O Tanoeiro da Ribeira

terça-feira, janeiro 27, 2026

D. ANTÓNIO BARROSO E A DEVOÇÃO MARIANA

Quando se aproxima a festa da ‘Senhora das Candeias’, a grande solenidade do Porto medieval que D. João I escolheu para, em 1387, casar, na Sé, com D. Filipa de Lencastre, mãe da ‘Ínclita Geração’ ,veio-me à mente a palestra, com o título que acima assumi, proferida, no Monte da Virgem, (6/12/2025), por Amadeu Araújo, Vice postulador da ‘Causa de D. António Barroso’, onde falou das origens da “festa da Purificação de Maria (Apresentação do Senhor) que nasceu em Jerusalém no século IV e era também conhecida como festa da Candelária (2 de fevereiro).” Esta magnífica comunicação obedeceu ao seguinte desenho: I – Devoção Mariana na Igreja Católica: 1. Fundamentação bíblica e teológica; 2. Desenvolvimento da devoção mariana; 3. O Magistério da Igreja e o Culto mariano. II – A devoção mariana na diocese do Porto. III – A devoção mariana na vida de D. António Barroso. Limito-me aos dois últimos capítulos: Devoção mariana na diocese do Porto “Segundo uma tradição provavelmente lendária que começou a circular nos finais da Idade Média, uma armada de cavaleiros da Gasconha - a chamada “Armada dos Gascões” - ajudou a defender a cidade contra investidas muçulmanas. Entre eles estava um bispo, vindo da diocese de Vendôme, que trouxe consigo uma imagem da Virgem Maria. Esta imagem teria dado origem à veneração de Nossa Senhora de Vandoma, invocação que permanece central na devoção mariana portuense. (…) O que a história documenta é que a reconquista da cidade aos muçulmanos foi feita por Vímara Peres, no século IX, mais precisamente em 868. Prova notória da notável importância da devoção mariana entre as gentes do Porto, desde os tempos da reconquista, está no brasão da cidade onde aparece a imagem da Senhora de Vandoma com o Menino cruzada com as armas de Portugal. A devoção à Virgem Maria está bem presente e de várias formas no dia a dia da diocese e da cidade. Está presente nas paróquias e nas inúmeras igrejas, capelas e imagens diversas que ao longo dos séculos foram erigidas em honra de Maria, sob diferentes invocações, algumas bem originais como Nossa Senhora da Silva (na Sé do Porto). (…) Devoção mariana de D. António Barroso “Na diocese do Porto continuou bem viva a sua devoção à Imaculada Conceição. Eloquente testemunho é a sua participação na fundação deste santuário do Monte da Virgem. É ao padre Luís Rocha (1872-1957) que se deve a fundação deste espaço de culto mariano, bem como o topónimo Monte da Virgem, que veio a substituir o de ‘Monte Grande’ ou ‘Monte Maior’, mas foi D. António Barroso que lançou a primeira pedra do monumento, a 25 de Junho de 1905, (…) Meses depois do lançamento da primeira pedra, D. António Barroso, em 10 de outubro daquele mesmo ano, aprovou a Comissão Executiva do Monumento a que ficou sempre ligado: «Muitas vezes subia a pé, recitando o terço, em companhia de algum sacerdote do Paço», como informa o padre Luís Rocha. (…) (Fotografia) ‘Monumento à Imaculada, no Monte da Virgem “(No) ano de 1918, no dia 25 de abril, D. António, já gravemente doente, criou a paróquia da Senhora da Hora. A devoção a Nossa Senhora da Hora tem tradição popular antiga. As origens do culto naquele local remontam ao século XVI. Em 1514 foi construída a primitiva capela de Nossa Senhora da Hora num lugar que era conhecido como “Mãe d’Água”. Há relatos de mulheres grávidas que vinham pedir proteção da Virgem na hora do parto, de mulheres estéreis que vinham pedir para engravidar, e outras graças congéneres. No final do século XIX e início do século XX, a população daquela área aumentou significativamente, em parte devido à construção de fábricas de grande dimensão, como a EFANOR, Empresa Fabril do Norte, fundada em 1907, e que nos seus tempos áureos, chegou a empregar mais de 3.000 trabalhadores. Este crescimento desmesurado tornou insuficiente o espaço da antiga capela a qual, administrativamente dependia da paróquia de Bom Jesus de Matosinhos E assim, em 25 de abril de 1918, o bispo do Porto, D. António José de Sousa Barroso, erigiu canonicamente a Paróquia de Nossa Senhora da Hora. Viria a falecer quatro meses depois.” Esta comunicação, pela beleza da forma e riqueza de conteúdo, é digna de ser conhecida, na sua versão integral, por esta cidade que se quer da Virgem. E bem o merece o seu autor que tanto tem feito pela ‘Causa’ do nosso Bispo Venerável.(28/1/2026)

