O Tanoeiro da Ribeira

terça-feira, junho 23, 2026

O LOUCO DE DEUS NO FIM DO MUNDO

Quando acabei de ler a entrevista de que dei nota na semana passada, logo nasceu em mim o desejo de ler este livro que abre com uma surpreendente e bem clara declaração de interesses: “Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laicista, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo.” Ao embrenhar-me na sua leitura, fui registando as ideias que me pareciam de maior realce. E foi tal a abundância que, na impossibilidade de uma síntese, decidi imaginar uma conversa com o seu autor, Javier Cercas: - Pergunta – Quem é para si o Papa Francisco? - J. C. – É o louco de Deus, um cristão na cadeira de Pedro. “Bergoglio foi o primeiro papa que optou por se chamar Francisco. Francisco é, evidentemente, Francisco de Assis, o jovem de boas famílias que renunciou a um futuro magnífico de amores, poesia e milícia para se consagrar a Deus: o asceta que convivia com os pobres e com os doentes e chamava irmãos e irmãs aos animais, ao fogo e às plantas; o precursor do ecologismo; il poverello, como lhe chamaram os seus contemporâneos. O louco de Deus, como escolheu chamar-se. (…) O Papa Bergoglio é o louco de Deus. Quem é o louco de Deus? Quem é o Papa Francisco?” (pág. 26) “Bergoglio não é um super-homem (…) é só um homem comum e corrente. É esse, digo já, o segredo de Bergoglio. E é isto que o torna verdadeiramente um cristão sentado na cadeira de São Pedro.” (pág. 427) - P. – Quem mais o impressionou nesta viagem? - J.C. – Apaixonei-me pelos missionários: “Fico a ponto de abjurar das minhas responsabilidades familiares, de entrar no primeiro avião para Ulan Bator e de me juntar às hostes do Padre Ernesto.” (pág. 355) - “De repente, volta a acometer-me o desejo furioso de apanhar o primeiro avião com destino à Mongólia para me juntar à guerrilha do Padre Ernesto.” (pág. 385) - P. - Quem este este P. Ernesto? - J.C. - Um italiano a viver com quarenta graus negativos. “Nasceu há setenta e dois anos na província de Bérgamo (pág. 208). “Aterrou em Ulan Bator em fevereiro de 2004. (pág. 210) “Vive na comunidade com missionários da Consolata, em dois apartamentos de um bairro humilde de Ulan Bator: os homens ocupam o apartamento inferior e as mulheres, o superior. Os membros do grupo são jovens, alguns deles muito jovens, o padre Ernesto é, de longe, o mais velho. Ninguém conhece como ele as asperezas da vida de um missionário na Mongólia”. (pág. 212) - P. - O que faz o P. Ernesto que tanto o apaixona? - J.C.- Servir os mais pobres. “Levanta-se todos os dias às cinco da manhã, reza as suas orações e passa o resto do dia com os miúdos em ‘O Sol que Sai.’. Às vezes juntamente com outros missionários, colabora com os serviços sociais da Câmara Municipal local ou do Governo, socorrendo pessoas necessitadas com comida, dinheiro ou assistência.” (pág. 212) - P. - E porque fazem tudo isso? - J.C- Dar esperança. Disse-mo a irmã Ana, uma das missionárias queniana que trabalha com o P. Ernesto e que, com humor, diz estar habituada aos quarenta: “No Quénia, vivia com quarenta graus acima de zero, aqui com quarenta graus abaixo de zero…”. “Nós queremos estar com as pessoas, entrar nas suas casas, perguntar-lhes de que precisam e depois tentar dar-lhes. Nada mais. Queremos dar-lhes um pouco de esperança.” (pág. 274) - P. - Mesmo sendo ateu, poderá dar um conselho às mulheres e homens da Igreja? - J.C. – Sim, como respondi ao prefeito do Dicastério para a Comunicação: “Descobri a solução para todos os problemas da Igreja. (…) Todos missionários”. (pág. 385) - P. – Desculpe a curiosidade… Sempre fez ao Papa a pergunta que motivou a sua viagem? Se sim, o que lhe respondeu? - J.C. – “Digo-lhe que sim. Terás de ler o livro para ficares a saber. E, além disso, terás de o ler até ao fim.” (pág. 384) - Sei que, no próximo dia 26 de junho, vai estar no Festival Literário Babel. Seja bem-vindo à nossa cidade que ‘pode trocar os bês pelos vês, mas nunca a liberdade pela tirania’. Obrigado pela sua presença. E parabéns à Livraria Lello pela sua bela iniciativa. (23/6/2026)

