O Tanoeiro da Ribeira

terça-feira, abril 14, 2026

A SUA TERNURA E O SEU SORRISO AINDA NOS AQUECEM O CORAÇÃO - I

Um ano é passado sobre o fim do seu peregrinar… “Uma autobiografia não é a nossa literatura privada, é mais o nosso saco de viagem.” (página 9) Esperança é um bálsamo para a alma. Lê-la, é mergulhar no âmago duma personalidade poliédrica que nos encanta pela ternura dos gestos, simplicidade no estar e clareza na palavra, por vezes, colorida por um humor espontâneo que nos faz sorrir. Vejamos… ‘Uma Igreja cada vez mais mãe’’ “Sonho com uma Igreja cada vez mais mãe e pastora, cujos ministros saibam ser misericordiosos, cuidar das pessoas, acompanhando-as como um bom samaritano. Deus é maior do que o pecado, sempre. O Evangelho é isto.” (p.210) ‘A Igreja é mulher’ “Nós, clérigos, somos homens, mas nós não somos a Igreja. A Igreja é mulher porque esposa. E é o santo povo fiel de Deus, homens e mulheres em conjunto. Por isso, identificar critérios e modos novos para que as mulheres sejam cada vez mais plenamente participantes e protagonistas nos vários âmbitos da vida social e eclesial, para que a sua voz tenha cada vez mais peso e a sua autoridade seja cada vez mais reconhecida, é um desafio cada vez mais urgente. Devemos avançar. Neste momento, a secretária-geral do Governatorato do Vaticano é uma mulher.” (p. 216) Peripécias aquando da sua eleição - O nome Francisco “Enquanto os cardeais ainda aplaudiam, o cardeal Hummes (…) levantou-se e veio abraçar-me: ‘Não te esqueças dos pobres’, disse-me ele. A sua frase marcou-me, senti-a na carne. Foi então que surgiu o nome Francisco.” - A escolha da ‘vestidura’: . O anel - “Tinha no dedo o anel de cardeal e tirei-o, mas tinha no bolso o anel de da ordenação episcopal e pus esse. Quiseram dar-me outro: ‘Não, não, tenho este., obrigado’ . A cruz peitoral - “Propuseram-me uma bela cruz, em ouro, e disse: ‘Tenho aquela de alpaca da ordenação episcopal, trago-a há vinte anos’. . Os sapatos – “Os sapatos vermelhos? Não, os meus são ortopédicos. Tenho um pouco os pés chatos.” . A capa – “Não quis a capa de veludo nem o carretel de linho… Não eram para mim.” . As calças: “Disseram-me que deveria mudar as calças, vestir umas brancas. Fizeram-me sorris. Disse: ‘Não me agrada fazer de vendedor de gelados’ E mantive as minhas” .- O tropeção – “Depois da investidura, saí e fui de imediato ter com o cardeal Ivan Dias, que estava numa cadeira de rodas e , talvez por ainda não ter confiança com as novas vestes, tropecei num degrau. O meu primeiro ato de papa… Foi um tropeção. Mas não caí. Abracei-o.” .- O cumprimento dos cardeais – “Depois, regressei, sem nunca me sentar no trono preparado diante do altar. João Paulo II também o fizera: permaneci de pé´, para abraçar cada um dos cardeais. É algo de medieval que alguém se ajoelhe diante de ti e te beije a mão. Em vez disso, foi uma coisa simples entre irmãos.” .- O transporte – “Regressado da varanda depois da bênção, desci com os cardeais e. lá em baixo, estava uma limusina toda iluminada que me esperava. Mas disse tranquilamente. ‘Não, não, eu vou com os cardeais’. Apanhámos o pequeno autocarro todos juntos e regressámos a Santa Marta. E nunca mais vi aquela limusina.” -- O brinde – “Em Santa Marta, jantámos todos juntos e, no fim da refeição, o cardeal Becciu, aproximou-se de mim: ”O papa deve fazer um brinde…’ Está bem’ , sorri e levantei o copo: ‘Que Deus vos perdoe!’, disse eu.” .- A residência – “Levaram-me a tomar posse do apartamento pontifício (...) E uma vez aí, com o padre Georg, disse-lhe de imediato: “Eu aqui não fico.” (…) Por acaso, uma vez regressado a Santa Marta, vi que estavam a limpar um quarto. (…) E pensei de imediato: ‘Este é o meu’,” .- O ritual das exéquias – “Quando acontecer, não serei sepultado em S. Pedro, mas em Santa Maria Maior: o Vaticano é a casa do meu último serviço, não o da eternidade. (…) Falei com o mestre de cerimónias para aligeirar: nada de estrado, nenhuma cerimónia para o encerramento do caixão, nem a colocação da urna de cipreste dentro de uma segunda urna de chumbo e, depois, numa terceira de carvalho. Com dignidade, mas como qualquer cristão”. (p. 236) E a sua peregrinação terminou no dia a seguir ao Domingo de Páscoa – a sua última aparição pública - no Ano Jubilar de 2025 - “Peregrinos da Esperança’. Coincidências?... Sinais?... (15/4/2026)

