O Tanoeiro da Ribeira

quarta-feira, julho 15, 2026

QUANDO A ARTE ATUALIZA E CELEBRA A MEMÓRIA…

Foi há 194 anos… (Fotografia) Memorial de Dom Pedro IV e Batalhão de Caçadores n.º 5 (Pormenor) Ao visitar este monumento, do escultor Ilídio Fontes, no antigo Largo da Feira de Pedras Rubras, agora Praça do Exército Libertador, lembrei a lápide do obelisco da Praia da Memória que diz: “Em honra de sua Majestade Imperial, D. Pedro, Duque de Bragança, primeiro Imperador do Brasil e quarto Rei d’este nome em Portugal, Comandante em chefe do Exército Libertador, aqui desembarcado em oito de julho de mil oitocentos e trinta e dois, para restituir o throno a sua augusta filha a Rainha Reinante D. Maria Segunda, a liberdade aos portugueses, se erigiu este padrão para perpétua memória”. O Batalhão de Caçadores n.º 5 fazia parte da esquadra de 7500 homens que desembarcou em Pampelido e, devido à sua valentia, recebeu de D. Pedro IV o título de ‘Bravo’. E interroguei-me: - Porquê aqui este monumento tão significativo? A resposta foi-me dada pela Câmara Municipal da Maia: “Na noite de 8 de julho de 1832, após o desembarque liberal, foi em Pedras Rubras que o Rei e os seus ‘Bravos’ acamparam antes de avançarem para o Porto”. O que vi confirmado na placa do n.º 88 da rua Pedras Rubras:” Nesta casa pernoitou S.M.I o Senhor D. Pedro IV, na noite de 8 para 9 de julho de 1832, após o desembarque do Exército Libertador na Praia da Memória”. - Quem é Ilídio Fontes, o seu criador? A resposta encontrei-a nos livros: ‘A Arte de Ilídio Fontes – Imaginar a forma – Afeiçoar a vida’, de José Guilherme Abreu, e ‘Arte e Sagrado – o Sagrado na escultura de Ilídio Fontes’, de José Melo. Ilídio Fontes nasceu no lugar da Agra, Milheirós, Maia (28/7/1938). Em 1950, matriculou-se na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, em que, mais tarde, foi insigne professor, segundo testemunho de antigos colegas. Depois, matriculou-se na Escola Superior de Belas Artes, onde se licenciou. Bem cedo, associou a docência à produção artística. Das suas múltiplas criações, destaco: - Monumento à Rendilheira de Vila do Conde “Homenagear a Rendilheira é homenagear a Mulher no seu completo papel social, de agora e dos tempos passados. Mulher-sabedoria e estabilidade e, muito em especial em Vila do Conde, mãe ou esposa que espera na beira-rio o regresso das fainas. Ou já não espera, com olhar distante e, no rosto, sulcos de outros rios.” (José Guilherme Abreu, o. c., pág. 200-202) - O Astronauta – na rua Passos Manuel, Porto. “A peça é um baixo-relevo (…) no qual um indivíduo do sexo masculino se estende na vertical, visando o alto, em extática ascensão aos céus, navegando através de um mar de estrelas. (…) Na comunicação ao II Congresso ‘O Porto Romântico’ que se realizou na Universidade Católica, em 2014 (…) coloquei em confronto O Astronauta de Ilídio Fontes, com o Guardador do Sol de José Rodrigues. Este, considerei-o como uma alusão romântica pela libertação dos povos africanos. Aquele, considerei-o como o novo herói romântico: o navegante do espaço.” (José Guilherme Abreu, o. c., pág. 127-130) 3. Monumento aos Mineiros do Pejão - Em Pedorido, Castelo de Paiva “Ao trabalhar o monumento que homenageia os ‘Mineiros do Pejão’, homens rudes que arrancam das profundezas da terra o magro sustento para a sua existência, sempre efémera e precoce, as suas silicoses e os seus medos rudes espelhados nos rostos demasiado resignados, ali está a suma preocupação com o Outro, deserdado ‘irmão.” (José Melo, o. c, pág. 84) 4. Nossa Senhora da Ponte – Em Rio Tinto Ao entrar na capela, “logo se depara com a significativa imagem que anuncia na auréola ‘Um Filho nos foi dado’. E Este está sentado no regaço da mãe, no que um teólogo amigo, natural de Rio Tinto e profundo conhecedor, me informou tratar-se de um exemplo da Virgem Trono (…) a melhor expressão litúrgica de Maria” (José Melo, o.c., pág. 102) Concluindo… “É na celebração das núpcias entre tradição e modernidade que reside a lição de Ilídio Fontes.” (José Guilherme Abreu, o. c., pág. 278) Não é sem razão que lhe chamam Mestre.. Mestre na Arte Mestre na Vida. 15/7/2026)

