ENTRE O CÉU E A TERRA…- I
Remonta aos tempos de estudante, o costume de terminar o ano com um dia de oração, quando eu e meu primo Manuel Joaquim íamos a Sobrado confessar-nos ao P. Agostinho Freitas, nosso diretor espiritual, nas férias. E, mais tarde, ganhou corpo na Eucaristia da meia noite, na ‘Passagem de Ano’. de que lembro a de 1967- 68 que foi presidida por D. Florentino, na recém-inaugurada (1/11/1966) capela do bairro do Cerco do Porto.
O final do ano passado foi em Fátima com minha esposa. A peregrinação começou, no dia 30, ainda no quarto do hotel, ao ler o desdobrável que me foi entregue no momento do ‘check in’:
“A 13 de maio de 1917, três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria. Chamavam-se Lúcia de Jesus, de 10 anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus primos, de 9 e 7 anos.
Por volta do meio dia, depois de rezarem o terço, como habitualmente faziam, entretinham-se a construir uma paredita de pedras soltas, no local onde hoje se encontra a Basílica (de Nossa Senhora do Rosário). De repente, viram uma luz brilhante, julgando ser um relâmpago, decidiram ir-se embora, mas, logo abaixo, outro relâmpago iluminou o espaço e viram em cima de uma pequena azinheira (onde agora se encontra a Capelinha das Aparições) uma Senhora mais brilhante que o Sol, de cujas mãos pendia um terço.”
Quando aqui venho, procuro revestir-me da fé de minha mãe, desarmado de formulações teológicas. Basta-me a palavra do Magistério da Igreja para aceitar Fátima como um fenómeno que, embora não sendo dogma, é digno de crédito.
E lembro que os últimos papas reforçaram com a sua presença a autenticidade da sua mensagem, a começar em João XXIII que, em “1956, então cardeal Roncalli, Patriarca de Veneza, presidiu às cerimónias da peregrinação aniversária”; em 1967, Paulo VI, deslocou-se a Fátima no cinquentenário da 1.ª Aparição; em 10 de julho de 1977, o futuro papa João Paulo I, Cardeal Luciani, Patriarca de Veneza, esteve aqui em peregrinação; João Paulo II rezou três vezes em Fátima (13/5/1982, 13/5/1991 e 12-13 / 2000); Bento XVI visitou Fátima em 12-13 de maio de 2010; Francisco esteve no centenário das Aparições - canonização de Francisco e Jacinta (12-13/5/2017) e aquando da Jornada Mundial da Juventude (5/8/2023). E o Papa Leão XIV, em novembro passado já manifestou o desejo de visitar Fátima.
Munido destes sentimentos, descemos à Capela da Reconciliação para um momento de silêncio, introspeção e perdão. Uma ação, como alguém diz por graça, de lavagem, revisão, e recauchutagem’…
Depois, sentei-me no murete do recinto e solidarizei-me com três rapazes que, de joelhos, desciam para a Capelinha. E, especialmente, com uma jovem, também de joelhos, com uma criancita ao colo. Por grande sofrimento passaram e grande alegria tiveram, pensei…
Às 18h30, na capelinha das Aparições, senti a presença de irmãos de outras culturas e línguas que partilhavam comigo a oração do Terço. Se na capela da Reconciliação, mergulhei na minha intimidade, aqui vivenciei a universalidade do ser católico.
Fotografia . Capelinha das Aparições
Após o jantar, na semi-escuridão dum recinto vazio, revisitei o meu passado e recordei as peregrinações, organizadas pelo senhor Castro, em que participei, na década de setenta. Eram, no mínimo, dez autocarros.
Na viagem, rezávamos três terços em simultâneo em todas as camionetas para vincar o caráter comunitário da peregrinação. Quando faltavam cinco quilómetros, quem podia era convidado a fazer o restante percurso a pé e em silêncio meditativo. Juntávamo-nos na ‘Cruz Alta’ e descíamos em oração silenciosa até à ‘Capelinha’. Depois, os peregrinos ficavam livres para as suas devoções pessoais.
No domingo, reuníamos, bem cedo, no início da Via Sacra do Calvário Húngaro que percorríamos, em silêncio orante apenas entrecortado, em cada ‘estação’ pela reflexão, pela oração coletiva e cânticos penitenciais. Nos Valinhos, venerávamos Nossa Senhora que aí apareceu (19/8/1917). E terminava na capela do Calvário. A Via Sacra era o momento culminante da nossa vivência comunitária. De seguida, descíamos até à ‘Loca do Cabeço’ onde os pastorinhos receberam a primeira e a terceira visita do ‘Anjo da Paz’ (primavera e outono de 1916) e descíamos para o ‘Poço’ ao fundo do quintal da casa da Lúcia onde o Anjo apareceu, no verão de 1916. A partir daqui, cada um organizava o seu tempo, de modo a poder participar na Eucaristia do santuário.
Após este breve roteiro pela memória, fomos descansar que outro dia nos esperava…(25/3/2026)
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