quarta-feira, junho 17, 2026

COMO UM ATEU VÊ A IGREJA E A FÉ

Vem aí o ‘Festiva Babel, com o ‘melhor cartaz que um evento literário pode ter’. Ocorrerá no Porto, de 24 a 29 de junho. Entre os nomes insignes, portugueses e estrangeiros, consta Javier Cercas, um ‘ímpio inveterado’ que, por convite, acompanhou o Papa Francisco na viagem oficial à Mongólia em agosto de 2023, de que “nasceu ‘O louco de Deus no fim do Mundo’, uma experiência transformadora da visão que tinha da Igreja Católica, ainda que não tenha abalado o seu ateísmo militante.” Da entrevista sobre esse livro que o JN publicou (9 /11/2025), respiguei algumas falas.: Pergunta – Como é que um ateu escreve um livro onde a religião tem um peso tão forte? Resposta: A Igreja Católica é absolutamente determinante nos últimos dois mil anos de História. Determinante nos mais variados sentidos: político, cultural, ético…” P.- É verdade que os seus amigos tinham receio de que branqueasse o Vaticano? R. – Sim, mas não faz sentido. Será que Shakespeare branqueou Ricardo II quando escreveu sobre ele? P. – Estar no Vaticano, ter acesso aos seus bastidores, mudou a opinião que tinha? R. – Mudou totalmente. O maior esforço que fiz para escrever este livro foi limpar a minha mente de todos os preconceitos que tinha. Não foi fácil. Todos estamos repletos de ideias feitas sobre a Igreja. Procurei saber como é realmente o Vaticano O que procurei foi ver o que havia realmente, não o que me interessava ou que achava que havia. P. - O seu ateísmo foi abalado? R.- Não, não me converti. No livro, fala-se muito da fé. Lembro-me que, ao falar com o cardeal Tolentino Mendonça, disse-lhe que a fé é uma intuição poética. Ele concordou. Quando conversei com o Papa Francisco, a resposta dele foi muito distinta: a fé é um dom, um presente. Não considero que estas respostas sejam contraditórias. Acho que se completam. Em todo o caso, a fé não é voluntária. Como digo várias vezes no livro, é como um superpoder. Dá-te uma serenidade e uma força imensas. A minha mãe é capaz de fazer coisas que nunca consegui. Se quisesse recuperar a fé, não teria como fazê-lo. P. – Diz que só se tornou escritor porque perdeu a fé. A literatura para si é uma religião? R. – Para mim, a literatura foi um substituto da fé. Encontrei nos livros um refúgio. Acreditava que o meu caso era especial, mas agora dou-me conta de que não era assim tanto. Nietzsche foi o primeiro a denunciar que vivíamos num mundo sem Deus. O ‘louco de Deus’ de que o livro fala é o louco de Nietzsche. Compreendeu que Deus não existe e pergunta o que devemos fazer agora que perdemos aquele que dava sentido ao Mundo. Essa é uma pergunta central para a arte e para a filosofia contemporâneas. p. - E na Humanidade, acredita? R. – A grande questão é que antigamente a fé dava um sentido global a tudo. Agora não temos esse instrumento que dava sentido a tudo. O que temos agora são crenças parciais. Em vez de um grande relato, temos pequenos relatos. Quem diz que não acredita em nada já está a acreditar em alguma coisa, na verdade. É um absurdo achar-se isso. P. – A longevidade da Igreja Católica é o maior dos milagres? R. – Não existe uma instituição igual. Nenhuma durou mais de dois mil anos. Se fosse crente, acreditaria que essa longevidade era da ordem do milagre, Não sendo, considero-a um feito histórico. O seu papel mudou muito nas últimas décadas. Agora, precisa de saber qual a sua missão. É um trabalho árduo, o que explica as profundas mudanças por que tem passado desde o Vaticano II. O maior desafio é voltar ao cristianismo de Cristo. O Papa Francisco ambicionou-o, mas a mudança é um trabalho para 50 papas, não para um. P. – O que fica de concreto do Papa Francisco? R. – De todos os papas que tentaram o reencontro da Igreja Católica com a sua essência, Francisco foi o que levou esses esforços mais longe sem que o tenha conseguido, como é evidente. Uma das coisas que aprendi é que a Igreja Católica é um organismo incrivelmente complexo, que muda de forma total de país para país. No seu interior, tanto cabem pessoas de extrema direita como de extrema esquerda. É uma revolução muito difícil de ser alcançada. P. – Privou com a estrutura hierárquica que rodeia o Papa. É aí que reside o poder? R. – Há muitos mal-entendidos. A ideia de que a oposição vinha do Vaticano, dos bispos e cardeais que conspiravam, é um cliché barato das películas. A oposição vem da complexidade da Igreja Católica. Concluindo… “O maior desafio é voltar ao cristianismo de Cristo. “ (17/6/2026)