quarta-feira, abril 01, 2026

ENTRE O CÉU E A TERRA… – II

Em continuação… No último dia do ano, fomos percorrer a Via Sacra do Calvário Húngaro. Numa manhã linda que me fez lembrar o encontro de Melquisedec, ‘sacerdote do Deus Altíssimo’ - O Deus da Criação - com Abraão, a quem Javé se manifestara – O Deus da Revelação (Gn 14, 17) O Deus da Criação estava no esplendor do amanhecer. O sol revia-se, suave, nas gotículas de orvalho e os passarinhos cantavam loas ao Criador. O Deus da Revelação estava ali bem perto naquele condenado à morte na cruz (1.ª Estação): “No princípio era a Palavra… E a Palavra era Deus… E a Palavra fez-se carne e estabeleceu a tenda entre nós” (Jo 1, 1-18) Lembrei, então, os muitos amigos que, em tempos idos, percorreram comigo esta Via Sacra, a maioria dos quais já está junto do Pai. E foi com eles no coração – quantos nomes e quantos rostos – que procurámos encarnar na nossa vida a contemplação dos ‘Passos do Senhor’. Apenas algumas reflexões… Na 4 estação, demos conta que o encontro de Jesus com a Mãe foi o seu primeiro momento de ternura e alívio. As mães são sempre as primeiras…. Demos graças pelas nossas e pelas mães do mundo inteiro. E pensámos na dor das mães do Sudão, de Gaza e da Ucrânia… Na 5.ª estação, lembrámos os cireneus que nos ajudaram a carregar as nossas cruzes. Como é bom, nessas horas, sentir a mão de alguém…Rezámos por quem se dedica a aliviar as dores alheias. E pela nossa mente, passaram, entre outros, os doentes, os sem-abrigo, os presos, os idosos solitários, os imigrantes e os refugiados… Na 6.ª estação, ao ver os traços do rosto de Jesus no lenço de Verónica, demos graças por todos os que marcaram a nossa vida, com relevo para os professores. - E nós, que sinais deixamos? Bons? Maus? Por uns, demos graças; pelos outros, pedimos perdão. Na 8.ª estação, rezámos pelos cristãos da ‘Igreja que sofre’, pelos missionários e pelos colaboradores das ONGs que se dedicam a levar consolo às populações em sofrimento, especial em situações de fome e de guerra. Na 12.ª estação, ao ouvirmos ‘Tudo está consumado’ (Jo. 19,30), pedimos forças para vermos, na doença que nos entrou em casa, o que falta à paixão de Jesus (Col 1, 24). Nas duas últimas estações, dissemos: - ‘Ó Jesus, tua Mãe acolheu-Te em seu regaço. Já não teremos essa sorte… Um de nós, ainda poderá contar com o braço do outro… E aquele que ficar na dor da ausência?... Sim. Nós sabemos e agradecemos-Te os que nos irão acolher... E foi de mãos dadas e coração enternecido que rezámos o Pai Nosso, com uma breve pausa em ‘Seja feita a vossa vontade.’… De tarde, satisfazendo a intenção formulada na 6.ª estação da Via Sacra, fomos visitar D. Serafim Ferreira e Silva, bispo Emérito de Leiria-Fátima, meu professor de teologia, o único na Igreja peregrina. E foi um amigo sorridente que nos acolheu, sempre atento aos pequenos pormenores da gentileza. Quando me levantei para o cumprimentar, disse-me: - Espera aí, primeiro esta princesa que continua bonita. E dirigiu-se à minha esposa que, devido a debilidades físicas, permanecia sentada, a quem saudou com um beijo. Depois, veio um abraço caloroso para mim. A mesma proximidade e o mesmo carinho que nos cativou. Começámos por falar da Via Sacra e da Voz Portucalense de que foi ilustre diretor. Recordei que, então e a seu pedido, íamos, ao sábado, entregar a VP a várias paróquias. Foi uma conversa longa pejada de referências à família, com fotografias dos netos à mistura. Ficamos de alma cheia. Que bom é ter professores assim… Felizes, a caminho do hotel passámos pela capelinha das Aparições para agradecer esta dádiva de final de ano. A nossa peregrinação terminou na Eucaristia das 11h00 do dia 1 de janeiro, na basílica da Santíssima Trindade, em que louvámos a Virgem Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Homens. “Então Jesus ao ver a Mãe e, próximo, o discípulo que amava, disse à Mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. Depois, disse ao discípulo: ’Eis a tua Mãe’. E, a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a entre os seus.” (Jo 19, 26) (Fotografia – capa do CD ‘Ecce Mater Tua’, do Coro Gregoriano do Porto) Termino com o conselho de Zorbás: “Se pegares numa lupa para veres a água que bebemos, encontras a água cheia de bichinhos muito pequeninos, que não se veem à vista desarmada. E depois de veres s bichinhos, já não bebes. Não bebes e morres à sede. Quebra a lupa, quebra a maldita lupa, os bichinhos desaparecem e bebes a água que te mata a sede!” Nikos Kazantzakis, A vida e andanças de Alexis Zorbás, pág. 159 - 1/4/2026)