quarta-feira, janeiro 21, 2026

'MARIA - A ÁRVORE DA LUZ' E DA ESPERANÇA

Quando assisto a um concerto numa igreja, sempre admito a possibilidade de surgirem composições com temática cristã. Não assim, na Casa da Música. E, no entanto, foi o que aconteceu no concerto ‘Quadros de uma exposição’, de Modest Mussorgski, com orquestração de Maurice Ravel. Ao ler a ‘Folha de Sala’, vi que a 1.ª parte era preenchida por três obras de autores contemporâneos. Fiquei surpreendido com a primeira dessas composições: ‘Mary/Transcendence after Trauma’, 2020-21, de Lisa Lim, com cinco secções: I. Natureza-morta com feto e anjo; IIa. Ouve, ó Mar; IIb. Ouve, ó Terra; IIc. Ouve, ó grande cinturão da terra, margem de mar; III. O seu consentimento selvagem; IV. As estrelas caem sobre a terra; V. Maria – Árvore da Vida E foi com extrema curiosidade que li as palavras da compositora australiana, de origem chinesa, que, aqui, transcrevo: “A história bíblica da Anunciação narra a visita do Anjo Gabriel a Maria. Ele chama-a pelo nome e anuncia que ela dará à luz Cristo: Maria responde: ‘Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38).” “A obra aborda vários aspetos da escuta. No início, tudo é ouvido na perspetiva de Maria: ela ouve o batimento cardíaco fetal e um canto amniótico vindo das profundezas do seu corpo; sente a chegada do Anjo como uma auréola sonora avassaladora. Nesta peça, esta experiência sensorial multifacetada da audição reflete-se também na citação dum fragmento de canto gregoriano ‘Audi Pontus’ que remete para o livro do Apocalipse (,6,2-13) e para as suas profecias de catástrofe. Associei essas visões ao imaginário de Maria do Drama da Paixão – um futuro de espinhos, cinzas e lágrimas. Este Latim, com a sua exortação a todos os cantos da terra e do mar para ‘Ouvir’ uma mensagem de colapso cósmico em que ‘as estrelas caem sobre a terra’ serve de prefácio à segunda e quarta partes da peça.” Ouve, ó mar; ouve, ó terra; ouve, ó grande cinturão da terra na margem do mar; ouve, ó homem; ouve, tudo o que vive sob o sol. -Está próximo, chegará vede, eis que o dia já chegou. Esse dia, esse dia odiado, esse dia amargo em que o céu fugirá, o sol enrubescerá, a lua será posta em fuga, as estrelas cairão sobre a terra. Ai, miserável, ai miserável, ai, porquê, ó homem, persegues a falsa alegria? “Em contraponto a esta melancolia, um ponto de referência mais luminoso para mim é a pintura iridescente da Anunciação de Fra Angelico, criada para o retábulo de Cortona (1433-34), que inscreve o diálogo de Maria e o Anjo em letras douradas. Podemos ler as palavras do Anjo, mas temos de inverter o nosso olhar para decifrar a fala de Maria, escrita ao contrário e de cabeça para baixo, como se estivesse endereçada a um poder divino que olha de cima.” “Estes textos e representações exotéricos convocam também os nossos tempos. Ao debater-me com esta história, procurei um ponto de vista invertido para pensar o poder espiritual, seguindo a pista dada pela representação de Fra Angelico. Concentrei-me no elemento humano expresso no consentimento de Maria, proferido perante um anúncio aterrador e em confronto direto com uma mensagem de encarnação quase inacreditável.” “Na minha peça, Maria profere a sua verdade ou a sua própria anunciação numa secção intitulada ‘o seu consentimento selvagem’. A secção final, ‘Maria’ – Árvore da Luz’ fala de uma transmutação. Para além da extinção das estrelas há iluminação. Do trauma de uma mulher emerge um perdão tão imenso que tem o poder de alterar o próprio tecido do mundo.” (13/12/2025) Quando assisto a um concerto, deixo-me levar pela emoção estética e viajo pelas paisagens interiores que a música me vai sugerindo. Neste concerto, por entre nuvens apocalíticas que pesam sobre o Mundo– ‘Audi Pontus’,- brilharam raios de esperança da 1.ª Leitura desse domingo do Advento: “Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. (…) Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos”.( Is 35,1-6a.10) “Há uma pedagogia da escuta que nos falta” (Tolentino Mendonça, Para os caminhantes tudo é caminho) “Este é o meu Filho muito amado: Escutai-o! -Mc 9,7” (21/1/2026)