terça-feira, junho 09, 2026

VAMOS CONHECER PORTUGAL (VIII) - O RIO DOS FESTIVAIS DE VERÃO

O verão está aí… Nasce nas serras de Paredes de Coura e desagua no rio Minho, junto a Caminha. Não é longo o rio Coura e, no entanto, a beleza das suas margens acolhe dois dos maiores festivais de verão. Em Vilar de Mouros, bem próximo da sua foz, paremos no parque onde, desde 1965, se realiza o mais antigo dos festivais. Ao pé da ponte românica (século XIV), façamos silêncio e ouçamos o coaxar das rãs. No extremo norte, é o cantar das águas no açude do Tio Luís que nos embala. Um lugar bucólico onde apetece adormecer… Façamo-nos peregrinos e subamos até ao mosteiro de S. João de Agra (século XIII) que nos transporta aos tempos medievais com os ‘cachorros’ românicos nas cornijas e os ‘albergues’ para os romeiros. Na Serra d’Arga, desfrutemos da grandiosidade da paisagem, do colorido matizado da carqueja e da urze, e da graciosidade dos ‘garranos’ que correm livremente pela montanha. Mais um esforço, e eis-nos chegados ao santuário de Nossa Senhora do Minho, benzido em 2006. (Fotografia) Imagem da Senhora do Minho A sua imagem, com os trajes regionais e espigas no regaço, retrata a beleza e a força da mulher minhota. Aí, recordo os amigos do Coro Gregoriano e do Boa Memória que já respiraram estes ares e rezo pelos que já partiram. Na descida, em S. Lourenço da Montaria, subamos ao seu calvário e cantemos: “Digo adeus à Serra d’Arga. Digo adeus a S. Lourenço. Não te digo adeus a ti Porque sabes o que eu penso”. Já no vale do Lima, vamos até às lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos, uma paisagem classificada como ‘Zona Húmida’. nas margens do Rio Estorão. Após uma visita ao Centro de Interpretação Ambiental, os passadiços, em meandros, levam-nos a apreciar a sua elevada diversidade ao som de gorjeios e coaxos. E o dossel do arvoredo protege-nos dos raios solares. Após Ponte do Lima, subamos até à Casa Grande de Romarigães, uma mansão nobre do século XVII com a capela de Nossa Senhora do Amparo, que deu título ao romance de Aquilino Ribeiro. Aqui morou Bernardino Machado, presidente da República Portuguesa, de 1915 a 1917. e o próprio Aquilino que se casou com uma das suas filhas. Em Rubiães, admiremos a sua igreja, monumento nacional desde 1913, de origem românica (século XIII), e remodelada no século XVI, que, no adro, nos acolhe com um marco miliário da antiga via romana. Prende-nos a atenção o portal com a representação da ‘Anunciação’ e os capitéis, ricos em motivos vegetais e zoomórficos E não esqueçamos a Ponte Românica sobre o rio Coura, com três arcos de volta perfeita, que, ainda hoje, serve o Caminho de Santiago. Subamos, agora, ao Castro do Cossourado, um povoado fortificado, construído no século X a. C. e monumento nacional desde 1910. No interior das suas três linhas defensivas, há habitações circulares e retangulares, recentemente, recuperadas. Na última vez que o visitei, duas delas estavam a ser cobertas de colmo. O esforço da subida, para além de nos fazer coetâneos de povos doutros tempos, vale a pena pela amplitude dos seus horizontes. Em Paredes de Coura, vamos à descoberta dum santuário de floresta autóctone - Corno do Bico - uma paisagem protegida com enormes blocos de granito, que nos acolhe com os cânticos dos seus pássaros. Nos lameiros que bordejam o caminho, pastam manadas de gado bovino. E o miradouro alarga-nos o olhar até às serras d’Agra, da Peneda e do Soajo. Após um café na vila, rumamos ao Monte da Pena para venerar a sua padroeira. A capela, construída no século XVIII, tem na fachada frontal a imagem de Nossa Senhora da Pena. O arvoredo que a rodeia, convida-nos a descansar à sua sombra, antes de subirmos ao Miradouro com a paisagem mimosa do vale do Coura que nasce ali bem perto. E terminamos na praia fluvial do Taboão, um local de sonho, onde, no verão, desde 1993, se realiza o Festival de Paredes de Coura, um dos melhores do País. As terras ganham colorido afetivo quando nos falam de amigos. E nós evocamos…Na Serra d’Arga, o Joaquim Barbosa, duma família que muito colaborou na criação da paróquia de Nossa Senhora do Calvário; e, em Paredes de Coura, o P. António Bacelar, um amigo que casou nosso filho e batizou nossos netos. Como sabe bem pontilhar o mapa com as cores da amizade… 9/6/2026)