quinta-feira, julho 09, 2026

“A CONDIÇÃO HUMANA É ADMIRÁVEL”.

Quando já se corre a ‘Volta a França’… (Fotografia) - No sopé dos Pirenéus Este monumento aos heróis do ‘Tourmalet’ que Ribeiro da Silva, de Lordelo, Paredes, ganhou em 1957, fez-me recordar outras etapas míticas do ‘Tour de France’ como o ‘Alpe d’Huez’ que Joaquim Agostinho, de Torres Vedras, venceu em 1979, e, o ‘Mont Ventoux’ Esta última, que ainda nenhum ciclista português venceu, trouxe-me à mente o livro “O Homem que Plantava Árvores”, em que Jean Giono conta a história surpreendente, por ele vivida, “nessa ancestral região dos Alpes” precisamente, “no sopé do Mont–Ventoux.” (pág. 10) Tudo começou em 1913, numa “longa jornada naquela terra extensamente despovoada, nua e monótona, onde só a alfazema silvestre florescia. (…) Encontrei uma fonte, de facto, mas estava seca. (…) Nestas terras desabrigadas e elevadas, o vento soprava com uma brutalidade insuportável. Os seus uivos contra as ruínas das casas eram como os de uma fera interrompida a meio da refeição.” Após cinco horas de marcha sem ver água, encontrou um pastor: “Ofereceu-me de beber do seu cantil”. Em sua casa, fê-lo “partilhar da sua sopa. (…) Ficou logo subentendido que eu passaria ali a noite.” E o que viu? O pastor “foi buscar um pequeno saco e despejou sobre a mesa um monte de bolotas. Pôs-se a examiná-las uma a uma com muita atenção, separando as boas das más. (…) Quando juntou uma pilha razoável de bolotas, começou a contá-las e separou-as em pacotes de dez.” No dia seguinte, “foi buscar o rebanho e levou-o ao pasto. Antes de se ir embora, mergulhou num balde de água o saquinho onde tinha juntado as bolotas. (…) Em vez de um cajado ele levava na mão um varão de ferro.” Enquanto o rebanho pastava, “fazia um buraco onde punha uma bolota, e depois tapava-o com terra. Plantava carvalhos.” Na conversa que se seguiu, disse-lhe que havia “três anos plantava árvores naquela região deserta, sozinho. Já tinha plantado cem mil das quais vinte mil já tinham nascido. (…) Separámo-nos no dia seguinte”. No ano a seguir começou a guerra de 1914. “No fim da guerra, (1918) retomei o caminho daquelas paragens desertas.” Encontrou o velho pastor que “já só tinha quatro ovelhas, mas em contrapartida, tinha uma centena de colmeias. (…) Continuara a plantar imperturbavelmente. (…) Levara adiante a sua ideia como testemunhavam as faias, estendendo-se a perder de vista. Os carvalhos estavam densos. (…) Mostrou-me os formidáveis bosques de bétulas que datavam de há cinco anos.” E que mais viu? “Na descida de volta para a aldeia, vi correr água em regatos que, desde que havia memória, sempre tinham estado secos. (…) O vento também dispersava algumas sementes. Ao reaparecer a água, reapareceram os salgueiros, os vidoeiros, os prados, os jardins, as flores e uma certa razão de viver.” Em 1935, “a encosta por onde tínhamos vindo estava coberta de árvores com seis a sete metros de altura. Recordei o aspeto da região em 1913, um deserto… (…) Vi Elzéard Bouffier (assim se chamava o pastor) pela última vez em junho de 1945. Tinha então oitenta e sete anos. (…) A camioneta deixou-me em Vergons. Em 1913, esse lugarejo com dez ou doze casas tinha três habitantes. (…) A sua condição era sem esperança. (…) Mas agora tudo estava mudado. Até o próprio ar. Em vez das rajadas de vento secas e violentas que sopravam no passado, acolheu-me uma brisa suave carregada de aromas. Um som semelhante ao da água a correr vinha do alto: era o vento da floresta. (…) O lugar contava agora vinte e oito habitantes, incluindo quatro jovens casais. As casas novas tinham em volta jardins onde cresciam, misturados, mas ordenados, os legumes e as flores, as couves e as roseiras. Era agora um lugar onde apetecia viver.” E em jeito de conclusão… “Quando penso que um único homem, reduzido aos seus simples recursos físicos e morais, foi suficiente para fazer surgir do deserto esta terra de Canaã, acho que, apesar de tudo, a condição humana é admirável.” (pág. 61) Esta história ilustra bem o título que o Papa Leão XIV deu à sua primeira encíclica: ‘Magnífica Humanidade’… Quando as férias se avizinham, este pequeno livro – boa prenda para os mais novos - poderá ser uma bela leitura…(8/7/2026)