terça-feira, março 24, 2026

ENTRE O CÉU E A TERRA…- I

Remonta aos tempos de estudante, o costume de terminar o ano com um dia de oração, quando eu e meu primo Manuel Joaquim íamos a Sobrado confessar-nos ao P. Agostinho Freitas, nosso diretor espiritual, nas férias. E, mais tarde, ganhou corpo na Eucaristia da meia noite, na ‘Passagem de Ano’. de que lembro a de 1967- 68 que foi presidida por D. Florentino, na recém-inaugurada (1/11/1966) capela do bairro do Cerco do Porto. O final do ano passado foi em Fátima com minha esposa. A peregrinação começou, no dia 30, ainda no quarto do hotel, ao ler o desdobrável que me foi entregue no momento do ‘check in’: “A 13 de maio de 1917, três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria. Chamavam-se Lúcia de Jesus, de 10 anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus primos, de 9 e 7 anos. Por volta do meio dia, depois de rezarem o terço, como habitualmente faziam, entretinham-se a construir uma paredita de pedras soltas, no local onde hoje se encontra a Basílica (de Nossa Senhora do Rosário). De repente, viram uma luz brilhante, julgando ser um relâmpago, decidiram ir-se embora, mas, logo abaixo, outro relâmpago iluminou o espaço e viram em cima de uma pequena azinheira (onde agora se encontra a Capelinha das Aparições) uma Senhora mais brilhante que o Sol, de cujas mãos pendia um terço.” Quando aqui venho, procuro revestir-me da fé de minha mãe, desarmado de formulações teológicas. Basta-me a palavra do Magistério da Igreja para aceitar Fátima como um fenómeno que, embora não sendo dogma, é digno de crédito. E lembro que os últimos papas reforçaram com a sua presença a autenticidade da sua mensagem, a começar em João XXIII que, em “1956, então cardeal Roncalli, Patriarca de Veneza, presidiu às cerimónias da peregrinação aniversária”; em 1967, Paulo VI, deslocou-se a Fátima no cinquentenário da 1.ª Aparição; em 10 de julho de 1977, o futuro papa João Paulo I, Cardeal Luciani, Patriarca de Veneza, esteve aqui em peregrinação; João Paulo II rezou três vezes em Fátima (13/5/1982, 13/5/1991 e 12-13 / 2000); Bento XVI visitou Fátima em 12-13 de maio de 2010; Francisco esteve no centenário das Aparições - canonização de Francisco e Jacinta (12-13/5/2017) e aquando da Jornada Mundial da Juventude (5/8/2023). E o Papa Leão XIV, em novembro passado já manifestou o desejo de visitar Fátima. Munido destes sentimentos, descemos à Capela da Reconciliação para um momento de silêncio, introspeção e perdão. Uma ação, como alguém diz por graça, de lavagem, revisão, e recauchutagem’… Depois, sentei-me no murete do recinto e solidarizei-me com três rapazes que, de joelhos, desciam para a Capelinha. E, especialmente, com uma jovem, também de joelhos, com uma criancita ao colo. Por grande sofrimento passaram e grande alegria tiveram, pensei… Às 18h30, na capelinha das Aparições, senti a presença de irmãos de outras culturas e línguas que partilhavam comigo a oração do Terço. Se na capela da Reconciliação, mergulhei na minha intimidade, aqui vivenciei a universalidade do ser católico. Fotografia . Capelinha das Aparições Após o jantar, na semi-escuridão dum recinto vazio, revisitei o meu passado e recordei as peregrinações, organizadas pelo senhor Castro, em que participei, na década de setenta. Eram, no mínimo, dez autocarros. Na viagem, rezávamos três terços em simultâneo em todas as camionetas para vincar o caráter comunitário da peregrinação. Quando faltavam cinco quilómetros, quem podia era convidado a fazer o restante percurso a pé e em silêncio meditativo. Juntávamo-nos na ‘Cruz Alta’ e descíamos em oração silenciosa até à ‘Capelinha’. Depois, os peregrinos ficavam livres para as suas devoções pessoais. No domingo, reuníamos, bem cedo, no início da Via Sacra do Calvário Húngaro que percorríamos, em silêncio orante apenas entrecortado, em cada ‘estação’ pela reflexão, pela oração coletiva e cânticos penitenciais. Nos Valinhos, venerávamos Nossa Senhora que aí apareceu (19/8/1917). E terminava na capela do Calvário. A Via Sacra era o momento culminante da nossa vivência comunitária. De seguida, descíamos até à ‘Loca do Cabeço’ onde os pastorinhos receberam a primeira e a terceira visita do ‘Anjo da Paz’ (primavera e outono de 1916) e descíamos para o ‘Poço’ ao fundo do quintal da casa da Lúcia onde o Anjo apareceu, no verão de 1916. A partir daqui, cada um organizava o seu tempo, de modo a poder participar na Eucaristia do santuário. Após este breve roteiro pela memória, fomos descansar que outro dia nos esperava…(25/3/2026)