terça-feira, junho 02, 2026

QUANDO OS JOVENS NOS DEIXAM A PENSAR…

‘Uma celebração vibrante sobre a amizade, a resiliência e o brilho que nasce quando temos a coragem de ser, simplesmente, nós próprios.’ ‘A maior arte é a de fazer os outros felizes.’ Quem, na tarde do dia 26 de abril, passasse na rua de Passos Manuel, ficaria surpreendido com a multidão sorridente que se apinhava nas imediações do Coliseu para assistir ao musical “Circo Maravilha’ que ia ser apresentado pela Academia de Música de Costa Cabral, uma escola artística, “com mais de 500 alunos”, que apresenta “as suas atividades no exterior através do desenvolvimento de parcerias junto de várias instituições tais como: Fundação Casa da Música, Câmara Municipal do Porto, Teatro Municipal do Porto (Rivoli e Campo Alegre), Faculdade de Engenharia do Porto, Museu Nacional Soares dos Reis, Fundação Eng.º António de Almeida, Fundação de Serralves, Coliseu do Porto, Banda Sinfónica Portuguesa, Igreja da Lapa, Santa Casa da Misericórdia do Porto, Junta de Freguesia de Paranhos, Fundação EDP, Câmara Municipal de Gondomar, Prémio Jovens Músicos da RTP, Fundação Calouste Gulbenkian, entre outros.” (Anuário da AMCC- 24/25-30 Anos) Essa alegria explodiu em palmas quando, na escuridão da sala lotada, se fez luz e som: luz, das lanternas de centenas de cantores; som, duma orquestra de jovens músicos. Antes, já o narrador concitara a atenção da assistência, indiciando o fio condutor do enredo: ‘Senhoras e Senhores, bem-vindos! Nem sei por onde começar… nunca pensei que esta seria uma história que valesse a pena contar… mas a vida dá cada volta, caro público! Falo da história de Phineas Taylor Barnum. Nasceu numa família humilde, filho de um alfaiate conhecido pela sua honestidade e pelo trabalho incansável ao serviço das famílias mais ricas da cidade. (...) Ele sentia que não pertencia àquele mundo, mas também não aceitava a ideia de que nunca poderia fazer parte dele’. Ao longo de cerca de duas horas, com cantores, atores e instrumentistas, ‘num mundo que dita regras sobre quem devemos ser, o Circo Maravilha, convidou-nos a olhar para o que nos torna únicos. P.T. Barnum, um visionário com o sonho de criar algo inovador, reúne um grupo de artistas extraordinários que, até então, viviam nas sombras. Juntos, descobrem que as suas particularidades não são limites, mas sim a sua maior força. Uma celebração vibrante sobre a amizade, a resiliência e o brilho que nasce quando temos a coragem de ser, simplesmente, nós próprios’. No final, o narrador, à maneira das fábulas gregas que sempre terminavam: ‘hó deloi hoti” (a fábula revela que…,), transmitiu-nos a ‘moral’ deste musical que nos interrogou e deixou a pensar… ‘Bem, caro público, estamos a chegar ao fim desta história. A história de um homem que cresceu pobre, sem nada, e que sempre ambicionou ter mais, muito mais. Mas o que é ter mais, caros amigos? É ter dinheiro? É a fama? É uma mansão? É ter as portas da alta sociedade abertas? O que é tudo isto, se não tivermos tempo para mais? Se não tivermos tempo para jantar com o amor da nossa vida? Se não tivermos tempo para brincar com os nossos filhos e vê-los crescer? Se não tivermos tempo para os nossos amigos? Barnum aprendeu da maneira mais difícil, caro público! E eu? Eu também aprendi algo novo. O que é ser diferente? Porque temos todos de ser iguais? Porque temos todos de viver vidas iguais? O mundo não seria mais bonito, se todos abraçassem as suas diferenças? E nós, público? O que descobrimos hoje? A vida e a arte! A vida, sim, caro público, a vida é o grande show! É o espetáculo que merece ser vivido a 100%, não, a 200%! Essa sim é a nossa missão! A arte… O que é a arte? Eu diria, senhoras e senhores, que a maior arte é a de fazer os outros felizes. Obrigada a todos pela vossa presença! E não se esqueçam, estamos sempre aqui para o grande show!’ A meu lado, alguém dizia: “Se fechasse os olhos, parecia-me que estava perante uma orquestra de profissionais e de atores muito traquejados.” (Fotografia) – Apoteose Final A alegria esfuziante do palco e a emocionada ovação da sala são parca recompensa para quem – alunos, professores, funcionários, diretores, técnicos – tanto trabalhou para nos oferecer este maravilhoso espetáculo, e minguados parabéns para os cantores, atores e instrumentistas que nos mimosearam com a sua arte. Sobra, porém, o mérito e sobeja o agradecimento. (3/6/2026)

