ele. E dá o exemplo da “sua freguesia natal, Urqueira (Ourém), quando vê a presença de ‘irmãos e irmãs de outros países, de outras tradições, com outros hábitos de rezar e de viver a sua fé’ e olha para o comportamento dos seus conterrâneos”. (19/2/2026) Porque a ignorância é causadora de medos e desconfianças, lembrei-me da crónica “Os imigrantes vieram e, com eles, religiões e cultos” (JN, 12/1/2025 que começa por dizer: “Neste movimento migratório, as crenças religiosas acompanham os imigrantes, incluindo tradições cristãs, evangélicas, afro-brasileiras, islâmicas – contribuindo para uma crescente diversidade no panorama religioso do país. E concretiza: Do Brasil, católicos e evangélicos candomblé, orixás, terreiros e búzios O catolicismo apostólico romano é a principal religião dos brasileiros (…) Há outras crenças que conquistam espaço com a sua chegada (…) O candomblé tem raízes africanas, nas religiões tradicionais desse imenso continente. Este culto foca-se em orixás, divindades que representam forças e elementos da natureza, e na permanente busca de equilíbrio entre o mundo físico e espiritual. Manifesta-se em rituais, cantos e danças, que acontecem em terreiros, que são lugares sagrados. ‘Pai e mãe de santo’ são os líderes espirituais que conduzem as cerimónias. As oferendas de alimentos destinam-se aos orixás com o objetivo de manter a harmonia e receber bênçãos. Há também consultas para lançar búzios, ouvir a alma, receber orientações.” Índia e budismo O hinduísmo é a religião mais praticada na Índia (…) Congrega várias tradições religiosas e espirituais, baseia-se no karma, acredita na reencarnação, tem muitos deuses e deusas. Em casa, os hindus têm um altar, recitam escritos religiosos, cantam hinos e mantras. Ir aos templos não é obrigatório. (…) Quem o segue o budismo, vive à procura do Nirvana através de práticas como a meditação. As tradições são diversas: tibetana, zen, chinesa, tailandesa, vietnamita”. Bangladesh e Paquistão “Estes imigrantes, maioritariamente muçulmanos, trazem consigo práticas religiosas e culturais fortemente enraizadas no Islão, que se manifestam no dia a dia através da ida à mesquita, do uso de vestuário tradicional e da celebração de datas como Ramadão.” De África, a diversidade Imigrantes africanos, várias religiões. Umbanda é um exemplo. Religião que combina elementos do catolicismo, do espiritismo, de tradições africanas e indígenas, com os olhos postos na evolução espiritual.” “A tarefa pastoral da Igreja é ser ela própria uma comunidade de encontro que promove o encontro (…) Numa perspetiva cristã e evangélica nunca podemos deixar de tratar o outro, seja ele quem for, como um irmão ou como uma irmã” – palavras do patriarca de Lisboa na referida entrevista. E interroguei-me: - Que pontes tem a Igreja portuguesa estabelecido com estas vivências religiosas que nos chegam de todo o mundo? - Que temos feito por esses irmãos? Recordei o trabalho da Igreja francesa com os nossos emigrantes na década de sessenta do século passado. Ainda no passado dia 26 outubro, em Pitões das Júnias, o senhor António Leite, daí natural e emigrante em Brest, me dizia: “O P. Pièrre May, foi para nós um pai. Íamos daqui sem saber uma palavra e, lá, era ele que nos ajudava a preencher os papéis e acompanhava aonde era preciso. Foi ele quem o casou e, aí, batizou duas crianças que, hoje, são figuras gradas da cultura do Porto.. Por pura coincidência, este presbítero francês, por solicitação do P. José Maria Gonçalves Moreira, do ‘Serviço Diocesano de Emigração’, passou o mês de julho de 1968, em minha casa a aprender português e a visitar familiares de emigrantes. Foi o primeiro que acolhi; o último foi o P. Étienne, de Paris. Que magnífico intercâmbio eclesial… (4/2/2026)