segunda-feira, março 16, 2026

PATRONO UNIVERSAL DA IGREJA - COM O CORAÇÃO DE PAI

Em janeiro passado, recebi o livro ‘São Francisco e a sua capela’ com a dedicatória: ‘Ao velho amigo de longa data…’. Mais um trabalho do P. Justino Lopes dedicado ao património artístico das suas paróquias, na esteira de: ‘Igreja Museu’, ‘A Genealogia de Jesus na igreja de Vila Nova de Paiva’, ‘A Paixão na arte das igrejas de Fráguas e Vila Nova de Paiva’, ‘Páscoa na arte da igreja paroquial de Fráguas e Vila Nova de Paiva’. Conhecemo-nos em Estrasburgo, no ‘Colóquio Europeu de Paróquias’ de 1971. Já lá vão uns anitos… A ‘Nota Explicativa’ (pág. 3), começa por citar duas pessoas de quem conservo gratas memórias; cónego Rafael que conheci no Colóquio de Estrasburgo e visitei em Lamego; P. Brochado com quem partilhei preocupações sociais na cidade do Porto. “O Dr. António José Rafael, meu professor de Pastoral e, depois, Bispo de Bragança, exortava-nos a ler e a estudar a arte das nossas igrejas e ensinar, também, o Povo a ler, a compreender e a admirar. Só assim as defenderão, estimarão e ajudarão no seu restauro.” “Monsenhor Alexandrino Brochado, que foi reitor da capela das Almas do Porto e exímio escritor da arte dos edifícios religiosos artísticos da mesma cidade, ao ler o livro ‘Igreja Museu’ escreveu na ‘Voz Portucalense’: “Ao terminar a leitura (…) pensei que, nesta área, o clero poderia construir uma obra admirável, para permanecer, para ficar. “ E termina: “Seguindo os conselhos dos mestres, vamos agora ler e refletir a mensagem que a arte, juntamente com as imagens nos transmitem”, na capela de São Francisco, agora restaurada. Ao deliciar-me com as suas páginas, vi uma fotografia e li um comentário (pág. 41 - 42) de que, na Festa de São José, com vénia, me faço eco: “Segundo um dos livros apócrifos, o Sumo Sacerdote convocou os homens solteiros da descendência de David, para saber qual deles Deus escolheria para esposo de Maria e Pai do Messias. Cada um trazia um cajado como era costume naquela época. E Deus manifestou a Sua escolha, fazendo florir uma bela açucena, na vara de José. Sinal de que fora ele o escolhido. É esta a razão dos santeiros porque, ao esculpirem a imagem de São José, lhe colocam, na mão, uma vara terminando numa açucena. O Papa Francisco, em 2020, por ocasião do 150.