sábado, maio 30, 2026

Rosalia – Um nome que sabe a poesia

“O momento mais aguardado da noite ficou reservado a Rosalia que encerrou o evento com uma atuação especial, perante milhares de pessoas nas margens do rio Guadalquivir. (JN, 11/05/2026) Este banho de multidão acontece em todos os seus concertos, como os que apresentou, em 8 e 9 de abril, no MEO Arena de Lisboa. Às pessoas da minha geração, o nome Rosalia traz-nos à memória a poeta que nasceu e morreu ’En las Orillas del Sar’ e que tanto diz ao ‘lirismo saudoso’ que une as duas bandas do rio Minho: Galiza e Portugal. “Vem a noite…, morre o dia. /Os sinos tocam longe/ O toque da Ave Maria. /Eles tocam pra que reze /Eu não rezo, que os suspiros /Afogando-me parece /Que por mim têm que rezar.” (Campanas de Bastabales) A notícia, porém, fala duma outra Rosalia, nascida, não na Galiza, mas na Catalunha. “uma personagem verdadeiramente luminosa em palco”. Esta citação tirei-a do texto, ‘Um furação chamado Rosalía’, assinado por Teresa Vasconcelos (7Margens, 8/05/2026), de que, com vénia, me faço eco. Há poesia na sua voz… “O amor pela poesia é evidente na sua música, passando por São João da Cruz, os Salmos, Hildegarda de Bingen.” “De Hildegarda de Bingen, Rosalía aprendeu que a música e o canto podem ser uma oração – como afirma Miguel Marujo.” E transcendência nos seus poemas. . “Também se pode interpretar La Yugular apenas como uma canção que demonstra a profundidade do amor, o desejo de se deixar consumir pelo amor, o amor que consegue encaixar o universo dentro dela própria, fazendo-a transcender-se para além das limitações terrestres (…) Não tenho dúvida de que se trata de uma canção bem espiritual em que Rosalía quer tocar o transcendente. E a metáfora da jugular pretende demonstrar a sua proximidade com Deus.” . Mesmo quando o título o não indicia, como no álbum, Sexo, Violência y Llantas… “Nesta canção, a artista debate-se com a aparente oposição entre terra e céu, deseja que não houvesse um solo e anseia apenas pelo equilíbrio, a santidade, a graça, a branca pureza. (…) O corpo é “vaso de graça”, a beleza terrena é um hino à criação, o pranto um caminho para a plenitude. As “coisas terrenas” podem ser geridas de forma “santa”, . “Numa entrevista anterior, Rosalía partilha as suas inquietações religiosas: ‘Deus é quem realmente preenche os espaços vazios da minha vida, sempre que eu tenha disposição para abrir-me a Ele.’ Em 2018, fez o Caminho de Santiago. Referindo-se à ligação entre a criação e a paz interior, Rosalía refere que ‘as monjas de clausura são cidadãs celestiais’. Confessa como vê a ligação entre o vazio e a divindade: ‘Se crias espaço, Alguém que está por cima de ti pode passar através de ti’. Uma belíssima formulação do Espírito de Deus. A transformação do seu verdadeiro eu em crescimento espiritual vem da dor e da beleza.” . O sentido da transcendência é muito explícito na última canção do disco, Magnolias em que “fala da morte simbolizada pelas magnólias. (…) Em Rosalía adivinha-se uma aceitação da mortalidade: Tirame magnólias/sobre mi ataúd (…) tirame magnólias/Dios descende/Y yo asciendo/ nos encontramos en el medio …” A confiança faz desaparecer o medo na certeza de que encontrará Deus que a espera a meio caminho.” . .A propósito de ‘Lux’, o seu último álbum que apresentou nos concertos de Lisboa… “Vi nas redes sociais Rosalía visitando e rezando na Abadia de Monserrate (Catalunha), encantando-se e comovendo-se às lágrimas com Virolai pela Escolanía, o coro residente com vozes de crianças. (…) Confrontou-se com os hinos marianos pelas vozes de rapazinhos e pergunto-me se essa não foi uma experiência fundadora, uma epifania para a sensibilidade religiosa de Rosalía que perpassa todo este novo disco.” “Interage numa canção com a Escolania de Monserrate. Vários críticos musicais afirmam que é o seu álbum mais espiritual. Sem conhecer toda a evolução musical de Rosalía, ouso afirmar que este é um álbum religioso, recheado de símbolos religiosos. (…) Uma das fotografias reproduz o posicionamento do Cristo de Salvador Dali inclinado sobre o mundo.” Dizia-me o meu neto Francisco, de 15 anos: “Eu até nem sou grande fã deste género de música, mas o ‘Lux’ encanta-me… Este magnífico texto bem merce ser lido na versão integral publicada em ‘7Margens’, um jornal digital com muito interesse para quem gosta de estar a par do que, verdadeiramente significativo, se passa na Igreja e no Mundo. Faz bem à alma… (27/5/2026)

terça-feira, maio 19, 2026

COMO É BOM CELEBRAR A VIDA!

