O Tanoeiro da Ribeira

terça-feira, junho 30, 2026

CONHECER PORTUGAL – IX – AQUI NASCEU ‘A PRIMEIRA TARDE PORTUGUESA’

Foi há 898 anos. D. Afonso Henriques e os nobres portucalenses fizeram nascer a ‘primeira tarde portuguesa’, ao vencerem as tropas de D. Teresa e de Fernão Peres de Trava, na batalha de S. Mamede (24/6/1128). Em homenagem a esse feito, vamos percorrer o rio Ave que passa no coração do antigo Condado Portucalense. Iniciamos o passeio a 1200 metros de altitude na serra da Cabreira, em Vieira do Minho. Paramos no santuário de Nossa Senhora da Orada, um lugar edílico, onde o rumorejar das cachoeiras se harmoniza com o gorjeio dos passarinhos. Segue-se um convite ao silêncio contemplativo na albufeira do Ermal, um espelho azul debruado pelo verde das margens. A partir daqui, vamos, mesmo sem canoa, descer os rápidos do rio, com paragens nas suas pontes medievais… E a primeira é, já em Póvoa de Lanhoso, na ponte Mem Gutierres ou da Esperança, de um só arco suspenso nas alturas. Construída no século XIV é monumento nacional desde 1910. A partir daqui, fazemos uma pequena volta pelo concelho. Subimos ao santuário da Senhora do Pilar (séc. XVII), no maior monólito da Península Ibérica que culmina no castelo de Póvoa de Lanhoso, de origens romanas, reconstruído no final do século XI. Ao descer, visitamos o castro de Lanhoso. Segue-se a igreja românica de Fontarcada, dos finais do séc. XIII. É a terra da famosa Maria da Fonte. Em Travassos, visitamos o Museu do Ouro. E terminamos no santuário de Nossa Senhora de Porto d’Ave, do século XVIII. Continuamos até à ponte Donim, já no concelho de Guimarães, construída em 1192, com quatro arcos de volta inteira. Aproveitamos para subir até à citânia de Briteiros, considerada um dos mais importantes sítios arqueológicos de Portugal, com origens no século II a.C. Após visitar, na capital do Condado, o Castelo e a capela de S. Miguel onde D. Afonso Henriques terá sido batizado, o Paço dos Duques, o Largo da Oliveira com a igreja da Colegiada e o Padrão do Salado (séc. XIV), damos uma saltada a Tagilde, na margem do Vizela, onde foi celebrado o Tratado com o mesmo nome, entre Portugal e a Inglaterra em 10/7/1372, no ano anterior ao tratado de Londres (16/6/1373) que consagrou a Aliança Luso-Britânica. E seguimos até à ponte românica de Lagoncinha, sé. XII, ainda hoje com serventia. Estamos em Famalicão. A partir daí, vamos até à igreja de Santiago de Antas, sec. XII. Seguimos para o mosteiro de Arnoso que terá sido edificado no séc. VII. Destruído pelos mouros, foi reconstruído no sec. XII. No tímpano lateral, tem a data de 1156. Demoramo-nos em Landim, no seu mosteiro, de fachada quinhentista, construído no sec. XII e profundamente modificado no séc. XVI, e no Real Colégio D. Fernando onde fez a escola primária o historiador Alberto Sampaio. Em Bagunte, já no concelho de Vila do Conde, maravilhamo-nos com a ponte D. Zameiro ou Ponte d’Ave, ‘referida já em 1185, quando o bispo do Porto, D. Fernando Martins, fez testamento e deixou dinheiro para a sua construção’. (Fotografia ) – Ponte D. Zameiro Os ‘Moinhos do Ave’, a jusante, são conhecidos desde as Inquirições de D. Afonso III, em 1258. Os moinhos e a roda de azenha, adossada ao moinho da margem esquerda, que elevava a água para os campos ribeirinhos, ainda os vi a funcionar no dia 8 de agosto de 1974. Aproveitamos para subir até é à Cividade de Bagunte, da Idade do Ferro, ali bem perto, monumento nacional desde 1910 e uma das mais extensas povoações castrejas do noroeste peninsular. Descemos para a veiga do rio Este onde visitamos a igreja românica de Rio Mau (séc. XII) que nos surpreende pela abundância e riqueza dos capitéis e o Mosteiro de S. Pedro de Rates (sec. XII)., este já no concelho da Póvoa de Varzim: de três naves, um dos templos românicos mais significativos de Portugal. Descendo o rio Este, paramos na Ponte Românica de Touguinhó que nos encanta com o coaxar das rãs, o volutear das borboletas e o murmúrio dos açudes. Em Vila do Conde cuja visita fica para outro dia, lembrei os versos de José Régio, um dos seus filhos: ‘Vila do Conde, espraiada/ entre pinhais, o rio e o mar’. (1/7/2026)