terça-feira, junho 30, 2026

CONHECER PORTUGAL – IX – AQUI NASCEU ‘A PRIMEIRA TARDE PORTUGUESA’

Foi há 898 anos. D. Afonso Henriques e os nobres portucalenses fizeram nascer a ‘primeira tarde portuguesa’, ao vencerem as tropas de D. Teresa e de Fernão Peres de Trava, na batalha de S. Mamede (24/6/1128). Em homenagem a esse feito, vamos percorrer o rio Ave que passa no coração do antigo Condado Portucalense. Iniciamos o passeio a 1200 metros de altitude na serra da Cabreira, em Vieira do Minho. Paramos no santuário de Nossa Senhora da Orada, um lugar edílico, onde o rumorejar das cachoeiras se harmoniza com o gorjeio dos passarinhos. Segue-se um convite ao silêncio contemplativo na albufeira do Ermal, um espelho azul debruado pelo verde das margens. A partir daqui, vamos, mesmo sem canoa, descer os rápidos do rio, com paragens nas suas pontes medievais… E a primeira é, já em Póvoa de Lanhoso, na ponte Mem Gutierres ou da Esperança, de um só arco suspenso nas alturas. Construída no século XIV é monumento nacional desde 1910. A partir daqui, fazemos uma pequena volta pelo concelho. Subimos ao santuário da Senhora do Pilar (séc. XVII), no maior monólito da Península Ibérica que culmina no castelo de Póvoa de Lanhoso, de origens romanas, reconstruído no final do século XI. Ao descer, visitamos o castro de Lanhoso. Segue-se a igreja românica de Fontarcada, dos finais do séc. XIII. É a terra da famosa Maria da Fonte. Em Travassos, visitamos o Museu do Ouro. E terminamos no santuário de Nossa Senhora de Porto d’Ave, do século XVIII. Continuamos até à ponte Donim, já no concelho de Guimarães, construída em 1192, com quatro arcos de volta inteira. Aproveitamos para subir até à citânia de Briteiros, considerada um dos mais importantes sítios arqueológicos de Portugal, com origens no século II a.C. Após visitar, na capital do Condado, o Castelo e a capela de S. Miguel onde D. Afonso Henriques terá sido batizado, o Paço dos Duques, o Largo da Oliveira com a igreja da Colegiada e o Padrão do Salado (séc. XIV), damos uma saltada a Tagilde, na margem do Vizela, onde foi celebrado o Tratado com o mesmo nome, entre Portugal e a Inglaterra em 10/7/1372, no ano anterior ao tratado de Londres (16/6/1373) que consagrou a Aliança Luso-Britânica. E seguimos até à ponte românica de Lagoncinha, sé. XII, ainda hoje com serventia. Estamos em Famalicão. A partir daí, vamos até à igreja de Santiago de Antas, sec. XII. Seguimos para o mosteiro de Arnoso que terá sido edificado no séc. VII. Destruído pelos mouros, foi reconstruído no sec. XII. No tímpano lateral, tem a data de 1156. Demoramo-nos em Landim, no seu mosteiro, de fachada quinhentista, construído no sec. XII e profundamente modificado no séc. XVI, e no Real Colégio D. Fernando onde fez a escola primária o historiador Alberto Sampaio. Em Bagunte, já no concelho de Vila do Conde, maravilhamo-nos com a ponte D. Zameiro ou Ponte d’Ave, ‘referida já em 1185, quando o bispo do Porto, D. Fernando Martins, fez testamento e deixou dinheiro para a sua construção’. (Fotografia ) – Ponte D. Zameiro Os ‘Moinhos do Ave’, a jusante, são conhecidos desde as Inquirições de D. Afonso III, em 1258. Os moinhos e a roda de azenha, adossada ao moinho da margem esquerda, que elevava a água para os campos ribeirinhos, ainda os vi a funcionar no dia 8 de agosto de 1974. Aproveitamos para subir até é à Cividade de Bagunte, da Idade do Ferro, ali bem perto, monumento nacional desde 1910 e uma das mais extensas povoações castrejas do noroeste peninsular. Descemos para a veiga do rio Este onde visitamos a igreja românica de Rio Mau (séc. XII) que nos surpreende pela abundância e riqueza dos capitéis e o Mosteiro de S. Pedro de Rates (sec. XII)., este já no concelho da Póvoa de Varzim: de três naves, um dos templos românicos mais significativos de Portugal. Descendo o rio Este, paramos na Ponte Românica de Touguinhó que nos encanta com o coaxar das rãs, o volutear das borboletas e o murmúrio dos açudes. Em Vila do Conde cuja visita fica para outro dia, lembrei os versos de José Régio, um dos seus filhos: ‘Vila do Conde, espraiada/ entre pinhais, o rio e o mar’. (1/7/2026)

