'MARIA - A ÁRVORE DA LUZ' E DA ESPERANÇA
Quando assisto a um concerto numa igreja, sempre admito a possibilidade de surgirem composições com temática cristã. Não assim, na Casa da Música. E, no entanto, foi o que aconteceu no concerto ‘Quadros de uma exposição’, de Modest Mussorgski, com orquestração de Maurice Ravel.
Ao ler a ‘Folha de Sala’, vi que a 1.ª parte era preenchida por três obras de autores contemporâneos. Fiquei surpreendido com a primeira dessas composições: ‘Mary/Transcendence after Trauma’, 2020-21, de Lisa Lim, com cinco secções: I. Natureza-morta com feto e anjo; IIa. Ouve, ó Mar; IIb. Ouve, ó Terra; IIc. Ouve, ó grande cinturão da terra, margem de mar; III. O seu consentimento selvagem; IV. As estrelas caem sobre a terra; V. Maria – Árvore da Vida
E foi com extrema curiosidade que li as palavras da compositora australiana, de origem chinesa, que, aqui, transcrevo:
“A história bíblica da Anunciação narra a visita do Anjo Gabriel a Maria. Ele chama-a pelo nome e anuncia que ela dará à luz Cristo:
Maria responde: ‘Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38).”
“A obra aborda vários aspetos da escuta. No início, tudo é ouvido na perspetiva de Maria: ela ouve o batimento cardíaco fetal e um canto amniótico vindo das profundezas do seu corpo; sente a chegada do Anjo como uma auréola sonora avassaladora. Nesta peça, esta experiência sensorial multifacetada da audição reflete-se também na citação dum fragmento de canto gregoriano ‘Audi Pontus’ que remete para o livro do Apocalipse (,6,2-13) e para as suas profecias de catástrofe. Associei essas visões ao imaginário de Maria do Drama da Paixão – um futuro de espinhos, cinzas e lágrimas. Este Latim, com a sua exortação a todos os cantos da terra e do mar para ‘Ouvir’ uma mensagem de colapso cósmico em que ‘as estrelas caem sobre a terra’ serve de prefácio à segunda e quarta partes da peça.”
Ouve, ó mar; ouve, ó terra; ouve, ó grande cinturão da terra na margem do mar; ouve, ó homem; ouve, tudo o que vive sob o sol. -Está próximo, chegará vede, eis que o dia já chegou. Esse dia, esse dia odiado, esse dia amargo em que o céu fugirá, o sol enrubescerá, a lua será posta em fuga, as estrelas cairão sobre a terra. Ai, miserável, ai miserável, ai, porquê, ó homem, persegues a falsa alegria?
“Em contraponto a esta melancolia, um ponto de referência mais luminoso para mim é a pintura iridescente da Anunciação de Fra Angelico, criada para o retábulo de Cortona (1433-34), que inscreve o diálogo de Maria e o Anjo em letras douradas. Podemos ler as palavras do Anjo, mas temos de inverter o nosso olhar para decifrar a fala de Maria, escrita ao contrário e de cabeça para baixo, como se estivesse endereçada a um poder divino que olha de cima.”
“Estes textos e representações exotéricos convocam também os nossos tempos. Ao debater-me com esta história, procurei um ponto de vista invertido para pensar o poder espiritual, seguindo a pista dada pela representação de Fra Angelico. Concentrei-me no elemento humano expresso no consentimento de Maria, proferido perante um anúncio aterrador e em confronto direto com uma mensagem de encarnação quase inacreditável.”
“Na minha peça, Maria profere a sua verdade ou a sua própria anunciação numa secção intitulada ‘o seu consentimento selvagem’. A secção final, ‘Maria’ – Árvore da Luz’ fala de uma transmutação. Para além da extinção das estrelas há iluminação. Do trauma de uma mulher emerge um perdão tão imenso que tem o poder de alterar o próprio tecido do mundo.” (13/12/2025)
Quando assisto a um concerto, deixo-me levar pela emoção estética e viajo pelas paisagens interiores que a música me vai sugerindo. Neste concerto, por entre nuvens apocalíticas que pesam sobre o Mundo– ‘Audi Pontus’,- brilharam raios de esperança da 1.ª Leitura desse domingo do Advento:
“Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. (…) Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos”.( Is 35,1-6a.10)
“Há uma pedagogia da escuta que nos falta” (Tolentino Mendonça, Para os caminhantes tudo é caminho)
“Este é o meu Filho muito amado: Escutai-o! -Mc 9,7” (21/1/2026)
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