º aniversário da declaração de São José como ‘PATRONO UNIVERSAL DA IGREJA’, escreveu uma carta Apostólica, ‘PATRIS CORDE’, ‘Com o coração de pai’ que aconselho a ler: Mas quem era São José? O que é que ele disse? O que ensinou? Os Evangelhos não registam as palavras que ele pronunciou porque ele não era mudo, mas registou as suas ações: - Estava desposado com Maria. (Mateus, 1,18) - Era um homem Justo. (Mateus, 1,9) - Cumpria a vontade de Deus. (Lucas, 2,22 e 27) - Vivia do seu trabalho de carpinteiro. (Mateus 13,55) Deus falou-lhe por meio de visões. Mateus diz sonhos. (Mateus, 20;2,13;19,22). O que dizem os Evangelhos? - José era da descendência da família real de David: “Jacob gerou José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus chamado Cristo. (Mateus, 1,16) - Aceitou a explicação do Anjo: ‘Não receeis receber Maria como tua esposa pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo.’ (Mateus 1,18-19) - Foram os dois recensear-se a Belém onde nasceu Jesus. (Lucas2,1-7) - Fugiu com Maria e o menino para o Egito por causa da perseguição de Herodes. (Mateus, 2, 13-14) - Quando o menino chegou aos 12 anos, José e Maria acompanharam-no a Jerusalém para a festa Bar Mitzava, Festa do Mandamento e Ele ficou por lá. (Lucas, 2,41-49) - Jesus obedecia-lhe sempre. ‘Voltando para Nazaré era-lhes obediente.’ (Lucas 2,51) - José era carpinteiro. ‘Não é ele filho do carpinteiro?’ (Mateus, 13,55) A Liturgia celebra duas festas a São José: 19 de março, modelo de pai e protetor da família e, no dia primeiro de Maio, São José operário, como protetor dos operários. São José é o Patrono da Igreja, Guarda da família e Advogado da boa morte. Com o Papa Francisco, rezemos a São José: “Salve, guardião do Redentor e esposo da Virgem Maria! A vós, Deus confiou o Seu Filho: Em vós, Maria depositou a sua confiança; Convosco, Cristo tornou-se homem. Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nós E guiai-nos no caminho da vida. Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem, e defendei-nos de todo o mal. Amem” Um bem-haja para o P. Justino e uma saudação especial a todos os que e chamam José, nome de raiz hebraica que significa ‘aquele a quem Javé (Deus) acrescenta’.(18/3/2026)