quarta-feira, janeiro 14, 2026

ANO NOVO - VIDA NOVA

“Morre o velho homem e nasce o novo.” (Ef 4,22) O Curso do Seminário de 1963, na comemoração dos 74 nos da sua entrada no Colégio de Ermesinde (15/10/1951), evocou o primeiro ‘exame de consciência’ que realizou nessa já longínqua noite. Porque, poderá ser útil a quem queira, no início do novo ano, ‘despojar-se do homem velho para se revestir do homem novo”, partilho convosco o esquema desse ‘momento espiritual’. 1. Invocação do Espírito Santo - ‘Veni Creator’. 2. Leitura dum texto do Papa Francisco (23/4/2023). “Reler o dia, a vida, com Jesus: abrir-lhe o coração, levar-lhe as pessoas, as escolhas, os medos, as quedas e as esperanças, tudo o que aconteceu, para aprender gradualmente a olhar com outros olhos, com os Seus e não apenas com os nossos. Diante do amor de Cristo, até o que parece cansativo e malsucedido pode aparecer sob outra luz: uma cruz difícil de abraçar, a escolha do perdão diante de uma ofensa, uma vingança fracassada, o cansaço do trabalho, a sinceridade que custa, as provações da vida familiar, poderão aparecer-nos sob uma luz nova, a do Crucificado-Ressuscitado, que sabe fazer de cada queda um passo em frente.” 3. ‘Exame de Consciência‘, segundo o espírito do Papa Francisco ”A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem onde ele se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (GS, 16) A minha relação com Deus - Agradeço a Deus pela minha vida, pelas pessoas que amo e amei e por tudo o que vivi? - Confio no amor e na misericórdia de Deus, mesmo diante das minhas limitações ou doenças? - Tenho nutrido esperança no Céu, sem me deixar dominar pela tristeza ou pelo medo da morte? Minha relação com os outros - Demonstro carinho e gratidão por minha família, cuidadores ou amigos? - Tenho perdoado as mágoas do passado ou guardo rancores? - Sou solidário com os pobres, excluídos, doentes e solitários? - Uso minhas palavras para encorajar e louvar, ou só sei reclamar e criticar? - Contribuí com meus dons para o bem comum? - Estive disponível para servir, ou fechei-me no comodismo? A minha atitude perante a vida - Acolho com serenidade as mudanças da idade (limitações físicas, doenças, dependência)? - Tenho cultivado a alegria e a esperança, mesmo nos dias difíceis? - Tenho oferecido meu sofrimento, solidão ou dores a Deus como forma de união a Cristo? - Sinto-me útil ao reino de Deus? A minha relação com a criação e a casa comum - Respeitei a natureza e promovi o cuidado com o meio ambiente? - Levei em consideração as gerações futuras nas minhas escolhas e hábitos? - Agradeci a beleza da criação e vivi com simplicidade. O discernimento e a fidelidade à consciência - Procurei discernir a vontade de Deus? - Busquei fazer o bem com liberdade interior, ou fui guiado pelas aparências? - Respeitei a dignidade de cada pessoa, mesmo quem pensa diferente de mim? 4. Ato Penitencial Ato de Contrição – “Meu Deus, porque sois bom, pesa-me de Vos ter ofendido…” 5. Louvor e ação de graças Senhor, dou-Te graças e Te louvo pela vida que me dás, pelos caminhos que percorri, pelas pessoas que encontrei. Dá-me um coração sereno, agradecido e cheio de esperança. Ámen 6. Consagração a Nossa Senhora, em comunhão com a Igreja diocesana. “Ó Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe! (…) Mãe de Misericórdia e de carinho, muitas vezes experimentamos a tua ternura. (…) Queremos agradecer-Te: Por seres nossa guia e companheira, por peregrinares connosco, pela escuta das nossas preces, pela força que sempre nos deste. (…) Pede ao Pai que acolha junto de Si todos quantos nos antecederam. Somos reconhecidos e gratos para com todos. (…) Obtém-nos do Espírito de Deus luz e força para continuarmos a servir. (…) Concede alento aos doentes e sofredores, dignidade aos pobres e necessitados. Providencia a paz para o mundo e faz que se calem as armas e cesse a guerra. (…) Acolhe esta oração de confiança e amor e leva-a ao Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Deus de vida, de amor e de paz, pelos séculos dos séculos. Ámen.” (Extratos da Consagração da diocese do Porto à Virgem Santa Maria, por D. Manuel Linda, em Fátima (20/9/2025)” 7. Salve Regina “Ninguém põe remendo novo em roupa velha e ninguém deita vinho novo em odres velhos…” (Lc 5, 6-9) (14/1/2026)

