‘HERÓI NACIONAL DE TIMOR-LESTE’
“Ali também Timor, que o lenho manda
Sândalo salutífero e cheiroso.” (Os Lusíadas, X, 134)
No final de maio passado, na peregrinação mariana a Lurdes, organizada pelo cónego Álvaro Mansilha, visitámos Loyola.
(Fotografia) Santuário de Loyola
Enquanto o grupo percorria a ‘Casa da Torre’, onde nasceu Santo Inácio, eu e minha esposa ficámos na basílica do santuário. E tivemos tempo para rezar junto dos altares de santos Jesuítas, a começar pelo primeiro, à direita do altar-mor, dedicado a S. Francisco Xavier, o ‘Apóstolo do Oriente, e terminando no altar de São Francisco de Borja, o primerio do lado esquerdo, que fundou no Barredo (9/8/1560) - onde ainda tem uma rua com o seu nome - a primeira comunidade da Companhia de Jesus no Porto que está na origem do Colégio dos Jesuítas, agora Seminário Maior.
E dei graças pelos jesuítas que marcaram a minha vida, os padres Luís Archer e José Maria Cabral Ferreira.
Se fosse hoje, também daria graças por um jesuíta cuja vida só conheci no dia 3 de julho, através do artigo Padre João Felgueiras [1921-2026], assinado por Jorge Wemans e publicado no 7Margens’ que começava por informar:
“Morreu esta sexta-feira, 3 de julho, aos 105 anos, o padre João Felgueiras, jesuíta, um “herói nacional de Timor-Leste”, terra que abraçou em 1971, acompanhando o povo e quem mais precisava de ajuda inclusive durante os anos da violenta ocupação indonésia (1975-1999).
- “Padre João, se o Senhor Padre João não entrar no céu… ninguém mais lá poderá́ entrar!” – disse à sua cabeceira o então superior dos Jesuítas, padre timorense Joaquim Sarmento. (…) Uma verdade que qualquer timorense, qualquer pessoa que com ele tenha convivido, partilharia.”
E explicava:
“Para uns, considerado um pai, para outros, o companheiro fiel que ficou ao lado do povo quando a guerra e a violência se instalaram, o padre João Felgueiras foi uma figura incontornável da história de Timor-Leste. (…)
“Foi no apoio direto à população que procurava sobreviver à ocupação indonésia, desencadeada em 1975, que se destacou entre a população (…)” – lê-se na notícia publicada pelo Ponto SJ, o órgão dos jesuítas portugueses.
“O padre João deu tudo o que podia dar” à Igreja de Timor, disse ao 7MARGENS, em 2021, o arcebispo de Díli, o cardeal Virgílio do Carmo Silva:
“O seu amor por Timor é de tal maneira incomensurável que, até além da vida sacrificada, não a poupou na defesa dos direitos dos timorenses à independência e no apoio dado à resistência armada no interior deste território. Com coragem abraçou a cruz que lhe foi atribuída (…) e por fim escolheu concluir a sua vida neste território timorense.”
- Já em 1993, no Timor-Leste ocupado, o repórter Adelino Gomes o tinha clandestinamente entrevistado para o jornal Público. Entrevista que descreveu assim, uns anos depois:
“Sentado, de olhos meio fechados, voz sussurrada, fala para o microfone que lhe estendo. E diz: ‘Quero dizer a Mário Soares, a Durão Barroso, aos outros ministros: Como podemos abandonar milhares de timorenses? (…)
Portugal devia ser mais forte. O Governo parece pedir por favor, quando fala do caso. (…) Que o Governo jamais reconheça a integração na Indonésia. (…) A Indonésia foi condenada [pelo Conselho de Segurança] em 1975. Podemos admitir que o criminoso seja compensado? Não teríamos feito tanto quanto este povo fez, se tivéssemos sido invadidos por espanhóis ou franceses. Nem teríamos vivido com tão profunda fé esta experiência histórica.”
- Em 2014, é a vez do Papa Francisco visitar o território. (…)
Ao entrar no salão da nunciatura de Díli, a primeira coisa que fez foi abraçar o padre João Felgueiras: “Agradeceu-lhe e abraçou-o. O padre João estava muito emocionado”.
- “Recebeu em 2002 do Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade, e em 2016 do Presidente da República Democrática de Timor-Leste, Taur Matan Ruak, a Medalha de Mérito. Em 2022, Marcelo Rebelo de Sousa distinguiu-o novamente, desta feita com a Grã-Cruz da Ordem de Camões.
E nós reverenciamos a sua memória nas palavras do jornalista Adelino Gomes: ‘Pelo exemplo, pela tenacidade, e pela inspiração, obrigado barak, padre João Felgueira”.
Nota – O escritor homenageado na edição de 2026 do Escritaria – Festival Literário de Penafiel - foi o timorense Luís Cardoso.(28/10/2026)