terça-feira, janeiro 27, 2026

D. ANTÓNIO BARROSO E A DEVOÇÃO MARIANA

Quando se aproxima a festa da ‘Senhora das Candeias’, a grande solenidade do Porto medieval que D. João I escolheu para, em 1387, casar, na Sé, com D. Filipa de Lencastre, mãe da ‘Ínclita Geração’ ,veio-me à mente a palestra, com o título que acima assumi, proferida, no Monte da Virgem, (6/12/2025), por Amadeu Araújo, Vice postulador da ‘Causa de D. António Barroso’, onde falou das origens da “festa da Purificação de Maria (Apresentação do Senhor) que nasceu em Jerusalém no século IV e era também conhecida como festa da Candelária (2 de fevereiro).” Esta magnífica comunicação obedeceu ao seguinte desenho: I – Devoção Mariana na Igreja Católica: 1. Fundamentação bíblica e teológica; 2. Desenvolvimento da devoção mariana; 3. O Magistério da Igreja e o Culto mariano. II – A devoção mariana na diocese do Porto. III – A devoção mariana na vida de D. António Barroso. Limito-me aos dois últimos capítulos: Devoção mariana na diocese do Porto “Segundo uma tradição provavelmente lendária que começou a circular nos finais da Idade Média, uma armada de cavaleiros da Gasconha - a chamada “Armada dos Gascões” - ajudou a defender a cidade contra investidas muçulmanas. Entre eles estava um bispo, vindo da diocese de Vendôme, que trouxe consigo uma imagem da Virgem Maria. Esta imagem teria dado origem à veneração de Nossa Senhora de Vandoma, invocação que permanece central na devoção mariana portuense. (…) O que a história documenta é que a reconquista da cidade aos muçulmanos foi feita por Vímara Peres, no século IX, mais precisamente em 868. Prova notória da notável importância da devoção mariana entre as gentes do Porto, desde os tempos da reconquista, está no brasão da cidade onde aparece a imagem da Senhora de Vandoma com o Menino cruzada com as armas de Portugal. A devoção à Virgem Maria está bem presente e de várias formas no dia a dia da diocese e da cidade. Está presente nas paróquias e nas inúmeras igrejas, capelas e imagens diversas que ao longo dos séculos foram erigidas em honra de Maria, sob diferentes invocações, algumas bem originais como Nossa Senhora da Silva (na Sé do Porto). (…) Devoção mariana de D. António Barroso “Na diocese do Porto continuou bem viva a sua devoção à Imaculada Conceição. Eloquente testemunho é a sua participação na fundação deste santuário do Monte da Virgem. É ao padre Luís Rocha (1872-1957) que se deve a fundação deste espaço de culto mariano, bem como o topónimo Monte da Virgem, que veio a substituir o de ‘Monte Grande’ ou ‘Monte Maior’, mas foi D. António Barroso que lançou a primeira pedra do monumento, a 25 de Junho de 1905, (…) Meses depois do lançamento da primeira pedra, D. António Barroso, em 10 de outubro daquele mesmo ano, aprovou a Comissão Executiva do Monumento a que ficou sempre ligado: «Muitas vezes subia a pé, recitando o terço, em companhia de algum sacerdote do Paço», como informa o padre Luís Rocha. (…) (Fotografia) ‘Monumento à Imaculada, no Monte da Virgem “(No) ano de 1918, no dia 25 de abril, D. António, já gravemente doente, criou a paróquia da Senhora da Hora. A devoção a Nossa Senhora da Hora tem tradição popular antiga. As origens do culto naquele local remontam ao século XVI. Em 1514 foi construída a primitiva capela de Nossa Senhora da Hora num lugar que era conhecido como “Mãe d’Água”. Há relatos de mulheres grávidas que vinham pedir proteção da Virgem na hora do parto, de mulheres estéreis que vinham pedir para engravidar, e outras graças congéneres. No final do século XIX e início do século XX, a população daquela área aumentou significativamente, em parte devido à construção de fábricas de grande dimensão, como a EFANOR, Empresa Fabril do Norte, fundada em 1907, e que nos seus tempos áureos, chegou a empregar mais de 3.000 trabalhadores. Este crescimento desmesurado tornou insuficiente o espaço da antiga capela a qual, administrativamente dependia da paróquia de Bom Jesus de Matosinhos E assim, em 25 de abril de 1918, o bispo do Porto, D. António José de Sousa Barroso, erigiu canonicamente a Paróquia de Nossa Senhora da Hora. Viria a falecer quatro meses depois.” Esta comunicação, pela beleza da forma e riqueza de conteúdo, é digna de ser conhecida, na sua versão integral, por esta cidade que se quer da Virgem. E bem o merece o seu autor que tanto tem feito pela ‘Causa’ do nosso Bispo Venerável.(28/1/2026)