Quando estamos com ‘velhos’ amigos, voltamos aos tempos da juventude. Meu filho dizia: ‘Gosto de estar nos convívios com os colegas do meu pai porque o vejo da minha idade’… A amizade faz esbater o tempo. Sentimo-nos jovens… Por isso, no passado dia 15, o Curso 1951-1963 voltou a reunir-se no seminário do Bom Pastor. A presença de um dos convivas fez-me recordar o email que recebi tempos atrás. “No dia…, o meu pai faz … anos e vamos fazer uma festinha! Seria possível o João fazer um pequeno vídeo, em representação dos colegas do seminário e enviar-me. Logo que possível seria o ideal para preparar uma pequena surpresa ao meu pai.” Um convite tão carinhoso não podia deixar-me indiferente. Em resposta, enviei-lhe um vídeo em que dizia: Olá amigo! Que bom! É com muita alegria que estou aqui a partilhar contigo a celebração da vida. Sabes, na nossa idade, muitas vezes ficamos tristes quando olhamos para trás e vemos o restolho da seara ceifada. Esquecemo-nos de olhar para o celeiro, ficar felizes e dar graças a Deus. E o teu celeiro, então, está bem cheio. - Cheio do carinho e do amor da tua família, da tua esposa e dos teus filhos. E ainda tens a alegria dos netos. Eu gosto de dizer que os netos são os rebuçados com que Deus nos adoça a vida; os raios de sol que aquecem o nosso entardecer. Andrés Torres Queiruga escreveu que os ‘netos são sacramento da presença viva de Deus’. Que feliz és tu por ter uma família que te ama. - Está cheio com o bem que foste fazendo ao longo da vida. Ainda há dias, um amigo que te conheceu na sua terra, me perguntava por ti e me falava do carinho que as pessoas tinham por ti e que, ainda hoje, és recordado com saudade. - E no teu celeiro estão também os amigos. Em nome dos teus colegas dos bancos do seminário, estou aqui a mandar-te esta mensagem. Tu sabes quanto nós te queremos e viste bem a alegria com que todos te acolheram na nossa última reunião de Curso, em outubro passado. E, por isso, em nome de todos te envio este abraço, um abraço de parabéns e de graças a Deus por Ele te ter posto nos nossos caminhos da vida. Este abraço é em meu nome e da minha esposa, mas também em nome de cada um dos colegas que ainda temos o prazer de nos vermos nas reuniões de Curso: Em nome deles, dou graças a Deus por ti, pedindo que continue a abençoar-te. Estes parabéns vão, também, para os teus familiares, tua esposa, teus filhos, teus netos. E não posso esquecer os teus pais pela vida que te transmitiram e pela educação que te deram. Quando um filho faz anos, as primeiras flores devem ser para os pais a quem se deve o mérito do nosso nascimento e não a nós que nada fizemos para isso. Merecemos parabéns, não por ter nascido, mas por aquilo que fizemos do dom que, graciosamente, nos foi dado. E vou deixar-te com uma bênção do nosso bom Papa Francisco que Deus tem. E que ele continue a abençoar-te. (Abaixei-me um pouco, e, por cima da minha cabeça, apareceu fotografia do Papa Francisco em gesto de bênção). (Fotografia) A terminar, gostaria de te dizer em jeito de brincadeira: ‘Amigo, aguenta-te aí porque nós precisamos de ti.’. Parabéns! Abraço! Saúde! E que a Paz esteja no teu lar, esteja em nós, esteja no Mundo. Um colega ao ler esta mensagem, disse-me: Quando eu fizer … anos, quero que me envies um vídeo assim… E uma amiga escreveu no WhatsApp: “Feliz é quem merece e recebe tais palavras. Bem-haja!”. Para quem as merece e não as tem, vão, também, as minhas palavras de louvor e gratidão pela vida. Alegremo-nos com o celeiro e não nos deixemos acabrunhar pelo restolho. Celebrar a vida é, em cada manhã, dar graças pelo dia que nasce e fazer render o talento que nos foi confiado. (Mt 25, 14) Como há tempos me disse o meu amigo psicanalista José Ferronha, estamos vivos e temos quem gosta de nós. O dia de aniversário é um tempo especial de graça e louvor. Como é bom poder celebrá-lo quando os anos se alongam e a memória se faz saudade.... (20/5/2026)

