O Tanoeiro da Ribeira

quarta-feira, setembro 23, 2026

CONHECER PORTUGAL – X – EM TEMPO DE VINDIMAS

Para celebrar as ‘bodas de prata’ do ’Alto Douro Vinhateiro’, Património da Humanidade (14/12/2001), convido-vos para um passeio… Guia-nos a Estrada Nacional 222, a marginal do Douro que se orgulha de ser uma das mais belas do mundo e liga as ‘vilas novas’ de Gaia e Foz Côa. Entramos por Resende, terra de boa cereja. Subimos até ao mosteiro de Santa Maria de Cárquere (séc. XII) que terá sido construído por Egas Moniz após a cura milagrosa do menino Afonso Henriques que ‘tinha as pernas encolheitas’. O horizonte alarga-se pelas terras de Baião que Eça tão bem descreveu em ‘A Cidade e as Serras’. Quando, em 1970, o visitei pela primeira vez, senti-me mergulhar na Idade Média . Descemos até à igreja de S. Martinho de Mouros, românica, (séc. XIII) que impressiona pela sua fachada-fortaleza. E aí, recordarei o concerto que o Coro Gregoriano do Porto apresentou (19/5/ 2002), integrado numa feira medieval. Continuamos até á igreja de Barrô, de origem românica. Daqui, era natural o senhor Alexandre Feliciano que, no início do trabalho comunitário da Obra Diocesana, liderou a ‘Comissão Missa e Catequese’, origem da paróquia de Nossa Senhora do Calvário, no Porto.. A minha gratidão. Ao chegar ao rio Varosa, fazemos um desvio até à igreja de S. Pedro de Balsemão, visigótica (sec. VI-VII) e, profundamente alterada, no século XIV pelo bispo do Porto, D. Afonso Pires, que a escolheu para sua capela funerária e onde se encontra o seu sarcófago. Já, em Armamar, terra de boa maçã, vamos até à capela romano-gótica de S. Domingos da Queimada e deixamo-nos inebriar pelo panorama sobre a Régua que nos leva até às alturas do Marão e, do lado sul, até Lamego e à serra das Meadas. Na vila, admiramos a igreja matriz, românica (séc. XII), com frescos e siglas românicas no arco duma capela lateral. No miradouro, os olhos alongam-se pelo vale do Douro e param em S. Leonardo de Galafura, ‘à proa dum mar de rochedos’ (Torga) Passado o rio Tedo, subimos para Tabuaço, onde nos chama a igreja de S. Pedro das Águias, incrustada nas arribas graníticas do vale do Távora, românica (séc. XI). No seu pórtico, escondido nas rochas, deslumbram-nos as arquivoltas, o tímpano vazado, os capitéis e os guardiões do limiar. O meu amigo George, um médico siciliano, com formação nos Jesuítas, ao vê-lo, disse que lhe fazia lembrar a arte egípcia. (Fotografia) S. Pedro das Águias Voltamos à EN222 e, na foz do rio Torto, já próximo do Pinhão, começamos a subir para São João da Pesqueira, no coração do Douro Vinhateiro. Visitamos Soutelo do Douro, defronte da foz do Tua,, onde admiramos o seu pelourinho manuelino, símbolo do concelho medieval extinto em 1830, que muito honra os seus naturais. O pai da nossa amiga Altina Ferronha, com humor, apresentou-mo como ‘o habitante mais velho da aldeia’. E não podemos deixar de subir ao santuário de São Salvador do Mundo, sobre a albufeira da Valeira (1976). Quando o visitei pela primeira vez, ainda vi o famoso ‘Cachão da Valeira’ onde morreu o Barão de Forrester (12/5/1861) e, no mesmo naufrágio, se salvou D. Antónia Ferreira, ‘A Ferreirinha’, porque, dizem, a saia formou balão. É uma paisagem de sonho. Já em Vila Nova de Foz Coa, deambulamos pelo velho castelo de Numão, (séc. X), descemos até à vila romana das ‘Ruínas do Prazo’ e percorremos a ‘calçada romana’ de Freixo de Numão onde, na Páscoa, já ouvimos cantar o cuco. Na vila, admiramos a igreja matriz, de estilo manuelino e barroco. que nos surpreende pela imponência da sua frontaria. Bem perto, demoramo-nos a visitar o ‘Museu do Coa’, da arte rupestre, extasiamo-nos com a paisagem do vale e iremos até às gravuras na ‘Canada do Inferno, local onde, em 1991, foi identificada a primeira rocha gravada. E a nossa viagem finaliza já na antiga comarca leonesa de Ribacôa’, na margem direita do Côa, que passou a ser portuguesa, pelo Tratado de Alcanizes (12/9/1297), fez há pouco 729 anos. Subimos ao velho castelo de Castelo Melhor. E aí recordo o senhor António Relva que me acompanhou na última vez que o visitei. Agente da PSP no Porto, quando se aposentou regressou à sua terra e, de tal modo colaborou nas atividades paroquiais, que o senhor bispo da Guarda o convidou a candidatar-se ao diaconado permanente. Agradeceu, mas não o fez para não deixar a sua esposa sozinha durante as demoradas ausências a que o obrigaria a frequência do curso preparatório. A minha homenagem. Terminamos com um cálice de “Vinho Fino é para os Antigos; Tratado, p’rós Lavradores; Generoso é p’rós Amigos; Do Porto, p’rós Doutores”.(23/9/2026)