Rosalia – Um nome que sabe a poesia
“O momento mais aguardado da noite ficou reservado a Rosalia que encerrou o evento com uma atuação especial, perante milhares de pessoas nas margens do rio Guadalquivir. (JN, 11/05/2026) Este banho de multidão acontece em todos os seus concertos, como os que apresentou, em 8 e 9 de abril, no MEO Arena de Lisboa.
Às pessoas da minha geração, o nome Rosalia traz-nos à memória a poeta que nasceu e morreu ’En las Orillas del Sar’ e que tanto diz ao ‘lirismo saudoso’ que une as duas bandas do rio Minho: Galiza e Portugal.
“Vem a noite…, morre o dia. /Os sinos tocam longe/ O toque da Ave Maria. /Eles tocam pra que reze /Eu não rezo, que os suspiros /Afogando-me parece /Que por mim têm que rezar.” (Campanas de Bastabales)
A notícia, porém, fala duma outra Rosalia, nascida, não na Galiza, mas na Catalunha. “uma personagem verdadeiramente luminosa em palco”. Esta citação tirei-a do texto, ‘Um furação chamado Rosalía’, assinado por Teresa Vasconcelos (7Margens, 8/05/2026), de que, com vénia, me faço eco.
Há poesia na sua voz…
“O amor pela poesia é evidente na sua música, passando por São João da Cruz, os Salmos, Hildegarda de Bingen.” “De Hildegarda de Bingen, Rosalía aprendeu que a música e o canto podem ser uma oração – como afirma Miguel Marujo.”
E transcendência nos seus poemas.
. “Também se pode interpretar La Yugular apenas como uma canção que demonstra a profundidade do amor, o desejo de se deixar consumir pelo amor, o amor que consegue encaixar o universo dentro dela própria, fazendo-a transcender-se para além das limitações terrestres (…) Não tenho dúvida de que se trata de uma canção bem espiritual em que Rosalía quer tocar o transcendente. E a metáfora da jugular pretende demonstrar a sua proximidade com Deus.”
. Mesmo quando o título o não indicia, como no álbum, Sexo, Violência y Llantas…
“Nesta canção, a artista debate-se com a aparente oposição entre terra e céu, deseja que não houvesse um solo e anseia apenas pelo equilíbrio, a santidade, a graça, a branca pureza. (…) O corpo é “vaso de graça”, a beleza terrena é um hino à criação, o pranto um caminho para a plenitude. As “coisas terrenas” podem ser geridas de forma “santa”,
. “Numa entrevista anterior, Rosalía partilha as suas inquietações religiosas:
‘Deus é quem realmente preenche os espaços vazios da minha vida, sempre que eu tenha disposição para abrir-me a Ele.’
Em 2018, fez o Caminho de Santiago. Referindo-se à ligação entre a criação e a paz interior, Rosalía refere que ‘as monjas de clausura são cidadãs celestiais’. Confessa como vê a ligação entre o vazio e a divindade:
‘Se crias espaço, Alguém que está por cima de ti pode passar através de ti’.
Uma belíssima formulação do Espírito de Deus. A transformação do seu verdadeiro eu em crescimento espiritual vem da dor e da beleza.”
. O sentido da transcendência é muito explícito na última canção do disco, Magnolias em que “fala da morte simbolizada pelas magnólias. (…) Em Rosalía adivinha-se uma aceitação da mortalidade:
Tirame magnólias/sobre mi ataúd (…) tirame magnólias/Dios descende/Y yo asciendo/ nos encontramos en el medio …”
A confiança faz desaparecer o medo na certeza de que encontrará Deus que a espera a meio caminho.”
. .A propósito de ‘Lux’, o seu último álbum que apresentou nos concertos de Lisboa…
“Vi nas redes sociais Rosalía visitando e rezando na Abadia de Monserrate (Catalunha), encantando-se e comovendo-se às lágrimas com Virolai pela Escolanía, o coro residente com vozes de crianças. (…) Confrontou-se com os hinos marianos pelas vozes de rapazinhos e pergunto-me se essa não foi uma experiência fundadora, uma epifania para a sensibilidade religiosa de Rosalía que perpassa todo este novo disco.”
“Interage numa canção com a Escolania de Monserrate. Vários críticos musicais afirmam que é o seu álbum mais espiritual. Sem conhecer toda a evolução musical de Rosalía, ouso afirmar que este é um álbum religioso, recheado de símbolos religiosos. (…) Uma das fotografias reproduz o posicionamento do Cristo de Salvador Dali inclinado sobre o mundo.”
Dizia-me o meu neto Francisco, de 15 anos: “Eu até nem sou grande fã deste género de música, mas o ‘Lux’ encanta-me…
Este magnífico texto bem merce ser lido na versão integral publicada em ‘7Margens’, um jornal digital com muito interesse para quem gosta de estar a par do que, verdadeiramente significativo, se passa na Igreja e no Mundo. Faz bem à alma… (27/5/2026)

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