quarta-feira, janeiro 21, 2026

'MARIA - A ÁRVORE DA LUZ' E DA ESPERANÇA

Quando assisto a um concerto numa igreja, sempre admito a possibilidade de surgirem composições com temática cristã. Não assim, na Casa da Música. E, no entanto, foi o que aconteceu no concerto ‘Quadros de uma exposição’, de Modest Mussorgski, com orquestração de Maurice Ravel. Ao ler a ‘Folha de Sala’, vi que a 1.ª parte era preenchida por três obras de autores contemporâneos. Fiquei surpreendido com a primeira dessas composições: ‘Mary/Transcendence after Trauma’, 2020-21, de Lisa Lim, com cinco secções: I. Natureza-morta com feto e anjo; IIa. Ouve, ó Mar; IIb. Ouve, ó Terra; IIc. Ouve, ó grande cinturão da terra, margem de mar; III. O seu consentimento selvagem; IV. As estrelas caem sobre a terra; V. Maria – Árvore da Vida E foi com extrema curiosidade que li as palavras da compositora australiana, de origem chinesa, que, aqui, transcrevo: “A história bíblica da Anunciação narra a visita do Anjo Gabriel a Maria. Ele chama-a pelo nome e anuncia que ela dará à luz Cristo: Maria responde: ‘Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38).” “A obra aborda vários aspetos da escuta. No início, tudo é ouvido na perspetiva de Maria: ela ouve o batimento cardíaco fetal e um canto amniótico vindo das profundezas do seu corpo; sente a chegada do Anjo como uma auréola sonora avassaladora. Nesta peça, esta experiência sensorial multifacetada da audição reflete-se também na citação dum fragmento de canto gregoriano ‘Audi Pontus’ que remete para o livro do Apocalipse (,6,2-13) e para as suas profecias de catástrofe. Associei essas visões ao imaginário de Maria do Drama da Paixão – um futuro de espinhos, cinzas e lágrimas. Este Latim, com a sua exortação a todos os cantos da terra e do mar para ‘Ouvir’ uma mensagem de colapso cósmico em que ‘as estrelas caem sobre a terra’ serve de prefácio à segunda e quarta partes da peça.” Ouve, ó mar; ouve, ó terra; ouve, ó grande cinturão da terra na margem do mar; ouve, ó homem; ouve, tudo o que vive sob o sol. -Está próximo, chegará vede, eis que o dia já chegou. Esse dia, esse dia odiado, esse dia amargo em que o céu fugirá, o sol enrubescerá, a lua será posta em fuga, as estrelas cairão sobre a terra. Ai, miserável, ai miserável, ai, porquê, ó homem, persegues a falsa alegria? “Em contraponto a esta melancolia, um ponto de referência mais luminoso para mim é a pintura iridescente da Anunciação de Fra Angelico, criada para o retábulo de Cortona (1433-34), que inscreve o diálogo de Maria e o Anjo em letras douradas. Podemos ler as palavras do Anjo, mas temos de inverter o nosso olhar para decifrar a fala de Maria, escrita ao contrário e de cabeça para baixo, como se estivesse endereçada a um poder divino que olha de cima.” “Estes textos e representações exotéricos convocam também os nossos tempos. Ao debater-me com esta história, procurei um ponto de vista invertido para pensar o poder espiritual, seguindo a pista dada pela representação de Fra Angelico. Concentrei-me no elemento humano expresso no consentimento de Maria, proferido perante um anúncio aterrador e em confronto direto com uma mensagem de encarnação quase inacreditável.” “Na minha peça, Maria profere a sua verdade ou a sua própria anunciação numa secção intitulada ‘o seu consentimento selvagem’. A secção final, ‘Maria’ – Árvore da Luz’ fala de uma transmutação. Para além da extinção das estrelas há iluminação. Do trauma de uma mulher emerge um perdão tão imenso que tem o poder de alterar o próprio tecido do mundo.” (13/12/2025) Quando assisto a um concerto, deixo-me levar pela emoção estética e viajo pelas paisagens interiores que a música me vai sugerindo. Neste concerto, por entre nuvens apocalíticas que pesam sobre o Mundo– ‘Audi Pontus’,- brilharam raios de esperança da 1.ª Leitura desse domingo do Advento: “Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. (…) Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos”.( Is 35,1-6a.10) “Há uma pedagogia da escuta que nos falta” (Tolentino Mendonça, Para os caminhantes tudo é caminho) “Este é o meu Filho muito amado: Escutai-o! -Mc 9,7” (21/1/2026)