quarta-feira, janeiro 07, 2026

PAI...MÃE... AVÓ... AVÔ...GOSTO MUITO DE TI...

(Fotografia) Este ano, mais uma vez, por convite da paróquia de que é padroeiro, S. Nicolau veio ao Porto, em dezembro passado. Por causa da chuva, não chegou de barco nem foi à Alfândega, mas, acompanhado pelo pároco, acólitos e colaboradores do Centro Social, foi visitar escolas do Centro Histórico. Perdeu-se em solenidade o que se ganhou em intimidade. Acolhido em festa pelas crianças, S. Nicolau disse-lhes que estava muito feliz com os seus sorrisos. Recordou as risadas da sua infância. E convidou-as a acompanhá-lo numa gargalhada…. “Quem ri assim é o Pai Natal”. Disseram. E ele explicou-lhes: - “Não sou o Pai Natal, mas estou na sua origem. Sou muito mais velhinho. Fui bispo em Mira, na Turquia no século IV, já lá vão muitos e muitos anos. No século passado, na América, substituíram a ’mitra’ que trago na cabeça, por um gorro, puseram-me umas barbas brancas e disseram que eu vinha do Polo Norte. Passei a fazer de ‘Pai Natal’, mas, no norte da Europa, continuo a ser ‘Santa Claus’. E, nos países do leste europeu, onde não há ‘pai natal’, sou eu quem anda a distribuir prendas.” De seguida, perguntou-lhes: - “Por que razão a vossa cidade está toda iluminada?” – “É Natal!”, gritaram em coro. - “No Natal festejamos o nascimento de Jesus”, continuou. “Meus pais, que eram muito ricos, ensinaram-me que quem dá aos pobres, empresta a Deus e que Jesus disse:’ O que fizerdes aos meus irmãos mais pequeninos, a mim o fazeis.’ Quando morreram, era eu ainda jovem, fiz o que me ensinaram. Distribuí a herança por quem mais precisava, a começar pelas crianças de quem muito gosto. Por isso, sou o seu ‘santo protetor’”. E deu um exemplo: “Havia, na minha terra, um negociante rico que acabou na miséria. E ficou sem dinheiro para dar um dote às três filhas que estavam para casar. Assim, elas corriam o risco de ser vendidas como escravas ou fazerem coisas más. Então, de noite, sem ninguém ver, atirei pela chaminé três moedas de ouro que caíram dentro dos sapatos das meninas. E o pai já pôde dar-lhes o dote e não ficou envergonhado. Assim, nasceu a tradição da chaminé e do sapatinho na Noite de Natal… “ - Qual é o nome da vossa cidade? - “Porto”, veio a resposta, bem gritada. - Sabeis porque se chama assim? As suas primeiras casas foram onde agora está a Sé. E chamava-se Cale. Muito tempo depois, os Romanos chamaram-lhe Portucale, até que passou a ser, apenas, Porto. Neste porto paravam barcos que traziam e levavam mercadorias do estrangeiro. Quem os conduzia eram os marinheiros e quem fazia negócio eram os comerciantes. No século XIII, os comerciantes e os marinheiros contruíram uma ermida na Ribeira em minha honra que sou o seu patrono. No século XVI, quando foi criada a paróquia (1583), passei a ser o seu padroeiro. No século XVIII, a capela sofreu um grande incêndio e a substituí-la foi construída a atual igreja de S. Nicolau.” - Vós sois estudantes? - perguntou. – Sim, com braços no ar… “Eu também sou o padroeiro dos estudantes. Por isso, em Guimarães, as festas dos estudantes são as ‘Nicolinas’. São em minha honra: Nicolau » Nicolinas. É que eu fui um bispo sábio e, faz agora 1700 anos, participei no Concílio de Niceia onde foi criado o Credo que rezais na Missa. “Creio em um só Deus…” E apontando para o saco que trazia, disse-lhes: “Tenho aqui uma prendinha para cada um de vós. No final, vai ser-vos entregue Mas, agora, vou dar-vos um abraço. É a prenda que vós, em meu nome, dareis aos vossos pais e avós na véspera de Natal, dizendo-lhes ao ouvido: ‘gosto muito de ti’. Um sorriso bailará no rosto de vossos pais e uma lágrima brilhará, feliz, nos olhos dos vossos avós… É o seu melhor presente. E foi no meio de abraços, com alguns empurrões à mistura que terminou este encontro que se continuou na semana seguinte… No ano passado, S. Nicolau percorreu a rua de Santa Catarina e o Mercado do Bolhão. Este ano, foi ao Centro Materno Infantil do Norte levar uma prendinha às crianças doentes e uma palavra de conforto aos familiares. Parabéns ao Centro Social da paróquia de S. Nicolau e ao P. Jardim, os grandes obreiros desta celebração que bem simboliza a ‘alma do Porto’. (7/1/2026)

