ENTRE O CÉU E A TERRA… – II
Em continuação…
No último dia do ano, fomos percorrer a Via Sacra do Calvário Húngaro. Numa manhã linda que me fez lembrar o encontro de Melquisedec, ‘sacerdote do Deus Altíssimo’ - O Deus da Criação - com Abraão, a quem Javé se manifestara – O Deus da Revelação (Gn 14, 17)
O Deus da Criação estava no esplendor do amanhecer. O sol revia-se, suave, nas gotículas de orvalho e os passarinhos cantavam loas ao Criador.
O Deus da Revelação estava ali bem perto naquele condenado à morte na cruz (1.ª Estação): “No princípio era a Palavra… E a Palavra era Deus… E a Palavra fez-se carne e estabeleceu a tenda entre nós” (Jo 1, 1-18)
Lembrei, então, os muitos amigos que, em tempos idos, percorreram comigo esta Via Sacra, a maioria dos quais já está junto do Pai. E foi com eles no coração – quantos nomes e quantos rostos – que procurámos encarnar na nossa vida a contemplação dos ‘Passos do Senhor’.
Apenas algumas reflexões…
Na 4 estação, demos conta que o encontro de Jesus com a Mãe foi o seu primeiro momento de ternura e alívio. As mães são sempre as primeiras…. Demos graças pelas nossas e pelas mães do mundo inteiro. E pensámos na dor das mães do Sudão, de Gaza e da Ucrânia…
Na 5.ª estação, lembrámos os cireneus que nos ajudaram a carregar as nossas cruzes. Como é bom, nessas horas, sentir a mão de alguém…Rezámos por quem se dedica a aliviar as dores alheias. E pela nossa mente, passaram, entre outros, os doentes, os sem-abrigo, os presos, os idosos solitários, os imigrantes e os refugiados…
Na 6.ª estação, ao ver os traços do rosto de Jesus no lenço de Verónica, demos graças por todos os que marcaram a nossa vida, com relevo para os professores. - E nós, que sinais deixamos? Bons? Maus? Por uns, demos graças; pelos outros, pedimos perdão.
Na 8.ª estação, rezámos pelos cristãos da ‘Igreja que sofre’, pelos missionários e pelos colaboradores das ONGs que se dedicam a levar consolo às populações em sofrimento, especial em situações de fome e de guerra.
Na 12.ª estação, ao ouvirmos ‘Tudo está consumado’ (Jo. 19,30), pedimos forças para vermos, na doença que nos entrou em casa, o que falta à paixão de Jesus (Col 1, 24).
Nas duas últimas estações, dissemos: - ‘Ó Jesus, tua Mãe acolheu-Te em seu regaço. Já não teremos essa sorte… Um de nós, ainda poderá contar com o braço do outro… E aquele que ficar na dor da ausência?... Sim. Nós sabemos e agradecemos-Te os que nos irão acolher... E foi de mãos dadas e coração enternecido que rezámos o Pai Nosso, com uma breve pausa em ‘Seja feita a vossa vontade.’…
De tarde, satisfazendo a intenção formulada na 6.ª estação da Via Sacra, fomos visitar D. Serafim Ferreira e Silva, bispo Emérito de Leiria-Fátima, meu professor de teologia, o único na Igreja peregrina. E foi um amigo sorridente que nos acolheu, sempre atento aos pequenos pormenores da gentileza. Quando me levantei para o cumprimentar, disse-me: - Espera aí, primeiro esta princesa que continua bonita. E dirigiu-se à minha esposa que, devido a debilidades físicas, permanecia sentada, a quem saudou com um beijo. Depois, veio um abraço caloroso para mim. A mesma proximidade e o mesmo carinho que nos cativou. Começámos por falar da Via Sacra e da Voz Portucalense de que foi ilustre diretor. Recordei que, então e a seu pedido, íamos, ao sábado, entregar a VP a várias paróquias. Foi uma conversa longa pejada de referências à família, com fotografias dos netos à mistura. Ficamos de alma cheia. Que bom é ter professores assim…
Felizes, a caminho do hotel passámos pela capelinha das Aparições para agradecer esta dádiva de final de ano.
A nossa peregrinação terminou na Eucaristia das 11h00 do dia 1 de janeiro, na basílica da Santíssima Trindade, em que louvámos a Virgem Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Homens.
“Então Jesus ao ver a Mãe e, próximo, o discípulo que amava, disse à Mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. Depois, disse ao discípulo: ’Eis a tua Mãe’. E, a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a entre os seus.” (Jo 19, 26)
(Fotografia – capa do CD ‘Ecce Mater Tua’, do Coro Gregoriano do Porto)
Termino com o conselho de Zorbás: “Se pegares numa lupa para veres a água que bebemos, encontras a água cheia de bichinhos muito pequeninos, que não se veem à vista desarmada. E depois de veres s bichinhos, já não bebes. Não bebes e morres à sede. Quebra a lupa, quebra a maldita lupa, os bichinhos desaparecem e bebes a água que te mata a sede!” Nikos Kazantzakis, A vida e andanças de Alexis Zorbás, pág. 159 - 1/4/2026)
