VAMOS CONHECER PORTUGAL – VII – UM REI EM FUGA…
Quando os vales rescendem a aromas primaveris e os montes se matizam de rosa e amarelo, um passeio pela Ribeira-Lima.
Após a morte do Cardeal-Rei D. Henrique, um dos pretendentes ao trono, D. António, Prior do Crato, foi aclamado rei pelo povo, em Santarém (19/6/1580), mas nunca reinou, porque, derrotado por Filipe II de Espanha (25/8/1580) na batalha de Alcântara, teve que exilar-se.
Paços e solares
Recordo o que me disse o Conde de Almada: “Todas as casas senhoriais onde um rei pernoitou recebem a designação de paço. No caso de Lanheses, foi D. António, Prior do Crato. Na Ribeira-Lima, pode-se reconstituir o percurso da sua fuga para o exílio, seguindo os solares onde dormiu: Paço de Anha >Paço de Lanheses >Paço Vitorino >Paço Vedro >Espanha”.
Lembro, ainda, os paços de Calheiros e o de Giela, o solar de Bertiandos, do século XVIII, formado por dois corpos separados por uma torre do século XVI; e a Torre de Refoios, do século XII, a mais antiga torre de defesa que se mantém como era no início.
Em gesto de gratidão, quero realçar o Paço de Lanheses, cuja origem remonta século XVI, com uma palavra de apreço para D. Luís de Almada que, em 1987, sem nos conhecer, nele nos recebeu e encantou nossos filhos com a história dum assalto:
“Numa 6ª feira, o Zé do Telhado, chefe duma temível quadrilha, pediu para falar com a senhora condessa e disse-lhe: “Ouvi dizer que a senhora condessa tem um diadema muito bonito. E eu vinha ver se mo emprestava para, no domingo, minha filha levar no seu casamento. Na 2.º feira, devolvo-o”.
E ela, que remédio, logo lho cedeu. Mas a 2.ª feira passou, outros dias vieram e nada… Quando já o dava como perdido, o temido salteador veio entregá-lo, pedindo de desculpa pela demora. Só depois é que ela reparou que ele tinha mandado colocar um brilhante que, há muito, faltava no diadema. E concluiu: o Zé do Telhado também sabia agradecer.”
Uma palavra, também, para a Senhora ‘Condessa-Viúva de Calheiros’ que, em 1989, nos recebeu com uma fidalguia que jamais esqueci; para sua neta Beatriz, então adolescente, que nos acompanhou. E, ainda, para a filha Ângela que, em 1990, guiou, na visita ao Paço, um grupo de professores da Escola EB2,3 de Rio Tinto.
Mosteiros
- Mosteiro de Bravães (Séc. XII) de que resta a igreja, uma obra prima do românico. No pórtico, profundamente recortado e rico de esculturas, sobressai o tímpano com Cristo em Majestade ladeado pelos Evangelistas, as arquivoltas e duas figuras humanas nos colunelos.
(Fotografia) Pórtico da igreja de Bravães
- Mosteiro de Refoios do Lima, fundado pelo Senhor da Torre de Refoios que o entregou ao Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Em 1987, a Câmara Municipal de Ponte de Lima ofereceu-o ao Instituto Politécnico de Viana do Castelo que aí instalou a Escola Superior Agrária.
.- Mosteiro do Ermelo, resto dum antigo mosteiro beneditino - na encosta da aldeia do Soajo com um imponente grupo de espigueiros - em cuja igreja românica se venera o ‘São Bentinho’ de grande devoção popular.
Pontes
- A de Ponte de Lima ainda conserva sete arcos de origem romana, parcialmente encobertos, na margem direita, e 15 arcos, ogivais, dois deles atualmente soterrados.
- A de Ponte da Barca, gótica e manuelina, de 10 arcos, com origem no século XV. Aqui, prestamos homenagem aos irmãos poetas Diogo Bernardes e frei Agostinho da Cruz (séc XVI/XVII). E vamos ouvir as sonoridades do rio Vade, junto do ‘Moinho’, o restaurante, dizem, da melhor lampreia tanto mais rija quanto mais longe da foz.
Lindoso.
O passeio termina no Lindoso, nome mítico da minha infância. Quando a eletricidade faltava, muitas vezes ouvi dizer: - A avaria vai ser demorada, foi no Lindoso.
Ao passar em Paradamonte, visitamos o ‘embalse’ da velha central elétrica inaugurada em 1922
Na aldeia, merecem relevo o seu castelo roqueiro, com origens no séc. XIII, e os 50 espigueiros de granito, o maior aglomerado do país, construídos nos séculos XVII e XVIII.
No ‘Dia da Mãe’, meus pensamentos vaguearam pelo verde moço destes vales que nos embala no canto primaveril das aves, quando, na Sala Suggia, a Banda Sinfónica Portuguesa, com música de Alfred Reed, vestiu de sons os versos:
‘Quando os cães da primavera seguem o rasto do inverno, / A mãe dos meses no prado ou na planície /Enche as sombras e os lugares ventosos/ Com o sussurro das folhas e o murmúrio da chuva.” (13/5/2026)
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