terça-feira, junho 23, 2026

O LOUCO DE DEUS NO FIM DO MUNDO

Quando acabei de ler a entrevista de que dei nota na semana passada, logo nasceu em mim o desejo de ler este livro que abre com uma surpreendente e bem clara declaração de interesses: “Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laicista, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo.” Ao embrenhar-me na sua leitura, fui registando as ideias que me pareciam de maior realce. E foi tal a abundância que, na impossibilidade de uma síntese, decidi imaginar uma conversa com o seu autor, Javier Cercas: - Pergunta – Quem é para si o Papa Francisco? - J. C. – É o louco de Deus, um cristão na cadeira de Pedro. “Bergoglio foi o primeiro papa que optou por se chamar Francisco. Francisco é, evidentemente, Francisco de Assis, o jovem de boas famílias que renunciou a um futuro magnífico de amores, poesia e milícia para se consagrar a Deus: o asceta que convivia com os pobres e com os doentes e chamava irmãos e irmãs aos animais, ao fogo e às plantas; o precursor do ecologismo; il poverello, como lhe chamaram os seus contemporâneos. O louco de Deus, como escolheu chamar-se. (…) O Papa Bergoglio é o louco de Deus. Quem é o louco de Deus? Quem é o Papa Francisco?” (pág. 26) “Bergoglio não é um super-homem (…) é só um homem comum e corrente. É esse, digo já, o segredo de Bergoglio. E é isto que o torna verdadeiramente um cristão sentado na cadeira de São Pedro.” (pág. 427) - P. – Quem mais o impressionou nesta viagem? - J.C. – Apaixonei-me pelos missionários: “Fico a ponto de abjurar das minhas responsabilidades familiares, de entrar no primeiro avião para Ulan Bator e de me juntar às hostes do Padre Ernesto.” (pág. 355) - “De repente, volta a acometer-me o desejo furioso de apanhar o primeiro avião com destino à Mongólia para me juntar à guerrilha do Padre Ernesto.” (pág. 385) - P. - Quem este este P. Ernesto? - J.C. - Um italiano a viver com quarenta graus negativos. “Nasceu há setenta e dois anos na província de Bérgamo (pág. 208). “Aterrou em Ulan Bator em fevereiro de 2004. (pág. 210) “Vive na comunidade com missionários da Consolata, em dois apartamentos de um bairro humilde de Ulan Bator: os homens ocupam o apartamento inferior e as mulheres, o superior. Os membros do grupo são jovens, alguns deles muito jovens, o padre Ernesto é, de longe, o mais velho. Ninguém conhece como ele as asperezas da vida de um missionário na Mongólia”. (pág. 212) - P. - O que faz o P. Ernesto que tanto o apaixona? - J.C.- Servir os mais pobres. “Levanta-se todos os dias às cinco da manhã, reza as suas orações e passa o resto do dia com os miúdos em ‘O Sol que Sai.’. Às vezes juntamente com outros missionários, colabora com os serviços sociais da Câmara Municipal local ou do Governo, socorrendo pessoas necessitadas com comida, dinheiro ou assistência.” (pág. 212) - P. - E porque fazem tudo isso? - J.C- Dar esperança. Disse-mo a irmã Ana, uma das missionárias queniana que trabalha com o P. Ernesto e que, com humor, diz estar habituada aos quarenta: “No Quénia, vivia com quarenta graus acima de zero, aqui com quarenta graus abaixo de zero…”. “Nós queremos estar com as pessoas, entrar nas suas casas, perguntar-lhes de que precisam e depois tentar dar-lhes. Nada mais. Queremos dar-lhes um pouco de esperança.” (pág. 274) - P. - Mesmo sendo ateu, poderá dar um conselho às mulheres e homens da Igreja? - J.C. – Sim, como respondi ao prefeito do Dicastério para a Comunicação: “Descobri a solução para todos os problemas da Igreja. (…) Todos missionários”. (pág. 385) - P. – Desculpe a curiosidade… Sempre fez ao Papa a pergunta que motivou a sua viagem? Se sim, o que lhe respondeu? - J.C. – “Digo-lhe que sim. Terás de ler o livro para ficares a saber. E, além disso, terás de o ler até ao fim.” (pág. 384) - Sei que, no próximo dia 26 de junho, vai estar no Festival Literário Babel. Seja bem-vindo à nossa cidade que ‘pode trocar os bês pelos vês, mas nunca a liberdade pela tirania’. Obrigado pela sua presença. E parabéns à Livraria Lello pela sua bela iniciativa. (23/6/2026)