terça-feira, março 10, 2026

EM DIAS SOMBRIOS, A LUZ DA TEOLOGIA

Como ‘retaguarda teológica’, quero partilhar convosco o artigo ‘Uma teologia que devolve o Evangelho à vida’, assinado por José Carlos Enriqez Diaz e publicado, no dia 28 de dezembro, em Religión Digital, um portal de informação religiosa e atualidade da Igreja, de grande expansão, com tradução de M. Rocha Marques. O cerne da Fé cristã - “Num tempo marcado pelo desencanto religioso, o dogmatismo estéril e a rotura entre fé e experiência, a teologia de Andrés Torres Queiruga apresenta-se como uma das propostas mais lúcidas, valentes e evangélicas do pensamento cristão contemporâneo. O seu mérito não consiste em suavizar o cristianismo nem em dilui-lo em devaneios espirituais, mas em resgatar o seu núcleo mais radical: a experiência viva de um Deus que é amor incondicional e que se comunica permanentemente a toda a humanidade.” A Revelação na história / maiêutica histórica – “É também uma profunda defesa da paciência de Deus com a história humana. A Bíblia não é um livro estático, mas o testemunho de um longo caminho no qual a humanidade vai purificando a sua imagem do divino. Ao princípio, o ser humano projeta em Deus medos, violências e desejos de castigo. Mas a revelação avança quando estas projeções se rompem. O profeta Oseias exprime-o com força comovedora: ‘Meu coração comove-se dentro de mim… Porque sou Deus e não homem’ (Os.11,8-9). Aqui aparece um Deus que renuncia ao castigo, porque não pode deixar de amar. “ Um Deus-Papá – “Esta linha alcança a sua plenitude em Jesus de Nazaré, a quem Queiruga situa com rigor histórico e profundidade teológica. Jesus não inventa Deus, mas leva até ao extremo a melhor intuição da sua tradição. Ao chamar a Deus Abba, rompe definitivamente a imagem de um juiz distante e revela um Deus próximo, confiável e gratuito, que faz nascer o sol sobre bons e maus: ‘sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso’ (Lc 6, 36) condensa toda a revelação cristã.” O pluralismo religioso – “A coerência desta teologia desemboca naturalmente no pluralismo religioso. Se Deus é amor, não pode revelar-se só a uns poucos. Toda a religião é um lugar de encontro com Deus, embora nenhuma o esgote. Aqui, não relativiza o cristianismo, antes o universaliza: a sua verdade não consiste em excluir, mas em revelar que o amor e o perdão não têm fronteiras. O sentido da cruz – “Crer não é entender tudo, mas não estar só. Deus não nos livra «da» Cruz, mas livra-nos e salva-nos «na» Cruz, dando força para resistir, para não nos destruirmos, para continuar a viver inclusive quando a noite permanece interminável. Porventura aí, no meio do sofrimento real de tantas pessoas, esta teologia mostra a sua verdade mais funda. Deus não é quem obscurece o caminho, mas quem o percorre connosco. E talvez por isso crer não seja fechar os olhos nem negar a dor, mas atrever-se a confiar mesmo quando a luz ainda não se vê.” A luz da esperança – “A teologia de Andrés Torres Queiruga é imprescindível, porque não acrescenta peso ao sofrimento humano, antes o alivia com esperança e claridade. Num mundo em que tantas pessoas vivem feridas, culpabilizadas e cansadas de um Deus que parece exigir mais do que dá, o seu pensamento devolve ao cristianismo a sua verdade mais profunda. Deus não é quem fere, mas aquele que sustenta.” Por uma Fé adulta e encarnada – “No fundo, a teologia é uma chamada a uma fé adulta, responsável e incarnada. Não é uma fé de títulos, mas uma fé que se faz vida. Como Jesus em Mateus, Queiruga recorda que ‘por seus frutos os conhecereis’ (Mt. 7, 16). Quando a revelação se converte em experiência pessoal, deixa de ser ideologia religiosa e transforma-se em força libertadora, capaz de humanizar a história.” Em suma… “Em tempos de ruído religioso e silêncios culpáveis perante a injustiça, a teologia de Queiruga não só pensa Deus: defende-O, devolvendo-O ao lugar onde sempre quis estar - o coração vivo do ser humano.” (Uma teologia que devolve o Evangelho à vida’) E, no entanto… Quando abunda o farisaísmo, ressoa bem alto o lamento de Jesus: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías, acerca de vós, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o coração deles está longe de mim.; em vão me prestam culto, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. - Mt, 15,8” (11/3/2026)

quarta-feira, março 04, 2026

“QUANDO O EXTREMISMO ENTRA NA SALA DE AULA”

