São Crispim e o Venerável ‘Apóstolo do Barredo’
No ‘septuagésimo aniversário da partida de Pai Américo para o Céu.’ (O Gaiato)
Aconteceu na igreja de S. Nicolau, (28/11/2025). Na apresentação da ‘História Religiosa do Centro Histórico da Cidade do Porto’, de Vitor Teixeira, D. Manuel Clemente destacou episódios que marcaram a cidade a começar pelo Couto do Porto (1120), passando pelos conventos de S. Francisco e dos Dominicanos (séc. XIII); pela ‘devolução do Senhorio do Porto à Coroa’ (1407); a criação das paróquias de S. Nicolau e Nossa Senhora da Vitória (séc. XVI); a fundação da Santa Casa da Misericórdia (1499); o fecho dos mosteiros e conventos com o Liberalismo (séc. XIX), até aos nossos dias.
Por razões afetivos, logo procurei, nesse “guia da alma, da identidade do Porto’, como o qualificou D. Manuel Linda, no seu Prefácio, referências ao Hospital de S. Crispim. E que li?
“Este estabelecimento funcionou até ao século XVI no topo da rua das Congostas nas proximidades da Ponte de S. Domingues e do Hospital dos Palmeiros. (…) Pertencia à confraria dos Sapateiros de S. Crispim e S. Crispiniano do Porto, uma das mais antigas do burgo, existindo pelo menos desde 1224.”
“O hospital foi construído junto à Ponte de S. Domingos, um destacado eixo viário com o objetivo de acolher peregrinos pobres a caminho de Santiago de Compostela. (…) A albergaria e o hospital possuíam dez alcovas para acolhimento.” (pág. 205)
No último cartel do século XVIII, com a abertura da rua de Mouzinho da Silveira, o edifício foi destruído e a capela transferida para a rua de Santos Pousada. Sobre os seus alicerces foi construído o prédio nº 108-112 do novo arruamento. Dez anos atrás, ao visitar a sua cave, vi as enormes pedras de granito que bordejam o ‘Rio da Vila’ e ouvi as suas águas. E, ainda recentemente, as obras da ‘Linha Rosa’ do Metro deixaram-me ver a ‘Ponte de S. Domingos’ que foi soterrada, mas não destruída.
(Fotografia) Aqui trabalhou como marçano o futuro ´Pai Américo’ dos 15 aos 19 anos (1902-1906).
E que tem isto a ver com o ‘Apóstolo do Barredo’? - perguntar-se-á o leitor. E eu explico
Na vida do Padre Américo, havia duas interrogações que sempre me intrigaram:
Primeira - O P. Américo foi ordenado em Coimbra. Porquê, se é natural da freguesia de Galegos, em Penafiel?
Segunda - Como o conheceu o Barredo, se era natural de Penafiel e presbítero em Coimbra?
Estas interrogações esvaíram-se quando soube que ele, durante quatro anos, ‘vendeu ferros’, como dizia sua mãe, na ‘loja de ferragens’ que, então, ocupava o rés-do-chão do mencionado prédio 108 -112 da rua de Mouzinho da Silveira na esquina com a travessa da Bainharia, em frente ao Largo de S. Domingos. Porquê?
- Como a loja ficava próxima da igreja de S. Lourenço (dos Grilos), do Seminário da Sé, o jovem Américo ia lá ajudar à Missa e confessar-se. Entre os presbíteros que aí conheceu estava o Dr. Manuel Luís Coelho da Silva, Vigário Geral da Diocese.
Quando mais tarde, já com 37 anos, após o seu regresso de Moçambique, quis entrar no seminário para ‘estudar para padre’, foi, com o seu irmão padre, falar com o bispo do Porto, D. António Barbosa Leão, que não o aceitou porque, disse, tinha tido muitas desilusões com as vocações tardias. E quem o veio a receber e ordenou (28/7/1929 foi precisamente o Dr. Manuel Luís Coelho da Silva que, entretanto, fora sagrado bispo de Coimbra.
- A loja ficava perto do Barredo Terá sido, pois, na sua juventude, penso, que o Padre Américo se apaixonou por essa “terra de heróis, de mártires e de santos”, como escreveu mais tarde.
E as perguntas sucedem-se…
O bispo de Coimbra tê-lo ia aceitado no seminário se o não tivesse conhecido no Porto? Haveria outro bispo que o recebesse se o prelado da sua diocese o rejeitou?
Concluindo…
Não fora a ‘loja de ferragens’ no espaço do antigo Hospital de S. Crispim, e, talvez, o senhor Américo Monteiro de Aguiar nunca seria Padre Américo, “provavelmente, a maior figura da Igreja em Portugal, no séc. XX”, no dizer de José da Cruz Santos, da Editora Modo de Ler”. E assim, não teríamos o ‘Pai Américo’. Nem o ‘Apóstolo do Barredo’…
Como são insondáveis os caminhos de Deus!...(22/7/2026)