quarta-feira, dezembro 17, 2025

NOSSA SENHORA - RAINHA DO ADVENTO

Bem cedo nasceu em mim o desejo de conhecer as origens da nossa matriz cultural, greco-romana e judaico-cristã. Foi, pois, com emoção que, no Jubileu, do ano 2000, visitei, na Terra Santa, os lugares matriciais do cristianismo a começar em Belém, passando por Nazaré e rio Jordão, e terminando em Jerusalém. Seguiu-se Roma e Atenas. No verão passado, chegou a vez de visitar a Jónia da antiga Grécia, berço da filosofia ocidental - Tales, Anaximandro e Anaxímenes, de Mileto; Heráclito, de Éfeso, Pitágoras, de Samos - e Creta onde “floresceu a cultura minoica, a primeira grande civilização da Europa.” No entanto, mais do que falar da Cultura Clássica, quero dar-vos nota dos locais que me transportaram para os tempos primordiais da nossa Fé. A Casa da Virgem Maria S. João diz-nos no seu Evangelho que Jesus, na cruz, lhe confiou Sua Mãe (Jo.19,27). Os ‘Atos dos Apóstolos’ narram as perseguições em Jerusalém, após a morte de Jesus: Santo Estevão morreu apedrejado (At, 7,59) e São Tiago Maior, irmão de S. João, foi decapitado (At 12,2). Entretanto, os Apóstolos dividiram o mundo para pregar o Evangelho. A S. João foi atribuída a Ásia Menor, e, ele, para cumprir a ordem do Mestre, trouxe consigo a Virgem Maria para Éfeso, a terceira maior cidade romana, após Roma e Alexandria, onde fundou a primeira comunidade cristã da cidade. Temendo que a ‘Mãe’ corresse perigo, construiu, dentro dos bosques da montanha Bulbul, não longe da cidade, uma casa onde escondeu a Virgem Maria que, aqui, viveu e veio a morrer. Por isso, é conhecida como ‘Casa de Maria’. Também, nela viveu S. João até à sua morte, exceto enquanto esteve exilado em Patmos. É considerada local sagrado pelos cristãos (católicos e ortodoxos) e muçulmanos que veneram Maria (Meriyem Ana) como mãe do profeta Jesus. O Papa João XXIII declarou-a lugar de peregrinação. Em 1967, o papa Paulo VI visitou-a. Também aí estiveram João Paulo II, em 1979, e Bento XVI, em 2006. O Papa Francisco não chegou a visitá-la, mas, na sua viagem à Turquia em 2014, referiu-a como um sítio sagrado de grande significado para cristãos e muçulmanos. (Fotografia - A Casa da Virgem Maria, em