Esta era a ‘manchete que enchia a primeira página da revista Notícias Magazine (25/1/2026) O tema, sob o título “O ódio também vai à escola” desenvolve-se em quatro páginas interiores de que respiguei as citações que se seguem. A palavra autorizada e o lamento do presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima: “São cada vez mais os colegas que nos relatam situações constrangedoras. É claro que nós tentamos diminuir esse reflexo no nosso dia a dia, mas é uma luta desigual e a sociedade não tem colaborado”. Concretizando… - Cinfães Nívia Estevam, brasileira, mãe de José, 10 anos. “Em novembro, o filho chegou a casa com o pescoço roxo. Acabou por contar que uns colegas lhe tinham apertado o pescoço contra a parede, com os braços em T. Cinco dias depois, foi chamada à escola e disseram-lhe que, numa brincadeira, um colega apertou o dedo dele na porta da casa de banho. Mas quando lhe pediram que segurasse um saco com uma parte do dedo do filho para poderem ‘colocar de volta’, congelou. José tinha tido dois dedos amputados. Como desesperada ficou quando, já no hospital de São João, o menino lhe disse que os colegas o impediram de sair e procurar ajuda. O filho é negro e era o único da turma que falava português do Brasil.” - Almada J., imigrante do Bangladesh “Já vive em Portugal há dez anos. Sente uma hostilidade crescente. Há pouco tempo, foi a um café e uma funcionária disse-lhe na cara: ‘Vai para a tua terra.’. O pior é sentir que o filho não é bem acolhido no jardim de infância. O pior é ir dar com ele a brincar sozinho. Quando as empregadas fazem grupos, nas atividades, ele é sempre o último a ser escolhido.” - Alentejo. M. alentejana de etnia cigana, mãe de duas meninas de 12 e 16 anos. “A filha mais velha que o diga. Piadas sempre houve, mas de há três ou quatro anos para cá ‘tem piorado’. Um colega disse-lhe: “Os meus pais dizem que a gente nem deve acompanhar ciganos, são todos a mesma m… ‘. Irritada, a filha tentou despachar a conversa. Mas não conseguiu. ‘Passaram o dia todo a gritar nos ouvidos: ‘são todos a mesma m…’, não valem nada’, só querem a mama do Estado’ Até com um casaco implicaram. ‘É de marca, foi roubado.’ - Setúbal A. Professor do Ensino Básico e Secundário “Os miúdos maltratam colegas mais fracos ou de outras nacionalidades. Destratam ciganos e negros, gritam ‘Portugal aos portugueses’, fazem provocações a um colega imigrante de um canto da sala para o outro.” - Lisboa M., Professora do 1.º Ciclo “Já temos miúdos a reproduzir aquilo que ouvem aos pais dizer em casa. ‘Volta para a tua terra’, ‘preto da Amadora’, ‘isto não é o Bangladesh’” - Daniela Ferreira, Investigadora da FPCEUP) “Temos tido várias escolas que relatam um aumento de conflitos disciplinares e das situações de violência, sobretudo verbal. Há um crescente número de situações de racismo e de xenofobia. Frases como ‘isto não é o Bangladesh’ e ‘os ciganos têm de cumprira lei’ estão a ser reproduzidas pelos miúdos, mesmo sem perceberem o que estão a dizer. É fruto do contexto cívico e político em que vivemos. O discurso que trazem de casa é o que vão reproduzir.” - Que fazer? Fábio Botelho Guedes, psicólogo do projeto ‘Aventura Social’, aconselha: “Falar abertamente sobre questões, fomentar relações interpessoais saudáveis, promover as competências socioeconómicas e a saúde psicológica, incentivar o envolvimento nas decisões”. E eu interrogo-me: “Em que mundo queremos viver? Que mundo estamos a criar? Em contraste... “Imigrantes dão lucro de três mil milhões à Segurança Social. Valor das contribuições é cinco vezes superior ao atribuído em apoios sociais. Um terço dos impostos é pago por brasileiros, seguindo-se indianos e angolanos.” (JN, 1/2/2026) (VP, 4/3/2026)

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Em tempo de roturas ameaçadores – a denúncia profética

