“A CONDIÇÃO HUMANA É ADMIRÁVEL”.
Quando já se corre a ‘Volta a França’…
(Fotografia) - No sopé dos Pirenéus
Este monumento aos heróis do ‘Tourmalet’ que Ribeiro da Silva, de Lordelo, Paredes, ganhou em 1957, fez-me recordar outras etapas míticas do ‘Tour de France’ como o ‘Alpe d’Huez’ que Joaquim Agostinho, de Torres Vedras, venceu em 1979, e, o ‘Mont Ventoux’
Esta última, que ainda nenhum ciclista português venceu, trouxe-me à mente o livro “O Homem que Plantava Árvores”, em que Jean Giono conta a história surpreendente, por ele vivida, “nessa ancestral região dos Alpes” precisamente, “no sopé do Mont–Ventoux.” (pág. 10)
Tudo começou em 1913, numa “longa jornada naquela terra extensamente despovoada, nua e monótona, onde só a alfazema silvestre florescia. (…) Encontrei uma fonte, de facto, mas estava seca. (…) Nestas terras desabrigadas e elevadas, o vento soprava com uma brutalidade insuportável. Os seus uivos contra as ruínas das casas eram como os de uma fera interrompida a meio da refeição.”
Após cinco horas de marcha sem ver água, encontrou um pastor: “Ofereceu-me de beber do seu cantil”. Em sua casa, fê-lo “partilhar da sua sopa. (…) Ficou logo subentendido que eu passaria ali a noite.”
E o que viu?
O pastor “foi buscar um pequeno saco e despejou sobre a mesa um monte de bolotas. Pôs-se a examiná-las uma a uma com muita atenção, separando as boas das más. (…) Quando juntou uma pilha razoável de bolotas, começou a contá-las e separou-as em pacotes de dez.”
No dia seguinte, “foi buscar o rebanho e levou-o ao pasto. Antes de se ir embora, mergulhou num balde de água o saquinho onde tinha juntado as bolotas. (…) Em vez de um cajado ele levava na mão um varão de ferro.”
Enquanto o rebanho pastava, “fazia um buraco onde punha uma bolota, e depois tapava-o com terra. Plantava carvalhos.”
Na conversa que se seguiu, disse-lhe que havia “três anos plantava árvores naquela região deserta, sozinho. Já tinha plantado cem mil das quais vinte mil já tinham nascido. (…) Separámo-nos no dia seguinte”.
No ano a seguir começou a guerra de 1914. “No fim da guerra, (1918) retomei o caminho daquelas paragens desertas.”
Encontrou o velho pastor que “já só tinha quatro ovelhas, mas em contrapartida, tinha uma centena de colmeias. (…)
Continuara a plantar imperturbavelmente. (…) Levara adiante a sua ideia como testemunhavam as faias, estendendo-se a perder de vista. Os carvalhos estavam densos. (…) Mostrou-me os formidáveis bosques de bétulas que datavam de há cinco anos.”
E que mais viu?
“Na descida de volta para a aldeia, vi correr água em regatos que, desde que havia memória, sempre tinham estado secos. (…) O vento também dispersava algumas sementes. Ao reaparecer a água, reapareceram os salgueiros, os vidoeiros, os prados, os jardins, as flores e uma certa razão de viver.”
Em 1935, “a encosta por onde tínhamos vindo estava coberta de árvores com seis a sete metros de altura. Recordei o aspeto da região em 1913, um deserto… (…) Vi Elzéard Bouffier (assim se chamava o pastor) pela última vez em junho de 1945. Tinha então oitenta e sete anos. (…) A camioneta deixou-me em Vergons. Em 1913, esse lugarejo com dez ou doze casas tinha três habitantes. (…) A sua condição era sem esperança. (…)
Mas agora tudo estava mudado. Até o próprio ar. Em vez das rajadas de vento secas e violentas que sopravam no passado, acolheu-me uma brisa suave carregada de aromas. Um som semelhante ao da água a correr vinha do alto: era o vento da floresta. (…)
O lugar contava agora vinte e oito habitantes, incluindo quatro jovens casais. As casas novas tinham em volta jardins onde cresciam, misturados, mas ordenados, os legumes e as flores, as couves e as roseiras. Era agora um lugar onde apetecia viver.”
E em jeito de conclusão… “Quando penso que um único homem, reduzido aos seus simples recursos físicos e morais, foi suficiente para fazer surgir do deserto esta terra de Canaã, acho que, apesar de tudo, a condição humana é admirável.” (pág. 61)
Esta história ilustra bem o título que o Papa Leão XIV deu à sua primeira encíclica: ‘Magnífica Humanidade’…
Quando as férias se avizinham, este pequeno livro – boa prenda para os mais novos - poderá ser uma bela leitura…(8/7/2026)
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