VAMOS CONHECER A NOSSA TERRA – VIII – DO RIO À SERRA…
Quando a paisagem se tinge de outono…
Este passeio leva-nos até ao rio Teixeira que separa os concelhos de Baião e Mesão Frio, os distritos do Porto e Vila Real, as províncias do Douro Litoral e Trás-os-Montes, as regiões dos vinhos verde e maduro.
Iniciamo-lo nas margens do Douro com a fragrância dos laranjais da Pala, em parte submersos pela albufeira do Carrapatelo. Subimos até ao Mosteiro de Ancede (séc. XII) onde, em 2023, a Câmara instalou o Centro Cultural de Baião. A capela do Senhor do Bom Despacho (séc. XVIII), surpreende-nos pelo seu esplendor barroco.
(Fotografia – 8/4/26)
A subida continua… Paramos junto da ponte medieval de Esmoriz, sobre o rio Ovil. Continuamos até Campelo, sede do concelho, onde não podemos deixar de comer o saboroso e aromático anho, assado no forno a lenha sobre o alguidar de arroz – Eu sei onde o há bom… - e apreciar o ‘verde’ - com miúdos de carneiro – mais conhecido por ‘bazulaque’- palavra de origem árabe que quer dizer ‘comida para esperar’ – que, nos casamentos, era servido na casa da noiva aos convidados antes de irem para a igreja e assim já aguentavam até ao almoço. As viagens eram a pé…
A subida prossegue até aos monumentos funerários neolíticos da Serra da Aboboreira (Vº e o IV.º milénio a. C.). Após uma paragem no miradouro de Nª Sª da Guia, descemos ao vale do rio Ovil e seguimos até ao santuário de Nª Sª do Martírio já em Santa Cruz do Douro. Paramos no adro e extasiamo-nos com a paisagem que desce ate ao Douro, sobe pelas encostas do Montemuro e Eça de Queirós tão bem descreve em ‘ A Cidade e as Serras’.. Lemos:
“Com que brilho e inspiração a compusera o divino Artista que faz as serras e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, dum verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiro ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. (…) Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres. (…) Por toda a parte, a água sussurrante, a água fecundante… espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos (…); grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra, fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos, e muita fonte, posta à beira de veredas, jorrava por uma bica, beneficamente à espera dos homens e dos gados. (…) Nos cerros remotos por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma e na alma espelhava alegria e força.”
Emocionados por tão bela descrição, descemos até ao cemitério onde, antes de serem transferidos para o Panteão Nacional, jaziam os restos mortais do seu autor- E, para conhecer melhor a sua vida e obra, vamos visitar o velho solar de Tormes, hoje sede da Fundação Eça de Queiroz.
Subimos, de seguida, até à igreja de Valadares, românica (séc. XIII), e admiramos os frescos da capela-mor, recentemente descobertos, com cenas hagiográficas e da vida de Jesus. Continuamos viagem e, em Santa Marinha do Zêzere, lembro os amigos seus naturais e a presença do Coro Gregoriano do Porto na Eucaristia presidida por D. Manuel Martins (2002) e no concerto em memória do Professor Orlando de Carvalho, por convite da Câmara Municipal (2015).
Em Gestaçô – famosa pelas suas bengalas – lembro o seu pároco, P. Ramos condiscípulo de D. Serafim e de D. Armindo, e prestamos homenagem a Soeiro Pereira Gomes, seu natural, cujo livro ‘Os Esteiros’ descreve, de forma extraordinária, uma cheia na lezíria ribatejana.
Ao passar na Teixeira, não posso deixar de evocar a memória do P. Augusto a quem, carinhosamente, chamávamos ‘o Bispo da Teixeira’. Na igreja, recordo a grande festa das suas ‘bodas de ouro paroquiais’ em Teixeira e Teixeiró, em que, por seu convite, participei com minha esposa e filhos.
A partir do Alto de Quintela, subimos até à capela da Senhora da Serra, do Marão, com romaria anual no 1.º domingo a seguir ao S. Pedro. O passeio termina a 1416 metros, a altitude inscrita no marco geodésico. E o olhar alonga-se pelas lonjuras transmontanas… (VP, 14/10/2026)
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