Éfeso) A casa é uma pequena capela. A entrada faz-se por uma estreita porta abobadada. Na ábside, está uma estátua em bronze da Virgem Maria. Do lado direito, conserva-se um habitáculo que seria o dormitório da Virgem. II – A Gruta do Apocalipse “”Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na paciência por Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Num domingo, fui arrebatado em espírito e ouvi, por trás de mim, voz forte com trombeta que dizia: ‘O que vês escreve-o num livro e manda-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sardes, a Filadélfia e a Laodiceia.”(Ap 1,9) S. João, durante a segunda perseguição do Imperador Domiciano (95 d. C), foi desterrado para Patmos, uma ilha usada pelo Império Romano para exílio dos prisioneiros. Vivia numa das numerosas grutas que nela abundam e foi precisamente numa delas que recebeu a milagrosa Revelação Divina. ‘Dentro da cova, o Evangelista ouviu a mensagem e ditou-a ao seu discípulo Prócoro que a escreveu com mão trémula’. A gruta onde, segundo a tradição, esta Revelação aconteceu - “Gruta do Apocalipse” - converteu-se num local de peregrinação. A caverna, numa semipenumbra, abriga uma capela dedicada a Santa Ana, com vários ícones e turíbulos de incenso que lhe emprestam uma atmosfera mística e devocional. Aí, estão preservados os locais onde S. João apoiava a cabeça para dormir e a mão ao levantar-se. Merece especial atenção o ícone de S. João o Teólogo. Em 1999, foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO Dois lugares de peregrinação para os cristãos, um – Casa de Maria – entregue, desde a sua restauração em 1950, aos frades Capuchinhos; outro – Gruta do Apocalipse - a cargo Mosteiro de São João o Teólogo que, desde que foi criado em 1088, sempre foi habitado por monges ortodoxos. O mesmo Apóstolo, mas duas confissões cristãs. Qual o fundamento para esta divisão? Não, a grandeza de Deus; sim, a pequenez dos homens… Que os 1700 anos do Concílio de Niceia e a recente viagem do Papa Leão XIV, à Turquia, possam ajudar a esbater as barreiras que separam os discípulos que, no Natal, festejam o Menino e veneram Sua Mãe.(VP, 17/12/2025)

quarta-feira, dezembro 10, 2025

O PRESÉPIO SOMOS NÓS...