quarta-feira, janeiro 14, 2026

ANO NOVO - VIDA NOVA

“Morre o velho homem e nasce o novo.” (Ef 4,22) O Curso do Seminário de 1963, na comemoração dos 74 nos da sua entrada no Colégio de Ermesinde (15/10/1951), evocou o primeiro ‘exame de consciência’ que realizou nessa já longínqua noite. Porque, poderá ser útil a quem queira, no início do novo ano, ‘despojar-se do homem velho para se revestir do homem novo”, partilho convosco o esquema desse ‘momento espiritual’. 1. Invocação do Espírito Santo - ‘Veni Creator’. 2. Leitura dum texto do Papa Francisco (23/4/2023). “Reler o dia, a vida, com Jesus: abrir-lhe o coração, levar-lhe as pessoas, as escolhas, os medos, as quedas e as esperanças, tudo o que aconteceu, para aprender gradualmente a olhar com outros olhos, com os Seus e não apenas com os nossos. Diante do amor de Cristo, até o que parece cansativo e malsucedido pode aparecer sob outra luz: uma cruz difícil de abraçar, a escolha do perdão diante de uma ofensa, uma vingança fracassada, o cansaço do trabalho, a sinceridade que custa, as provações da vida familiar, poderão aparecer-nos sob uma luz nova, a do Crucificado-Ressuscitado, que sabe fazer de cada queda um passo em frente.” 3. ‘Exame de Consciência‘, segundo o espírito do Papa Francisco ”A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem onde ele se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (GS, 16) A minha relação com Deus - Agradeço a Deus pela minha vida, pelas pessoas que amo e amei e por tudo o que vivi? - Confio no amor e na misericórdia de Deus, mesmo diante das minhas limitações ou doenças? - Tenho nutrido esperança no Céu, sem me deixar dominar pela tristeza ou pelo medo da morte? Minha relação com os outros - Demonstro carinho e gratidão por minha família, cuidadores ou amigos? - Tenho perdoado as mágoas do passado ou guardo rancores? - Sou solidário com os pobres, excluídos, doentes e solitários? - Uso minhas palavras para encorajar e louvar, ou só sei reclamar e criticar? - Contribuí com meus dons para o bem comum? - Estive disponível para servir, ou fechei-me no comodismo? A minha atitude perante a vida - Acolho com serenidade as mudanças da idade (limitações físicas, doenças, dependência)? - Tenho cultivado a alegria e a esperança, mesmo nos dias difíceis? - Tenho oferecido meu sofrimento, solidão ou dores a Deus como forma de união a Cristo? - Sinto-me útil ao reino de Deus? A minha relação com a criação e a casa comum - Respeitei a natureza e promovi o cuidado com o meio ambiente? - Levei em consideração as gerações futuras nas minhas escolhas e hábitos? - Agradeci a beleza da criação e vivi com simplicidade. O discernimento e a fidelidade à consciência - Procurei discernir a vontade de Deus? - Busquei fazer o bem com liberdade interior, ou fui guiado pelas aparências? - Respeitei a dignidade de cada pessoa, mesmo quem pensa diferente de mim? 4. Ato Penitencial Ato de Contrição – “Meu Deus, porque sois bom, pesa-me de Vos ter ofendido…” 5. Louvor e ação de graças Senhor, dou-Te graças e Te louvo pela vida que me dás, pelos caminhos que percorri, pelas pessoas que encontrei. Dá-me um coração sereno, agradecido e cheio de esperança. Ámen 6. Consagração a Nossa Senhora, em comunhão com a Igreja diocesana. “Ó Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe! (…) Mãe de Misericórdia e de carinho, muitas vezes experimentamos a tua ternura. (…) Queremos agradecer-Te: Por seres nossa guia e companheira, por peregrinares connosco, pela escuta das nossas preces, pela força que sempre nos deste. (…) Pede ao Pai que acolha junto de Si todos quantos nos antecederam. Somos reconhecidos e gratos para com todos. (…) Obtém-nos do Espírito de Deus luz e força para continuarmos a servir. (…) Concede alento aos doentes e sofredores, dignidade aos pobres e necessitados. Providencia a paz para o mundo e faz que se calem as armas e cesse a guerra. (…) Acolhe esta oração de confiança e amor e leva-a ao Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Deus de vida, de amor e de paz, pelos séculos dos séculos. Ámen.” (Extratos da Consagração da diocese do Porto à Virgem Santa Maria, por D. Manuel Linda, em Fátima (20/9/2025)” 7. Salve Regina “Ninguém põe remendo novo em roupa velha e ninguém deita vinho novo em odres velhos…” (Lc 5, 6-9) (14/1/2026)

quarta-feira, janeiro 07, 2026

PAI...MÃE... AVÓ... AVÔ...GOSTO MUITO DE TI...