quarta-feira, maio 13, 2026

VAMOS CONHECER PORTUGAL – VII – UM REI EM FUGA…

Quando os vales rescendem a aromas primaveris e os montes se matizam de rosa e amarelo, um passeio pela Ribeira-Lima. Após a morte do Cardeal-Rei D. Henrique, um dos pretendentes ao trono, D. António, Prior do Crato, foi aclamado rei pelo povo, em Santarém (19/6/1580), mas nunca reinou, porque, derrotado por Filipe II de Espanha (25/8/1580) na batalha de Alcântara, teve que exilar-se. Paços e solares Recordo o que me disse o Conde de Almada: “Todas as casas senhoriais onde um rei pernoitou recebem a designação de paço. No caso de Lanheses, foi D. António, Prior do Crato. Na Ribeira-Lima, pode-se reconstituir o percurso da sua fuga para o exílio, seguindo os solares onde dormiu: Paço de Anha >Paço de Lanheses >Paço Vitorino >Paço Vedro >Espanha”. Lembro, ainda, os paços de Calheiros e o de Giela, o solar de Bertiandos, do século XVIII, formado por dois corpos separados por uma torre do século XVI; e a Torre de Refoios, do século XII, a mais antiga torre de defesa que se mantém como era no início. Em gesto de gratidão, quero realçar o Paço de Lanheses, cuja origem remonta século XVI, com uma palavra de apreço para D. Luís de Almada que, em 1987, sem nos conhecer, nele nos recebeu e encantou nossos filhos com a história dum assalto: “Numa 6ª feira, o Zé do Telhado, chefe duma temível quadrilha, pediu para falar com a senhora condessa e disse-lhe: “Ouvi dizer que a senhora condessa tem um diadema muito bonito. E eu vinha ver se mo emprestava para, no domingo, minha filha levar no seu casamento. Na 2.º feira, devolvo-o”. E ela, que remédio, logo lho cedeu. Mas a 2.ª feira passou, outros dias vieram e nada… Quando já o dava como perdido, o temido salteador veio entregá-lo, pedindo de desculpa pela demora. Só depois é que ela reparou que ele tinha mandado colocar um brilhante que, há muito, faltava no diadema. E concluiu: o Zé do Telhado também sabia agradecer.” Uma palavra, também, para a Senhora ‘Condessa-Viúva de Calheiros’ que, em 1989, nos recebeu com uma fidalguia que jamais esqueci; para sua neta Beatriz, então adolescente, que nos acompanhou. E, ainda, para a filha Ângela que, em 1990, guiou, na visita ao Paço, um