quarta-feira, junho 17, 2026

COMO UM ATEU VÊ A IGREJA E A FÉ

Vem aí o ‘Festiva Babel, com o ‘melhor cartaz que um evento literário pode ter’. Ocorrerá no Porto, de 24 a 29 de junho. Entre os nomes insignes, portugueses e estrangeiros, consta Javier Cercas, um ‘ímpio inveterado’ que, por convite, acompanhou o Papa Francisco na viagem oficial à Mongólia em agosto de 2023, de que “nasceu ‘O louco de Deus no fim do Mundo’, uma experiência transformadora da visão que tinha da Igreja Católica, ainda que não tenha abalado o seu ateísmo militante.” Da entrevista sobre esse livro que o JN publicou (9 /11/2025), respiguei algumas falas.: Pergunta – Como é que um ateu escreve um livro onde a religião tem um peso tão forte? Resposta: A Igreja Católica é absolutamente determinante nos últimos dois mil anos de História. Determinante nos mais variados sentidos: político, cultural, ético…” P.- É verdade que os seus amigos tinham receio de que branqueasse o Vaticano? R. – Sim, mas não faz sentido. Será que Shakespeare branqueou Ricardo II quando escreveu sobre ele? P. – Estar no Vaticano, ter acesso aos seus bastidores, mudou a opinião que tinha? R. – Mudou totalmente. O maior esforço que fiz para escrever este livro foi limpar a minha mente de todos os preconceitos que tinha. Não foi fácil. Todos estamos repletos de ideias feitas sobre a Igreja. Procurei saber como é realmente o Vaticano O que procurei foi ver o que havia realmente, não o que me interessava ou que achava que havia. P. - O seu ateísmo foi abalado? R.- Não, não me converti. No livro, fala-se muito da fé. Lembro-me que, ao falar com o cardeal Tolentino Mendonça, disse-lhe que a fé é uma intuição poética. Ele concordou. Quando conversei com o Papa Francisco, a resposta dele foi muito distinta: a fé é um dom, um presente. Não considero que estas respostas sejam contraditórias. Acho que se completam. Em todo o caso, a fé não é voluntária. Como digo várias vezes no livro, é como um superpoder. Dá-te uma serenidade e uma força imensas. A minha mãe é capaz de fazer coisas que nunca consegui. Se quisesse recuperar a fé, não teria como fazê-lo. P. – Diz que só se tornou escritor porque perdeu a fé. A literatura para si é uma religião? R. – Para mim, a literatura foi um substituto