O BISPO VENERÁVEL QUE O PORTO NÃO ESQUECE
Minha mãe falava do ‘bispo de barbas brancas (do missionário que sempre foi) que era um santo”; D. Deolinda Silva recordava o ‘bispo dos pobres’.
Em 1937, com a inauguração do Monumento à Imaculada, a sua efígie foi colocada na face ocidental a lembrar que, em 1905, benzeu a sua ‘pedra fundante’.
(Fotografia) –Monumento à Imaculada (Pormenor)
Em 1954, no centenário do seu nascimento, D. António Ferreira Gomes considerou-o da estirpe ‘dos Assis, dos Xavieres e dos Britos’.
Em 1999, no centenário da sua entrada no Porto, D. Armindo inaugurou o monumento, obra do escultor José Rodrigues, que se ergue junto à Associação de Proteção à Infância – ainda em plena atividade - por ele criada em 1903.
A toponímia honra-o em ruas do Porto (Cedofeita), de Valongo (Ermesinde), Gondomar (Baguim), Maia (Águas Santas), Paredes (Parada de Todeia). Se outras houver, agradeço o favor de me informarem.
Em 2011, no centenário do seu primeiro exílio, a Voz Portucalense organizou uma romagem a Remelhe, presidida por D. Manuel Clemente, com a presença de D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga.
Em 2012, a mesma fundação promoveu nova romagem, presidida por D. Pio Alves, para descerrar uma lápide na capela de Santiago, a recordar o centenário das primeiras ordenações que ele realizou nessa capela de Remelhe, a ‘Catedral do Porto no Exílio’.
Nos ‘Dia da Voz Portucalense’, entre 2010 e 20217, sempre se rezou pela sua beatificação. Os Bispos – D. Manuel Clemente, D. João Lavrador, D. António Francisco - presidiram com a mitra e o báculo de D. António Barroso. Os dois últimos, os únicos fora da Catedral, realizaram-se, o primeiro em 2016, em S. Ildefonso a assinalar a igreja onde se iniciou o cortejo litúrgico que o conduziu à Sé, na sua entrada na Diocese. O último, em 2017, foi no Monte da Virgem, o santuário que D. António Barroso abençoou e muitas vezes rezou e onde a sua memória se perpetua no Monumento à Imaculada.
Em 2017, no ‘Dia de S. Francisco de Sales’, após uma palestra na capela dos Alfaiates, fez-se uma romagem ao monumento de D. António Barroso que culminou numa visita às instalações da Associação de Proteção à Infância, símbolo vivo do seu cuidado com os pobres.
Este meu rebobinar da memória foi motivado por uma carta do arquiteto Duarte Pinto, publicada no último número do Boletim do Venerável D. António Barroso, que transcreve um artigo publicado no Brasil, em 1911, e assinado por ‘João do Porto’.
Dado o seu valor documental, é, com vénia, que dele faço eco,
“Portugal - a perseguição religiosa (1)
(…) A perseguição que se está fazendo ao virtuoso prelado Dom António Barroso é de causar a maior indignação a todos os espíritos liberais.
O ilustre Bispo do Porto é a honra do Episcopado português. Não há quem aponte uma falha no seu carácter inteiriço.
Homem de princípios austeros, de variada e profunda ilustração, exercendo o sacerdócio por amor, D. António Barroso nunca teve um desafecto, nunca encontrou quem se atrevesse a censurar os seus atos, pois sempre os pautou pela mais inteira justiça pela mais flagrante verdade. O seu palácio nunca se fechou. Pobres e ricos tinham entrada franca e acesso livre até junto do virtuoso prelado, sempre pronto a atender os que se lhe dirigiam, socorrendo os que necessitavam de conforto ou auxilio.
Um prelado desta têmpera não podia ter desafectos. O Porto adora-o e o povo, quando a ele se refere, chama-o – O Santo.
Pois, foi a um sacerdote deste estofo que o célebre Afonso Costa entendeu dever perseguir e arbitrariamente destituir de um cargo que não lhe deu e que não pode tirar.
Não há em Portugal um homem de honra capaz de fazer a mais leve acusação ao caracter de D. António Barroso. Só mesmo o Sr. Afonso Costa podia ter a coragem de expor às iras da carbonaria açulada pelo governicho de Lisboa. Mas há de arrepender-se de tantas violências.
D. António Barroso poderá não protestar contra a violência de que está sendo vítima, porque é profundamente religioso e bom; mas o povo do Porto há de fazer pagar caro tais afrontas. (…)
João do Porto - NOTA: 1 - Jornal do Brasil, 9.03.1911, p. 10.
O nome do autor confirma que, mesmo em terras do Além-Atlântico, as gentes do Porto não esqueciam o ‘santo bispo dos Pobres’ e se indignavam com a perseguição de Afonso Costa que o condenou a dois exílios, primeiro em Remelhe (1911) e depois em Coimbra (1917). (16/9/2026)