NUMA MÃO, A CRUZ; NA OUTRA, A ENXADA
Quando passam 108 anos sobre a sua morte, lembro o lema missionário de D. António Barroso bem presente no monumento que, em 20 de outubro de 2019, foi inaugurado junto do Colégio das Missões, em Cernache de Bonjardim.
(Fotografia) A Cruz e a Enxada
Para fazer memória das agruras do seu serviço missionário em terras africanas, recorro, com vénia, ao texto “As Grandes Viagens do Bispo Missionário – III – Visita Pastoral a Manica e Sofala (16-08-1892) - que o Dr. Amadeu Araújo publicou no número de Janeiro/Março de 2026, do Boletim do Venerável D. António Barroso.
“Foi de barco que partiu para esta viagem, indo até Inhambane, onde começou por uma visita ao pároco. Subiu depois, até à Beira, ainda de barco, e dali partiu para o interior, por terras de Sofala, Manica e Gorongosa, fazendo mais de mil quilómetros em tenda de campanha, quase sempre por serras e vales de rios. Por ali andou, de meados de Agosto daquele ano de 1892, até fins de Outubro. Observou e estudou com particular atenção o planalto de Manica, pois pretendia escolher naquela zona um local com abundância de água e solo fértil, para instalar uma Missão.
Tal como a anterior, também esta era uma visita pastoral e uma viagem de estudo. Começou por subir o rio Púnguè, no Tungue, barco que rebocava duas lanchas, com as cargas e os respectivos carregadores, cerca de setenta, embrenhando-se depois todos na floresta. (…)
Sem escolta e a pé. E ainda arranjava tempo para escrever um diário, em que tudo anotava. Conseguir alimentar toda aquela gente era o grande problema de todos os dias. Volta e meia queixava-se: «Tenho arroz para dois dias. Como alimentar tanta gente? Ninguém vende nada e é tudo caríssimo». (…)
Seguiu por Mucaca, Angiva e Mundingo, até Chimoio, Manica e Macequece, junto à fronteira com a Rodésia. (…)
As anotações que tomou confirmam que todo o comércio do interior estava nas mãos de ingleses. Há referências à orografia e à vegetação, registadas em linguagem técnica apropriada, à Companhia de Moçambique, à fome das populações, aos ingleses que por ali aguardavam o caminho-de-ferro, sobrevivendo com enormes privações. Franceses, ingleses e portugueses percorriam aqueles sertões à procura de veios de ouro, e à espera do tal caminho-de-ferro que viria permitir a sua exploração.
«Em 29 chegou, pois, a Massiquece, em cujos arredores foi escolhido o local para a instalação d’uma missão. (…) Segundo o seu plano, esta missão seria a sede d’outras que deveriam ser fundadas n’outros pontos da região».
(…) Pretendia subir dali para Tete, pelo Bárue , mas, não tendo conseguido, acabou por regressar pela Gorongosa. Voltou a Chimoio, Mucaca, subiu a Gouveia e rumou a nordeste, até Sena. (…)
Ao ter conhecimento dos desmandos que se praticavam naquela zona onde havia graves contendas de interesses entre grupos rivais que actuavam fora de lei, não conteve um assomo de ira: «Esta Zambézia tem sido um pinhal da Azambuja, um covil de crimes que nos deshonram. (…) Nestas coisas o preto é, em geral, quem paga as despesas e são os muzungos (termo banto usado na Zambézia para se referir a indivíduos de pele clara geralmente portugueses) que recebem os proveitos». Acrescentou ainda, que não haveria naquele «país zambeziano», um palmo de terra que não tivesse associada à recordação de qualquer crime. (…)
Tomando uma embarcação, (…) desceu o rio Zambeze e subiu novamente até Quelimane, onde chegou a 22 de Outubro de 1892, no termo desta peregrinação pelas terras de Manica. Ali, aguardou três semanas por um barco que o levou de regresso à Ilha de Moçambique.
Fora deveras difícil a viagem que assim terminava. Parte dela foi feita debaixo de febres. Precisou de uma consulta médica, mas não a conseguiu, por não dispor das vinte e cinco libras que lhe pediu um médico de Umtali. Várias vezes sentiu carência de alimentos e muita sede.
No dia 9 de Outubro, escreveu: «Passei fome», e a 15 diz terem bebido água negra e imunda. Para cúmulo, perdera a ametista do anel da sagração episcopal, oferecido pela Sociedade de Geografa. E que tanto estimava. (…) Registou no seu diário, em 6 de Novembro de 1892: “Fiz ontem os meus trinta e oito anos sem que ninguém soubesse.”
Era esta a fibra deste minhoto de rija têmpera que aliava o zelo missionário à investigação científica. (9/9/2026)
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