‘A Vida em Nós’, de Tolentino Mendonça, é um jardim de esperança que nos perfuma a alma. Porque seriam pobres as minhas palavras, limito-me, neste Natal, a oferecer-vos um ramalhete com uma flor de cada um dos seus canteiros. . Amor – “Podemos alardear este ou aquele interesse, mas o amor verdadeiro precisa de ser amadurecido no silêncio e na intimidade.” . Camões – “Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia.” . Chorar – “As lágrimas correm de dentro para fora do nosso corpo, mas exprimem a mais recôndita e intensa interioridade.” . Cristianismo – “Uma Igreja maníaca da organização e da ordem, obcecada pelo regime da pureza, distancia as pessoas. Torna-se um lugar de cerimónia, estático e correto como um museu, mas deixa de ser um território de celebração da vida, atravessado pelo quotidiano, pela turbulência e pelas suas pegadas. Fica sequestrada pelo formalismo e pelo zelo em vez da misericórdia e da alegria.” Dificuldade – “Um dos caminhos necessários para alegria é a aprendizagem da dor. Não sabemos lidar com ela. Seria preciso, talvez, começar por ver a dor não como um obstáculo, mas como um caminho.” . Esperança – “A nossa existência é, do princípio ao fim, o resultado de uma aprendizagem da esperança, e só ela é capaz de dialogar com o futuro e de o aproximar.” . Família – “A nossa cultura tem praticado, talvez com razões, mas certamente sem razão, uma demolição sistemática da figura do pai, deixando em nós um vazio que nada consegue colmatar. A figura do pai precisa, por isso, de ser recuperada. (…) A coisa no mundo mais parecida com os olhos de Deus são os olhos de uma mãe.” . Fé – “A fé é uma história de fidelidade que se constrói, não é o mero entusiasmo de um momento.” . Felicidade e alegria – “Tantas coisas seriam diferentes se cada pessoa pudesse habitar, por pouco que fosse, a morada do seu coração.” . Imperfeição – “Às vezes parece que a nossa existência acaba nos nossos sapatos, que é a única coisa que vemos quando se tem a cabeça virada para baixo.” . Natal – “O presépio somos nós. É dentro de nós que Jesus nasce.” . Outros – “O tempo é albergar, é hospedar na nossa vida uma respiração que é maior do que nós. Saber que há um passado maior do que nós, que há um presente, que é o nosso, e que há um futuro.” . Perdão – “O perdão não é o esquecimento. Muitas vezes confundimos as duas coisas e dizemos: ‘Ah, não consigo esquecer’, como se isso significasse necessariamente ‘não consigo perdoar’. Não, uma coisa é o perdão, outra o esquecimento. Até porque há factos impossíveis de esquecer. Tal não depende, em absoluto, de alguma coisa que possamos fazer. Há ofensas que deixam marcas tão inalteráveis que não conseguimos esquecer, ainda que quiséssemos (…) A questão deve, antes, colocar-se assim: ‘Consigo perdoar uma ofensa que nunca mais vou esquecer?’” . Poesia e literatura – “Uma palavra não é apenas uma palavra: ela é sedimentação de experiência vital, evocação da memória, ponte entre presente e futuro.” . Portugal – “Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele.” . Rezar – “Não há oração vital sem um eu diante de um tu.” . Silêncio – “Os nossos sentidos espirituais abrem-se e maturam melhor no silêncio.” . Simplicidade – “A nossa vida é um instante em aberto. Somos chamados a cultivá-la, sim, com a paciente humildade que um jardineiro reserva para o seu jardim.” . Solidão – “A amizade precisa de solidão e de intimidade, e é um acordo silêncioso entre almas.” . . Tempo – “De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão acumulando.” . Velhice – “A velhice é um laboratório de vida presente e não só passada, uma escola onde se aprofunda o significado da esperança e do amor.” . Ver, olhar. Escutar, ouvir – “A contemplação é arte de nos aproximarmos de nós próprios.” . Vida – “Nós não temos apenas âncoras, temos também asas.” Amigo, se estes aromas o deliciaram, não fique à porta, entre no jardim… É uma boa prenda de Natal…(10/12/2025)

terça-feira, dezembro 02, 2025

QUARENTA E CINCO ANOS SÃO PASSADOS...

