O LOUCO DE DEUS NO FIM DO MUNDO
Quando acabei de ler a entrevista de que dei nota na semana passada, logo nasceu em mim o desejo de ler este livro que abre com uma surpreendente e bem clara declaração de interesses:
“Sou ateu. Sou anticlerical. Sou laicista, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo.”
Ao embrenhar-me na sua leitura, fui registando as ideias que me pareciam de maior realce. E foi tal a abundância que, na impossibilidade de uma síntese, decidi imaginar uma conversa com o seu autor, Javier Cercas:
- Pergunta – Quem é para si o Papa Francisco?
- J. C. – É o louco de Deus, um cristão na cadeira de Pedro.
“Bergoglio foi o primeiro papa que optou por se chamar Francisco. Francisco é, evidentemente, Francisco de Assis, o jovem de boas famílias que renunciou a um futuro magnífico de amores, poesia e milícia para se consagrar a Deus: o asceta que convivia com os pobres e com os doentes e chamava irmãos e irmãs aos animais, ao fogo e às plantas; o precursor do ecologismo; il poverello, como lhe chamaram os seus contemporâneos. O louco de Deus, como escolheu chamar-se. (…)
O Papa Bergoglio é o louco de Deus. Quem é o louco de Deus? Quem é o Papa Francisco?” (pág. 26) “Bergoglio não é um super-homem (…) é só um homem comum e corrente. É esse, digo já, o segredo de Bergoglio. E é isto que o torna verdadeiramente um cristão sentado na cadeira de São Pedro.” (pág. 427)
- P. – Quem mais o impressionou nesta viagem?
- J.C. – Apaixonei-me pelos missionários:
“Fico a ponto de abjurar das minhas responsabilidades familiares, de entrar no primeiro avião para Ulan Bator e de me juntar às hostes do Padre Ernesto.” (pág. 355)
- “De repente, volta a acometer-me o desejo furioso de apanhar o primeiro avião com destino à Mongólia para me juntar à guerrilha do Padre Ernesto.” (pág. 385)
- P. - Quem este este P. Ernesto?
- J.C. - Um italiano a viver com quarenta graus negativos.
“Nasceu há setenta e dois anos na província de Bérgamo (pág. 208). “Aterrou em Ulan Bator em fevereiro de 2004. (pág. 210) “Vive na comunidade com missionários da Consolata, em dois apartamentos de um bairro humilde de Ulan Bator: os homens ocupam o apartamento inferior e as mulheres, o superior. Os membros do grupo são jovens, alguns deles muito jovens, o padre Ernesto é, de longe, o mais velho. Ninguém conhece como ele as asperezas da vida de um missionário na Mongólia”. (pág. 212)
- P. - O que faz o P. Ernesto que tanto o apaixona?
- J.C.- Servir os mais pobres.
“Levanta-se todos os dias às cinco da manhã, reza as suas orações e passa o resto do dia com os miúdos em ‘O Sol que Sai.’. Às vezes juntamente com outros missionários, colabora com os serviços sociais da Câmara Municipal local ou do Governo, socorrendo pessoas necessitadas com comida, dinheiro ou assistência.” (pág. 212)
- P. - E porque fazem tudo isso?
- J.C- Dar esperança. Disse-mo a irmã Ana, uma das missionárias queniana que trabalha com o P. Ernesto e que, com humor, diz estar habituada aos quarenta: “No Quénia, vivia com quarenta graus acima de zero, aqui com quarenta graus abaixo de zero…”.
“Nós queremos estar com as pessoas, entrar nas suas casas, perguntar-lhes de que precisam e depois tentar dar-lhes. Nada mais. Queremos dar-lhes um pouco de esperança.” (pág. 274)
- P. - Mesmo sendo ateu, poderá dar um conselho às mulheres e homens da Igreja?
- J.C. – Sim, como respondi ao prefeito do Dicastério para a Comunicação:
“Descobri a solução para todos os problemas da Igreja. (…) Todos missionários”. (pág. 385)
- P. – Desculpe a curiosidade… Sempre fez ao Papa a pergunta que motivou a sua viagem? Se sim, o que lhe respondeu?
- J.C. – “Digo-lhe que sim. Terás de ler o livro para ficares a saber. E, além disso, terás de o ler até ao fim.” (pág. 384)
- Sei que, no próximo dia 26 de junho, vai estar no Festival Literário Babel. Seja bem-vindo à nossa cidade que ‘pode trocar os bês pelos vês, mas nunca a liberdade pela tirania’. Obrigado pela sua presença. E parabéns à Livraria Lello pela sua bela iniciativa. (23/6/2026)
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