da fé. Encontrei nos livros um refúgio. Acreditava que o meu caso era especial, mas agora dou-me conta de que não era assim tanto. Nietzsche foi o primeiro a denunciar que vivíamos num mundo sem Deus. O ‘louco de Deus’ de que o livro fala é o louco de Nietzsche. Compreendeu que Deus não existe e pergunta o que devemos fazer agora que perdemos aquele que dava sentido ao Mundo. Essa é uma pergunta central para a arte e para a filosofia contemporâneas. p. - E na Humanidade, acredita? R. – A grande questão é que antigamente a fé dava um sentido global a tudo. Agora não temos esse instrumento que dava sentido a tudo. O que temos agora são crenças parciais. Em vez de um grande relato, temos pequenos relatos. Quem diz que não acredita em nada já está a acreditar em alguma coisa, na verdade. É um absurdo achar-se isso. P. – A longevidade da Igreja Católica é o maior dos milagres? R. – Não existe uma instituição igual. Nenhuma durou mais de dois mil anos. Se fosse crente, acreditaria que essa longevidade era da ordem do milagre, Não sendo, considero-a um feito histórico. O seu papel mudou muito nas últimas décadas. Agora, precisa de saber qual a sua missão. É um trabalho árduo, o que explica as profundas mudanças por que tem passado desde o Vaticano II. O maior desafio é voltar ao cristianismo de Cristo. O Papa Francisco ambicionou-o, mas a mudança é um trabalho para 50 papas, não para um. P. – O que fica de concreto do Papa Francisco? R. – De todos os papas que tentaram o reencontro da Igreja Católica com a sua essência, Francisco foi o que levou esses esforços mais longe sem que o tenha conseguido, como é evidente. Uma das coisas que aprendi é que a Igreja Católica é um organismo incrivelmente complexo, que muda de forma total de país para país. No seu interior, tanto cabem pessoas de extrema direita como de extrema esquerda. É uma revolução muito difícil de ser alcançada. P. – Privou com a estrutura hierárquica que rodeia o Papa. É aí que reside o poder? R. – Há muitos mal-entendidos. A ideia de que a oposição vinha do Vaticano, dos bispos e cardeais que conspiravam, é um cliché barato das películas. A oposição vem da complexidade da Igreja Católica. Concluindo… “O maior desafio é voltar ao cristianismo de Cristo. “ (17/6/2026)