(Fotografia) Este ano, mais uma vez, por convite da paróquia de que é padroeiro, S. Nicolau veio ao Porto, em dezembro passado. Por causa da chuva, não chegou de barco nem foi à Alfândega, mas, acompanhado pelo pároco, acólitos e colaboradores do Centro Social, foi visitar escolas do Centro Histórico. Perdeu-se em solenidade o que se ganhou em intimidade. Acolhido em festa pelas crianças, S. Nicolau disse-lhes que estava muito feliz com os seus sorrisos. Recordou as risadas da sua infância. E convidou-as a acompanhá-lo numa gargalhada…. “Quem ri assim é o Pai Natal”. Disseram. E ele explicou-lhes: - “Não sou o Pai Natal, mas estou na sua origem. Sou muito mais velhinho. Fui bispo em Mira, na Turquia no século IV, já lá vão muitos e muitos anos. No século passado, na América, substituíram a ’mitra’ que trago na cabeça, por um gorro, puseram-me umas barbas brancas e disseram que eu vinha do Polo Norte. Passei a fazer de ‘Pai Natal’, mas, no norte da Europa, continuo a ser ‘Santa Claus’. E, nos países do leste europeu, onde não há ‘pai natal’, sou eu quem anda a distribuir prendas.” De seguida, perguntou-lhes: - “Por que razão a vossa cidade está toda iluminada?” – “É Natal!”, gritaram em coro. - “No Natal festejamos o nascimento de Jesus”, continuou. “Meus pais, que eram muito ricos, ensinaram-me que quem dá aos pobres, empresta a Deus e que Jesus disse:’ O que fizerdes aos meus irmãos mais pequeninos, a mim o fazeis.’ Quando morreram, era eu ainda jovem, fiz o que me ensinaram. Distribuí a herança por quem mais precisava, a começar pelas crianças de quem muito gosto. Por isso, sou o seu ‘santo protetor’”. E deu um exemplo: “Havia, na minha terra, um negociante rico que acabou na miséria. E ficou sem dinheiro para dar um dote às três filhas que estavam para casar. Assim, elas corriam o risco de ser vendidas como escravas ou fazerem coisas más. Então, de noite, sem ninguém ver, atirei pela chaminé três moedas de ouro que caíram dentro dos sapatos das meninas. E o pai já pôde dar-lhes o dote e não ficou envergonhado. Assim, nasceu a tradição da chaminé e do sapatinho na Noite de Natal… “ - Qual é o nome da vossa cidade? - “Porto”, veio a resposta, bem gritada. - Sabeis porque se chama assim? As suas primeiras casas foram onde agora está a Sé. E chamava-se Cale. Muito tempo depois, os Romanos chamaram-lhe Portucale, até que passou a ser, apenas, Porto. Neste porto paravam barcos que traziam e levavam mercadorias do estrangeiro. Quem os conduzia eram os marinheiros e quem fazia negócio eram os comerciantes. No século XIII, os comerciantes e os marinheiros contruíram uma ermida na Ribeira em minha honra que sou o seu patrono. No século XVI, quando foi criada a paróquia (1583), passei a ser o seu padroeiro. No século XVIII, a capela sofreu um grande incêndio e a substituí-la foi construída a atual igreja de S. Nicolau.” - Vós sois estudantes? - perguntou. – Sim, com braços no ar… “Eu também sou o padroeiro dos estudantes. Por isso, em Guimarães, as festas dos estudantes são as ‘Nicolinas’. São em minha honra: Nicolau » Nicolinas. É que eu fui um bispo sábio e, faz agora 1700 anos, participei no Concílio de Niceia onde foi criado o Credo que rezais na Missa. “Creio em um só Deus…” E apontando para o saco que trazia, disse-lhes: “Tenho aqui uma prendinha para cada um de vós. No final, vai ser-vos entregue Mas, agora, vou dar-vos um abraço. É a prenda que vós, em meu nome, dareis aos vossos pais e avós na véspera de Natal, dizendo-lhes ao ouvido: ‘gosto muito de ti’. Um sorriso bailará no rosto de vossos pais e uma lágrima brilhará, feliz, nos olhos dos vossos avós… É o seu melhor presente. E foi no meio de abraços, com alguns empurrões à mistura que terminou este encontro que se continuou na semana seguinte… No ano passado, S. Nicolau percorreu a rua de Santa Catarina e o Mercado do Bolhão. Este ano, foi ao Centro Materno Infantil do Norte levar uma prendinha às crianças doentes e uma palavra de conforto aos familiares. Parabéns ao Centro Social da paróquia de S. Nicolau e ao P. Jardim, os grandes obreiros desta celebração que bem simboliza a ‘alma do Porto’. (7/1/2026)