O Tanoeiro da Ribeira

quarta-feira, junho 17, 2026

COMO UM ATEU VÊ A IGREJA E A FÉ

Vem aí o ‘Festiva Babel, com o ‘melhor cartaz que um evento literário pode ter’. Ocorrerá no Porto, de 24 a 29 de junho. Entre os nomes insignes, portugueses e estrangeiros, consta Javier Cercas, um ‘ímpio inveterado’ que, por convite, acompanhou o Papa Francisco na viagem oficial à Mongólia em agosto de 2023, de que “nasceu ‘O louco de Deus no fim do Mundo’, uma experiência transformadora da visão que tinha da Igreja Católica, ainda que não tenha abalado o seu ateísmo militante.” Da entrevista sobre esse livro que o JN publicou (9 /11/2025), respiguei algumas falas.: Pergunta – Como é que um ateu escreve um livro onde a religião tem um peso tão forte? Resposta: A Igreja Católica é absolutamente determinante nos últimos dois mil anos de História. Determinante nos mais variados sentidos: político, cultural, ético…” P.- É verdade que os seus amigos tinham receio de que branqueasse o Vaticano? R. – Sim, mas não faz sentido. Será que Shakespeare branqueou Ricardo II quando escreveu sobre ele? P. – Estar no Vaticano, ter acesso aos seus bastidores, mudou a opinião que tinha? R. – Mudou totalmente. O maior esforço que fiz para escrever este livro foi limpar a minha mente de todos os preconceitos que tinha. Não foi fácil. Todos estamos repletos de ideias feitas sobre a Igreja. Procurei saber como é realmente o Vaticano O que procurei foi ver o que havia realmente, não o que me interessava ou que achava que havia. P. - O seu ateísmo foi abalado? R.- Não, não me converti. No livro, fala-se muito da fé. Lembro-me que, ao falar com o cardeal Tolentino Mendonça, disse-lhe que a fé é uma intuição poética. Ele concordou. Quando conversei com o Papa Francisco, a resposta dele foi muito distinta: a fé é um dom, um presente. Não considero que estas respostas sejam contraditórias. Acho que se completam. Em todo o caso, a fé não é voluntária. Como digo várias vezes no livro, é como um superpoder. Dá-te uma serenidade e uma força imensas. A minha mãe é capaz de fazer coisas que nunca consegui. Se quisesse recuperar a fé, não teria como fazê-lo. P. – Diz que só se tornou escritor porque perdeu a fé. A literatura para si é uma religião? R. – Para mim, a literatura foi um substituto da fé. Encontrei nos livros um refúgio. Acreditava que o meu caso era especial, mas agora dou-me conta de que não era assim tanto. Nietzsche foi o primeiro a denunciar que vivíamos num mundo sem Deus. O ‘louco de Deus’ de que o livro fala é o louco de Nietzsche. Compreendeu que Deus não existe e pergunta o que devemos fazer agora que perdemos aquele que dava sentido ao Mundo. Essa é uma pergunta central para a arte e para a filosofia contemporâneas. p. - E na Humanidade, acredita? R. – A grande questão é que antigamente a fé dava um sentido global a tudo. Agora não temos esse instrumento que dava sentido a tudo. O que temos agora são crenças parciais. Em vez de um grande relato, temos pequenos relatos. Quem diz que não acredita em nada já está a acreditar em alguma coisa, na verdade. É um absurdo achar-se isso. P. – A longevidade da Igreja Católica é o maior dos milagres? R. – Não existe uma instituição igual. Nenhuma durou mais de dois mil anos. Se fosse crente, acreditaria que essa longevidade era da ordem do milagre, Não sendo, considero-a um feito histórico. O seu papel mudou muito nas últimas décadas. Agora, precisa de saber qual a sua missão. É um trabalho árduo, o que explica as profundas mudanças por que tem passado desde o Vaticano II. O maior desafio é voltar ao cristianismo de Cristo. O Papa Francisco ambicionou-o, mas a mudança é um trabalho para 50 papas, não para um. P. – O que fica de concreto do Papa Francisco? R. – De todos os papas que tentaram o reencontro da Igreja Católica com a sua essência, Francisco foi o que levou esses esforços mais longe sem que o tenha conseguido, como é evidente. Uma das coisas que aprendi é que a Igreja Católica é um organismo incrivelmente complexo, que muda de forma total de país para país. No seu interior, tanto cabem pessoas de extrema direita como de extrema esquerda. É uma revolução muito difícil de ser alcançada. P. – Privou com a estrutura hierárquica que rodeia o Papa. É aí que reside o poder? R. – Há muitos mal-entendidos. A ideia de que a oposição vinha do Vaticano, dos bispos e cardeais que conspiravam, é um cliché barato das películas. A oposição vem da complexidade da Igreja Católica. Concluindo… “O maior desafio é voltar ao cristianismo de Cristo. “ (17/6/2026)