terça-feira, junho 09, 2026

VAMOS CONHECER PORTUGAL (VIII) - O RIO DOS FESTIVAIS DE VERÃO

O verão está aí… Nasce nas serras de Paredes de Coura e desagua no rio Minho, junto a Caminha. Não é longo o rio Coura e, no entanto, a beleza das suas margens acolhe dois dos maiores festivais de verão. Em Vilar de Mouros, bem próximo da sua foz, paremos no parque onde, desde 1965, se realiza o mais antigo dos festivais. Ao pé da ponte românica (século XIV), façamos silêncio e ouçamos o coaxar das rãs. No extremo norte, é o cantar das águas no açude do Tio Luís que nos embala. Um lugar bucólico onde apetece adormecer… Façamo-nos peregrinos e subamos até ao mosteiro de S. João de Agra (século XIII) que nos transporta aos tempos medievais com os ‘cachorros’ românicos nas cornijas e os ‘albergues’ para os romeiros. Na Serra d’Arga, desfrutemos da grandiosidade da paisagem, do colorido matizado da carqueja e da urze, e da graciosidade dos ‘garranos’ que correm livremente pela montanha. Mais um esforço, e eis-nos chegados ao santuário de Nossa Senhora do Minho, benzido em 2006. (Fotografia) Imagem da Senhora do Minho A sua imagem, com os trajes regionais e espigas no regaço, retrata a beleza e a força da mulher minhota. Aí, recordo os amigos do Coro Gregoriano e do Boa Memória que já respiraram estes ares e rezo pelos que já partiram. Na descida, em S. Lourenço da Montaria, subamos ao seu calvário e cantemos: “Digo adeus à Serra d’Arga. Digo adeus a S. Lourenço. Não te digo adeus a ti Porque sabes o que eu penso”. Já no vale do Lima, vamos até às lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos, uma paisagem classificada como ‘Zona Húmida’. nas margens do Rio Estorão. Após uma visita ao Centro de Interpretação Ambiental, os passadiços, em meandros, levam-nos a apreciar a sua elevada diversidade ao som de gorjeios e coaxos. E o dossel do arvoredo protege-nos dos raios solares. Após Ponte do Lima, subamos até à Casa Grande de Romarigães, uma mansão nobre do século XVII com a capela de Nossa Senhora do Amparo, que deu título ao romance de Aquilino Ribeiro. Aqui morou Bernardino Machado, presidente da República Portuguesa, de 1915 a 1917. e o próprio Aquilino que se casou com uma das suas filhas. Em Rubiães, admiremos a sua igreja, monumento nacional desde 1913, de origem românica (século XIII), e remodelada no século XVI, que, no adro, nos acolhe com um marco miliário da antiga via romana. Prende-nos a atenção o portal com a representação da ‘Anunciação’ e os capitéis, ricos em motivos vegetais e zoomórficos E não esqueçamos a Ponte Românica sobre o rio Coura, com três arcos de volta perfeita, que, ainda hoje, serve o Caminho de Santiago. Subamos, agora, ao Castro do Cossourado, um povoado fortificado, construído no século X a. C. e monumento nacional desde 1910. No interior das suas três linhas defensivas, há habitações circulares e retangulares, recentemente, recuperadas. Na última vez que o visitei, duas delas estavam a ser cobertas de colmo. O esforço da subida, para além de nos fazer coetâneos de povos doutros tempos, vale a pena pela amplitude dos seus horizontes. Em Paredes de Coura, vamos à descoberta dum santuário de floresta autóctone - Corno do Bico - uma paisagem protegida com enormes blocos de granito, que nos acolhe com os cânticos dos seus pássaros. Nos lameiros que bordejam o caminho, pastam manadas de gado bovino. E o miradouro alarga-nos o olhar até às serras d’Agra, da Peneda e do Soajo. Após um café na vila, rumamos ao Monte da Pena para venerar a sua padroeira. A capela, construída no século XVIII, tem na fachada frontal a imagem de Nossa Senhora da Pena. O arvoredo que a rodeia, convida-nos a descansar à sua sombra, antes de subirmos ao Miradouro com a paisagem mimosa do vale do Coura que nasce ali bem perto. E terminamos na praia fluvial do Taboão, um local de sonho, onde, no verão, desde 1993, se realiza o Festival de Paredes de Coura, um dos melhores do País. As terras ganham colorido afetivo quando nos falam de amigos. E nós evocamos…Na Serra d’Arga, o Joaquim Barbosa, duma família que muito colaborou na criação da paróquia de Nossa Senhora do Calvário; e, em Paredes de Coura, o P. António Bacelar, um amigo que casou nosso filho e batizou nossos netos. Como sabe bem pontilhar o mapa com as cores da amizade… 9/6/2026)