A - “EUA com enorme frota a caminho do Irão – ‘Temos a Marinha. Temos uma enorme frota a ir nessa direção’, frisou Donald Trump.” (JN, 24/1/2026) Esta ameaça belicista do Presidente Americano fez-me lembrar a ‘declaração inédita sobre (i)moralidade da política de Trump’ feita pelos arcebispos de Chicago, de Washington, e de Newark. “uma rara repreensão direta a um presidente dos EUA” por parte da hierarquia católica”. (7Margens, 19/1/2026) de que respiguei: “Avaliando a política externa dos EUA à luz dos princípios estabelecidos por Leão XIV (…) os três cardeais recordam concretamente o alerta que ele fez em relação ao ressurgimento de um “zelo pela guerra”. Afirmam que “os direitos soberanos das nações à autodeterminação parecem extremamente frágeis num mundo de conflitos cada vez maiores” e que “o equilíbrio entre o interesse nacional e o bem comum está a ser definido em termos extremamente polarizados”. - “Como pastores encarregados do ensinamento do nosso povo, não podemos ficar de braços cruzados enquanto decisões são tomadas que condenam milhões a vidas aprisionadas permanentemente à beira da existência. O Papa Leão XIV deu-nos uma direção clara e devemos aplicar os seus ensinamentos à conduta da nossa nação e dos seus líderes.” - “Os eventos recentes convenceram-me da necessidade de ressaltar a visão do Papa Leão XIV de relações justas e pacíficas entre as nações. Caso contrário, a escalada das ameaças e dos conflitos armados corre o risco de destruir as relações internacionais e mergulhar o mundo em sofrimento incalculável.” - “O ensinamento social católico testemunha que o interesse nacional, concebido de forma restrita, exclui o imperativo moral da solidariedade entre as nações e a dignidade da pessoa humana, traz imenso sofrimento ao mundo e um ataque catastrófico à paz justa.” B - “Liam Ramos, de cinco anos, foi detido anteontem, no Minnesota, pelos Serviços de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) à porta de casa, quando regressava da escola. A operação tinha como objetivo prender o pai do menino.” (JN, 23/1/2026). Esta notícia fez-me evocar o mesmo número do 7Margens em que a Amnistia Internacional denuncia “Práticas autoritárias estão a corroer direitos humanos”. “O relatório, enviado ao 7MARGENS, identifica doze áreas interligadas nas quais o governo Trump está a abalar os pilares de uma sociedade livre, incluindo ataques à liberdade de imprensa e ao acesso à informação, à liberdade de expressão e de reunião pacífica, às organizações da sociedade civil e às universidades, aos opositores políticos e críticos, aos juízes, advogados e ao sistema jurídico, e ao devido processo legal. O relatório também documenta ataques aos direitos dos refugiados e migrantes; a culpabilização de comunidades e o retrocesso nas proteções contra a discriminação; o uso das forças armadas para fins domésticos; o desmantelamento da responsabilidade corporativa e das medidas anticorrupção; a expansão da vigilância sem supervisão significativa e os esforços para minar os sistemas internacionais destinados a proteger os direitos humanos. Como detalhado no documento, essas táticas autoritárias reforçam-se mutuamente: “estudantes são presos e detidos por protestarem em campus universitários, comunidades inteiras estão a ser inundadas e aterrorizadas por agentes mascarados do ICE, e a militarização das cidades nos EUA está a tornar-se normalizada”. “Podemos e devemos trilhar um caminho diferente”, afirma Paul O’Brien, diretor executivo da Amnistia Internacional EUA, citado no relatório. “As práticas autoritárias só se enraízam quando se permite que se normalizem. Não podemos deixar que isso aconteça.” O autoritarismo extremista de Trump cavalga uma onda de populismo que, entre nós, já envenena a mente das crianças: “O ódio também vai à escola. Crianças hostilizadas e atacadas na base da nacionalidade, miúdos que reproduzem, na sala de aula, comentários xenófobos, racistas, misóginos, um cerco de intolerância que se aperta a todos os níveis. O extremismo galgou as grades da escola” (JN, 25/1/2026). Temos de estar alerta… Um regime democrático, na origem, pode, no exercício, tornar-se autoritário. Assim aconteceu com Hitler… E não podemos esquecer os horrores dos ‘campos de concentração nazis’ nem o flagelo da 2.ª Guerra Mundial… Como escreveu o filósofo George Santayana, “aqueles que ignoram o passado estão condenados a repeti-lo.” (25/2/2026)