grupo de professores da Escola EB2,3 de Rio Tinto. Mosteiros - Mosteiro de Bravães (Séc. XII) de que resta a igreja, uma obra prima do românico. No pórtico, profundamente recortado e rico de esculturas, sobressai o tímpano com Cristo em Majestade ladeado pelos Evangelistas, as arquivoltas e duas figuras humanas nos colunelos. (Fotografia) Pórtico da igreja de Bravães - Mosteiro de Refoios do Lima, fundado pelo Senhor da Torre de Refoios que o entregou ao Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Em 1987, a Câmara Municipal de Ponte de Lima ofereceu-o ao Instituto Politécnico de Viana do Castelo que aí instalou a Escola Superior Agrária. .- Mosteiro do Ermelo, resto dum antigo mosteiro beneditino - na encosta da aldeia do Soajo com um imponente grupo de espigueiros - em cuja igreja românica se venera o ‘São Bentinho’ de grande devoção popular. Pontes - A de Ponte de Lima ainda conserva sete arcos de origem romana, parcialmente encobertos, na margem direita, e 15 arcos, ogivais, dois deles atualmente soterrados. - A de Ponte da Barca, gótica e manuelina, de 10 arcos, com origem no século XV. Aqui, prestamos homenagem aos irmãos poetas Diogo Bernardes e frei Agostinho da Cruz (séc XVI/XVII). E vamos ouvir as sonoridades do rio Vade, junto do ‘Moinho’, o restaurante, dizem, da melhor lampreia tanto mais rija quanto mais longe da foz. Lindoso. O passeio termina no Lindoso, nome mítico da minha infância. Quando a eletricidade faltava, muitas vezes ouvi dizer: - A avaria vai ser demorada, foi no Lindoso. Ao passar em Paradamonte, visitamos o ‘embalse’ da velha central elétrica inaugurada em 1922 Na aldeia, merecem relevo o seu castelo roqueiro, com origens no séc. XIII, e os 50 espigueiros de granito, o maior aglomerado do país, construídos nos séculos XVII e XVIII. No ‘Dia da Mãe’, meus pensamentos vaguearam pelo verde moço destes vales que nos embala no canto primaveril das aves, quando, na Sala Suggia, a Banda Sinfónica Portuguesa, com música de Alfred Reed, vestiu de sons os versos: ‘Quando os cães da primavera seguem o rasto do inverno, / A mãe dos meses no prado ou na planície /Enche as sombras e os lugares ventosos/ Com o sussurro das folhas e o murmúrio da chuva.” (13/5/2026)