terça-feira, junho 02, 2026

QUANDO OS JOVENS NOS DEIXAM A PENSAR…

‘Uma celebração vibrante sobre a amizade, a resiliência e o brilho que nasce quando temos a coragem de ser, simplesmente, nós próprios.’ ‘A maior arte é a de fazer os outros felizes.’ Quem, na tarde do dia 26 de abril, passasse na rua de Passos Manuel, ficaria surpreendido com a multidão sorridente que se apinhava nas imediações do Coliseu para assistir ao musical “Circo Maravilha’ que ia ser apresentado pela Academia de Música de Costa Cabral, uma escola artística, “com mais de 500 alunos”, que apresenta “as suas atividades no exterior através do desenvolvimento de parcerias junto de várias instituições tais como: Fundação Casa da Música, Câmara Municipal do Porto, Teatro Municipal do Porto (Rivoli e Campo Alegre), Faculdade de Engenharia do Porto, Museu Nacional Soares dos Reis, Fundação Eng.º António de Almeida, Fundação de Serralves, Coliseu do Porto, Banda Sinfónica Portuguesa, Igreja da Lapa, Santa Casa da Misericórdia do Porto, Junta de Freguesia de Paranhos, Fundação EDP, Câmara Municipal de Gondomar, Prémio Jovens Músicos da RTP, Fundação Calouste Gulbenkian, entre outros.” (Anuário da AMCC- 24/25-30 Anos) Essa alegria explodiu em palmas quando, na escuridão da sala lotada, se fez luz e som: luz, das lanternas de centenas de cantores; som, duma orquestra de jovens músicos. Antes, já o narrador concitara a atenção da assistência, indiciando o fio condutor do enredo: ‘Senhoras e Senhores, bem-vindos! Nem sei por onde começar… nunca pensei que esta seria uma história que valesse a pena contar… mas a vida dá cada volta, caro público! Falo da história de Phineas Taylor Barnum. Nasceu numa família humilde, filho de um alfaiate conhecido pela sua honestidade e pelo trabalho incansável ao serviço das famílias mais ricas da cidade. (...) Ele sentia que não pertencia àquele mundo, mas também não aceitava a ideia de que nunca poderia fazer parte dele’. Ao longo de cerca de duas horas, com cantores, atores e instrumentistas, ‘num mundo que dita regras sobre quem devemos ser, o Circo Maravilha, convidou-nos a olhar para o que nos torna únicos. P.T. Barnum, um visionário com o sonho de criar algo inovador, reúne um grupo de artistas extraordinários que, até então, viviam nas sombras. Juntos, descobrem que as suas particularidades não são limites, mas sim a sua maior força. Uma celebração vibrante sobre a amizade, a resiliência e o brilho que nasce quando temos a coragem de ser, simplesmente, nós próprios’. No final, o narrador, à maneira das fábulas gregas que sempre terminavam: ‘hó deloi hoti” (a fábula revela que…,), transmitiu-nos a ‘moral’ deste musical que nos interrogou e deixou a pensar… ‘Bem, caro público, estamos a chegar ao fim desta história. A história de um homem que cresceu pobre, sem nada, e que sempre ambicionou ter mais, muito mais. Mas o que é ter mais, caros amigos? É ter dinheiro? É a fama? É uma mansão? É ter as portas da alta sociedade abertas? O que é tudo isto, se não tivermos tempo para mais? Se não tivermos tempo para jantar com o amor da nossa vida? Se não tivermos tempo para brincar com os nossos filhos e vê-los crescer? Se não tivermos tempo para os nossos amigos? Barnum aprendeu da maneira mais difícil, caro público! E eu? Eu também aprendi algo novo. O que é ser diferente? Porque temos todos de ser iguais? Porque temos todos de viver vidas iguais? O mundo não seria mais bonito, se todos abraçassem as suas diferenças? E nós, público? O que descobrimos hoje? A vida e a arte! A vida, sim, caro público, a vida é o grande show! É o espetáculo que merece ser vivido a 100%, não, a 200%! Essa sim é a nossa missão! A arte… O que é a arte? Eu diria, senhoras e senhores, que a maior arte é a de fazer os outros felizes. Obrigada a todos pela vossa presença! E não se esqueçam, estamos sempre aqui para o grande show!’ A meu lado, alguém dizia: “Se fechasse os olhos, parecia-me que estava perante uma orquestra de profissionais e de atores muito traquejados.” (Fotografia) – Apoteose Final A alegria esfuziante do palco e a emocionada ovação da sala são parca recompensa para quem – alunos, professores, funcionários, diretores, técnicos – tanto trabalhou para nos oferecer este maravilhoso espetáculo, e minguados parabéns para os cantores, atores e instrumentistas que nos mimosearam com a sua arte. Sobra, porém, o mérito e sobeja o agradecimento. (3/6/2026)