Foi no dia 4 de dezembro de 1980… No passado dia 10, o JN publicou um artigo de Maria Cândida Almeida, Ex-diretora do DCIAP, sob o título interrogativo “O herdeiro de Sá Carneiro?”, de que, com vénia, me faço eco. Informa: - “Durante um almoço-debate, esta semana, André Ventura afirmou querer ser o ‘herdeiro de Sá Carneiro’… “ Afirma: - “Se esse é o seu desígnio, o seu projeto político de vida, então terá de rever o seu comportamento e a prática do seu partido, no que refere à verdade, à honestidade e ao rigor com que interagem com os cidadãos, residentes, estrangeiros e apátridas que vivem em Portugal.” Contrasta: - “Sá Carneiro era um democrata. Não era racista, nem xenófobo. É recordado pela sua frontalidade e verdade com que abordava e discutia os principais problemas do país. Era um Senhor.” Conclui: - (…) “Estas são apenas algumas deturpações da verdade insistentes nos discursos de André Ventura, que o afastam e opõem à figura política incontornável que foi Sá Carneiro.” Em favor deste perfil do Dr. Francisco Sá Carneiro, lembro, no 45.º aniversário da sua morte, o que, em 2014, escrevi em ‘Nos Alvores da Obra Diocesana:’ - Humanista cristão: “Muitos foram os voluntários que trabalharam na Obra. (…) Quero demorar-me um pouco a falar de Francisco Sá Carneiro. Independentemente das opções políticas de cada um, certamente, estamos de acordo que foi o cidadão do Porto de maior relevo na história política portuguesa do século XX. Porém, não é o estadista que me interessa neste momento, mas o humanista e o cristão que muito contribuiu para o regresso de D. António Ferreira Gomes do seu longo exílio.” De seguida, enumero alguns factos que presenciei ao longo de vários anos de assídua convivência. - Convite para a direção: “Quando em 1970, por mandato de D. António, fui ao seu escritório, na rua da Picaria, convidá-lo, “agradeceu a confiança, mas declinou o convite porque não queria criar situações difíceis a D. António. Explicou, então, que ia apresentar na Assembleia Nacional uma proposta de alteração à lei que impedia o divórcio civil a quem cassasse catolicamente. Sabia que essa proposta iria provocar forte reacção nos meios mais conservadores da Igreja e seria malvista por grande parte do episcopado.” Após conversar com D. António, telefonei-lhe a dizer que o senhor Bispo aceitava correr esse risco e “ele imediatamente aceitou.” - Nas reuniões semanais de 4.ª feira à noite: “Normalmente, antes das reuniões, relatava os acontecimentos mais relevantes da política portuguesa. Certo dia, vinha desapontado com o rumo que a ‘primavera marcelista’, em que acreditara, estava a seguir. Tinha ido com uma comissão de deputados falar sobre a situação dos ‘presos políticos’ com o Ministro do Interior, creio, Gonçalves Rapazote que, como ele era advogado. Ao iniciar a conversa, começou por dizer-lhe. ‘O senhor ministro como ‘homem do direito’, mas este logo o interrompeu dizendo: Senhor deputado, o senhor está a falar com o Ministro; o ‘homem do direito’ ficou lá fora.” - Esboço dum ‘Senhor’: “A sua presença nas reuniões era prestimosa, não só pela visão humanista da vida com forte influência personalista e a correspondente defesa dos valores humanos, mas também pelo rigor lógico das suas análises. Mas era particularmente importante nas reuniões que a direção tinha com os responsáveis camarários onde sobressaía a sua força argumentativa. Não eram tempos fáceis… Numa figura franzina e apequenada, escondia-se a robustez de um carácter que não recuava perante nada nem ninguém. ‘Homem de antes quebrar que torcer’, defendia até à exaustão aquilo em que acreditava. De trato cortês, mas reservado, mantinha um perfeito domínio sobre as suas emoções. “ - Em conclusão… “O Porto honra-se de ter estado em todos os grandes momentos que marcaram a história de Portugal. Esteve nas raízes da nacionalidade, dando-lhe nome e contribuindo para a conquista de Lisboa; nas lutas pela Independência com o apoio ao Mestre de Avis; na empresa dos Descobrimentos, com o Infante D. Henrique; na monarquia liberal com a revolução de 24 de Agosto de 1820 e o Cerco do Porto; na implantação da República com a revolta de 31 de Janeiro de 1891. No derrube do Estado Novo e na implantação do regime democrático, o Porto pode orgulhar-se de ter Sá Carneiro como seu grande representante.” (página 52) Há apropriações e evocações que me ferem a memória e ressoam a profanação. (3/12/2025)